
DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou em julho do ano passado uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, o impacto parecia distante para muitos moradores dos Campos Gerais. Poucas semanas depois, porém, a realidade bateu à porta de cidades como Jaguariaíva, Telêmaco Borba, Ventania e Arapoti. Empresas colocaram funcionários em férias coletivas, depois anunciaram cortes e produtores passaram a temer pelo futuro de suas atividades. O resultado: mais de 550 pessoas desempregadas.
Agora, menos de um ano depois, uma nova medida foi anunciada pelo governo norte-americano, e voltou a acender o sinal de alerta na região. Trump propôs uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, reacendendo o temor de que a região enfrente uma nova onda de impactos econômicos.
O medo não é apenas uma previsão, ele tem precedente. Há menos de um ano, o primeiro tarifaço de Trump desencadeou uma onda de demissões, férias coletivas e incertezas nos Campos Gerais. Agora, a nova tarifa ameaça novamente setores estratégicos da região, especialmente a cadeia da madeira e dos produtos florestais, responsável por milhares de empregos e diretamente dependente do mercado norte-americano.
Uma das empresas mais afetadas na região foi a BrasPine, gigante do setor madeireiro com unidades em Jaguariaíva e Telêmaco Borba. Dependente do mercado norte-americano para escoar grande parte da produção, a empresa foi uma das primeiras a sentir o impacto das barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Em julho do ano passado, cerca de 700 trabalhadores da unidade de Jaguariaíva foram colocados em férias coletivas. Pouco tempo depois, a medida também atingiu aproximadamente 800 funcionários da unidade de Telêmaco Borba. Somadas, as duas fábricas empregavam cerca de 2,5 mil pessoas.
O cenário continuou se agravando nos meses seguintes. Em setembro, mais de 200 trabalhadores foram demitidos em Jaguariaíva. Já neste ano, uma nova onda de desligamentos atingiu a unidade de Telêmaco Borba, com aproximadamente 250 funcionários perdendo seus empregos. Somando os cortes registrados desde o início da crise, centenas de famílias tiveram sua renda diretamente afetada.
Além das demissões, empresas recorreram a medidas como redução de jornadas, suspensão temporária de contratos e reorganização das operações para tentar sobreviver ao novo cenário internacional.
O impacto também atingiu outras indústrias da região. A Sudati, empresa do ramo de compensados e MDF, anunciou o desligamento de cerca de 100 trabalhadores em suas unidades de Ventania e Telêmaco Borba, atribuindo a decisão às dificuldades enfrentadas no mercado externo.
Mas os reflexos da guerra comercial ultrapassaram os portões das fábricas. Em Arapoti, considerada a maior produtora de mel do Brasil, a preocupação tomou conta dos produtores logo após o anúncio das tarifas. O município produz mais de 900 toneladas de mel por ano e tem cerca de 280 famílias que dependem diretamente da atividade.
Na época, uma das empresas responsáveis pela exportação do produto para os Estados Unidos suspendeu as compras logo após o anúncio do tarifaço. A decisão gerou apreensão entre os apicultores, que viram seu principal mercado consumidor ameaçado praticamente da noite para o dia.
A preocupação era simples: sem compradores, a produção poderia ficar estocada e comprometer a renda de centenas de famílias.
Embora parte dos impactos tenha sido absorvida ao longo dos últimos meses, o novo anúncio de Trump gera receio de que a região volte a enfrentar dificuldades semelhantes.
Especialistas apontam que empresas exportadoras costumam reagir rapidamente a mudanças tarifárias, principalmente quando dependem fortemente de um único mercado consumidor. O aumento dos custos pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, provocar queda nas vendas e forçar cortes de produção.
Nos Campos Gerais, onde setores como madeira, papel, móveis, derivados florestais e agronegócio possuem forte ligação com o mercado internacional, qualquer mudança nas regras comerciais dos Estados Unidos costuma gerar reflexos diretos na economia local.