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Desenhos bíblicos da Record deixam de ter classificação livre por “violência e preconceito”

Programa infantil exibido nas manhãs de domingo foi classificado como não recomendado para menores de 12 anos; Ministério da Justiça aponta violência, atos criminosos, drogas lícitas e preconceito

Por: DAVI MARTINS Fonte: DA REDAÇÃO - DAVI MARTINS
03/11/2026 às 13h25
Desenhos bíblicos da Record deixam de ter classificação livre por “violência e preconceito”
'Record Kids: desenhos bíblicos' — Foto: Reprodução/O Globo

DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA

Os desenhos bíblicos exibidos pela Record nas manhãs de domingo tiveram a classificação indicativa elevada de livre para não recomendada para menores de 12 anos. A decisão foi tomada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e publicada no Diário Oficial da União em 29 de outubro. A mudança provocou repercussão e questionamentos sobre os critérios utilizados para avaliar animações que apresentam histórias e personagens da Bíblia.

De acordo com informações divulgadas pelos jornais O Globo e Metrópoles, a reclassificação atinge o programa Record Kids: Desenhos Bíblicos, atração que integra a programação infantil da emissora e é exibida aos domingos, a partir das 09h.

A determinação consta da Portaria nº 2.272, de 28 de outubro de 2026, assinada por Eduardo de Araújo Nepomuceno, coordenador-geral de Políticas de Classificação Indicativa do Ministério da Justiça. O documento estabelece quatro justificativas para a nova classificação: presença de atos criminosos, drogas lícitas, violência e estigma ou preconceito.

A portaria, entretanto, não identifica publicamente quais episódios ou cenas específicas das animações motivaram cada um dos apontamentos.

Quais desenhos foram atingidos pela decisão?

Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles, o programa reúne animações das coleções As Histórias Animadas da Bíblia, dedicadas ao Antigo Testamento, e As Histórias Animadas do Novo Testamento.

As produções foram desenvolvidas pela Nest Family Entertainment em parceria com a Rich Animation Studios, sob direção de Richard Rich, que trabalhou anteriormente na Disney.

Entre os episódios estão adaptações de histórias de Moisés, Davi e Golias, José do Egito, Daniel na Cova dos Leões, Noé, Abraão e Ester.

As animações também retratam acontecimentos do Novo Testamento, incluindo o nascimento de Jesus Cristo, seus milagres, parábolas, crucificação e ressurreição, além da conversão de Paulo de Tarso e episódios inspirados no livro de Atos dos Apóstolos.

O bloco infantil Record Kids estreou em 2003 e permanece na programação dominical da emissora.

Desenhos poderão continuar sendo exibidos pela manhã?

Com a classificação de 12 anos, a recomendação do Ministério da Justiça é que o programa seja exibido na televisão aberta a partir das 20h, diferentemente do horário matutino tradicionalmente utilizado pela emissora.

Isso, porém, não significa que os desenhos foram proibidos ou que a Record esteja obrigada a retirar o programa das manhãs de domingo.

O sistema de classificação indicativa tem caráter informativo e orienta pais e responsáveis sobre a adequação de conteúdos audiovisuais às diferentes faixas etárias. Conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF), a indicação de horário não representa uma imposição obrigatória às emissoras de televisão.

Assim, a classificação foi alterada, mas a decisão não impede automaticamente a continuidade da exibição do programa às 9h.

Advogado questiona decisão e acusa governo de censura

A reclassificação também provocou uma reação judicial. Segundo reportagem publicada pelo Metrópoles nesta terça-feira (3), o advogado Wilian Frata protocolou uma ação popular na Justiça Federal pedindo a suspensão da portaria.

O advogado considera a medida desproporcional e argumenta que o governo não apresentou informações suficientes sobre quais cenas das produções justificariam a classificação para maiores de 12 anos.

Em entrevista ao Metrópoles, Frata classificou a decisão como uma forma de perseguição e censura contra conteúdos ligados à tradição cristã.

O advogado também associou a medida ao cenário político após as eleições presidenciais de outubro, sugerindo que a decisão teria motivação política. Essa interpretação, entretanto, representa uma alegação do autor da ação e não foi demonstrada pelas informações disponíveis sobre a portaria.

O documento oficial apresenta justificativas relacionadas ao conteúdo audiovisual, sem apontar a temática religiosa como motivo para a reclassificação.

Caso gera debate sobre classificação e liberdade de programação

A controvérsia envolve os critérios utilizados pelo Ministério da Justiça para analisar conteúdos destinados ao público infantil e os limites da atuação estatal na classificação de programas de televisão.

Enquanto a portaria aponta elementos como violência, atos criminosos e preconceito, os críticos da medida questionam a falta de detalhamento das cenas e a adequação da nova faixa etária para animações de temática bíblica.

A classificação indicativa, por sua vez, não corresponde à proibição do conteúdo. Sua finalidade é informar o público sobre características das obras e oferecer orientação às famílias.

Até a publicação da reportagem do Metrópoles consultada pela Folha Extra, a Record não havia apresentado posicionamento sobre a mudança.

Fontes: O Globo, Metrópoles, Portaria nº 2.272/2026 do Ministério da Justiça e Segurança Pública e orientações oficiais sobre classificação indicativa.