
DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
ARAPOTI - A Polícia Civil do Paraná (PCPR) instaurou um procedimento investigatório para apurar supostos episódios de injúria racial contra duas trabalhadoras terceirizadas que atuavam na equipe de limpeza de um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) de Arapoti, nos Campos Gerais.
O caso chegou à reportagem da Folha após o Movimento CHEGA, de Arapoti, publicar uma nota de repúdio nas redes sociais em apoio às trabalhadoras. Posteriormente, a denúncia ganhou novos desdobramentos com a divulgação de uma carta da Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência, documento de três páginas que apresenta relatos detalhados sobre os episódios que teriam ocorrido no ambiente de trabalho.
Procurada pela reportagem, a Polícia Civil confirmou que os fatos são investigados. Conforme a PCPR, as vítimas relataram “atitudes discriminatórias recorrentes em razão da cor de sua pele”.
Entre as situações comunicadas à polícia estão supostas ofensas verbais, condutas consideradas preconceituosas relacionadas à entrega de materiais e ferramentas de trabalho e o posterior desligamento das funcionárias da instituição.
A primeira manifestação pública sobre o caso partiu do Movimento CHEGA. Em nota divulgada nas redes sociais, o movimento manifestou “seu mais profundo repúdio a qualquer ato de racismo, discriminação ou preconceito” contra funcionárias de uma instituição da rede municipal de ensino de Arapoti.
Posteriormente, após ser procurada pela Folha, a direção do movimento encaminhou uma nota específica à imprensa e esclareceu que a manifestação havia sido publicada “em apoio a duas mulheres negras, trabalhadoras de um Centro Municipal de Educação Infantil aqui de Arapoti, que relataram ter vivenciado uma situação de racismo”.
O movimento afirmou que acolheu as trabalhadoras e defendeu a apuração dos fatos pelas autoridades. Segundo a direção, providências legais e institucionais estão sendo adotadas junto aos órgãos competentes e à rede de apoio.
Em contato com a reportagem, representantes do CHEGA informaram ainda que os relatos envolvem situações que teriam ocorrido durante atividades rotineiras das funcionárias dentro da unidade.
A situação também foi levada à Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência, que elaborou uma carta de denúncia e repúdio encaminhada a autoridades, à prefeitura de Arapoti, à Secretaria Municipal de Educação e a órgãos de defesa dos direitos da população negra e quilombola.
“Esse serviço era de preto”
O documento aponta que os episódios relatados teriam ocorrido no CMEI Helena Pavinski, no bairro Aratinga. A nota também identifica uma das funcionárias com as iniciais L. P. M.
Segundo a carta, uma das trabalhadoras prestava serviço há cerca de três anos na unidade por meio de uma empresa terceirizada que presta serviços à prefeitura. Ela afirma que, após uma mudança na direção do CMEI, passou a vivenciar situações que interpretou como manifestações de racismo, constrangimento, desrespeito e tratamento discriminatório em razão da cor da pele.
Um dos episódios relatados teria ocorrido em 14 de agosto. Conforme o documento, a funcionária e colegas retiravam fitas coladas em um quadro quando a acusada teria se aproximado para auxiliar no serviço e, posteriormente, feito uma afirmação de cunho racial relacionada à atividade. “Esse serviço era de preto”, teria dito a mulher, segundo a carta da Rede.
A trabalhadora afirma ter questionado imediatamente a fala e dito que a considerava racista. De acordo com seu relato, não houve pedido de desculpas naquele momento. “Segundo seu relato, a resposta teria sido um olhar acompanhado de um sorriso e o afastamento do local”.
A carta apresenta ainda outras situações que, segundo a denunciante, foram interpretadas como tratamento discriminatório.
Em uma delas, um trabalhador negro teria comparecido à unidade para realizar a entrega semanal de frutas. Conforme o relato apresentado pela funcionária, teria havido resistência em receber a mercadoria, comportamento que, na avaliação dela, seria diferente daquele adotado quando a entrega era realizada por um trabalhador de pele mais clara.
Outro episódio citado no documento envolve uma expressão que teria sido utilizada quando a trabalhadora chegava ao portão da unidade. Segundo ela, a frase lhe causava constrangimento e era percebida como manifestação de preconceito. “Achei que era gente”, teria dito a acusada.
A Rede Nacional de Mulheres Negras afirma que os relatos precisam ser devidamente apurados e destaca que relações de trabalho terceirizadas não diminuem os direitos fundamentais das trabalhadoras.
A carta detalha ainda uma reunião que teria ocorrido posteriormente na unidade.
Segundo as trabalhadoras, elas foram chamadas para conversar sobre supostas declarações que teriam sido atribuídas às duas por uma terceira pessoa. Elas teriam contestado as acusações e solicitado que essa pessoa participasse da conversa para que a situação fosse esclarecida.
Ainda conforme o relato apresentado à Rede, durante a discussão uma das trabalhadoras voltou a questionar episódios que considerava racistas. Na sequência, teria sido informada de que deveria deixar o local e que não faria mais parte da equipe do CMEI.
A funcionária também relatou que anteriormente a acusada teria informado à empresa terceirizada que o trabalho desempenhado pelas duas era considerado bom, embora não houvesse simpatia pelas trabalhadoras.
Nesta quinta-feira (24), a reportagem da Folha Extra entrou em contato com a pessoa citada nas denúncias para garantir espaço ao contraditório e apresentar sua versão sobre os fatos. Ela optou por não comentar, neste momento, os episódios relatados pelas trabalhadoras e afirmou que aguardará o andamento do caso. “Vou aguardar o andamento do processo e irei provar minha inocência perante a Justiça”, declarou.