
DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
JAGUARIAÍVA - Lixa de unha, tábua de carne, pente, ursinho de pelúcia, cinzeiro, caixa de fósforos, cadeado e até ioiô. Objetos que hoje dificilmente seriam associados a uma campanha eleitoral fazem parte de uma coleção mantida em Jaguariaíva, nos Campos Gerais, que ajuda a contar aproximadamente 100 anos da história das eleições.
O responsável pelo acervo é o historiador Rafael Gustavo Pomim Lopes. Dentro de casa, ele guarda mais de 4 mil santinhos e centenas de outros materiais relacionados a eleições realizadas ao longo das últimas décadas.
Entre as relíquias estão títulos de eleitor antigos, inclusive do período das primeiras eleições em que as mulheres puderam votar no Brasil, além de uma urna de lona, utilizada para receber os votos em papel antes da implantação das urnas eletrônicas.
A coleção também chama atenção pelos brindes que já fizeram parte das campanhas. Lixas de unha, louças, caixas de fósforos, pentes e tábuas de carne carregam nomes e propagandas de candidatos de outras épocas. A distribuição desse tipo de material por campanhas é proibida pela legislação eleitoral há cerca de duas décadas.
A história de Rafael com esses materiais começou muito antes de ele se tornar historiador. Em 2000, quando tinha apenas 11 anos, ele acompanhava a movimentação política no bar mantido pela mãe em Jaguariaíva.
Candidatos frequentavam o estabelecimento durante o período eleitoral e deixavam santinhos. Foi então que o pai de Rafael teve uma ideia: em vez de jogar os papéis fora, o garoto poderia guardá-los como se estivesse montando um álbum de figurinhas.
Ele começou a colar os santinhos em um caderno. O que inicialmente era uma brincadeira de criança acabou despertando um interesse que atravessaria as décadas seguintes.
“Dali para frente eu tomei gosto, pela convivência com os políticos da cidade e achando aquilo interessante, porque o que me chamava a atenção era que depois que passava a eleição, aquilo ia para o lixo”, contou Rafael.
O interesse pela memória também se refletiu na vida profissional. Rafael se formou em História e trabalhou diretamente com preservação de documentos, fotografias e objetos históricos.
Enquanto muitos dos materiais eleitorais eram descartados assim que terminava a campanha, ele seguiu fazendo justamente o contrário: guardando.
Com o passar dos anos, o pequeno álbum ganhou proporções muito maiores.
Hoje, são mais de 4 mil santinhos, além de centenas de outros objetos. Rafael não faz distinção por partido, candidato ou tipo de eleição. O objetivo é preservar os materiais pelo valor histórico, independentemente de quem apareça neles.
O acervo também não se limita ao Brasil. Entre as peças existem materiais relacionados a campanhas realizadas nos Estados Unidos.
Algumas das relíquias remetem até a eleições brasileiras que não chegaram a acontecer, como a prevista para 1965, cancelada durante o período da ditadura militar.
Para encontrar novos itens, Rafael conta com a ajuda de amigos e familiares, procura candidatos, participa de leilões e também compra peças pela internet.
O historiador ainda integra um grupo formado por 26 colecionadores de diferentes partes do país. Entre eles, materiais encontrados durante os períodos eleitorais são negociados e trocados para ampliar os respectivos acervos.
Depois de mais de duas décadas colecionando, o que começou como uma brincadeira com santinhos ganhou outro significado.
Para Rafael, preservar esses objetos significa impedir que registros de diferentes momentos da política brasileira desapareçam. Uma propaganda feita para circular durante algumas semanas pode, décadas depois, ajudar a entender como eram as campanhas, os candidatos e até os hábitos dos eleitores de determinada época.
“É a história do país como um todo. E como eu já trabalhei em museu, a gente vai vendo a importância disso, do preservar. É tão gratificante quando você tem aquele material que literalmente conta uma história”, afirmou.
É justamente essa história que ocupa hoje parte da casa do morador de Jaguariaíva. De um simples santinho a uma antiga urna de lona, cada objeto preservado por Rafael guarda um fragmento de eleições que passaram, mas que, graças à coleção, não terminaram no lixo.
Matéria original: G1 Paraná.