
Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
As ruas seguem as mesmas, os bancos da praça continuam silenciosos, os carros passam apressados pela avenida, mas alguma coisa muda no ar. Talvez seja a arte chegando devagarinho. Talvez seja o teatro preparando sua antiga magia de transformar pessoas comuns em espectadores de si mesmos.
No próximo dia 26 de maio, a Casa da Cultura Neuri Camargo da Silva, em Siqueira Campos, será palco desse encontro raro entre literatura, emoção e sensibilidade com a apresentação do espetáculo “Amores Difíceis”, da Súbita Companhia de Teatro.
E talvez o mais bonito nisso tudo seja justamente a pergunta que o espetáculo carrega: afinal, o que é o amor?
Poucas perguntas são tão antigas e tão impossíveis.
O amor já foi escrito por poetas, cantado em serenatas, perdido em cartas antigas e derramado em lágrimas silenciosas. E agora ele retorna ao palco através de uma montagem inspirada em gigantes da literatura mundial, como Italo Calvino, Anton Tchekhov e Federico García Lorca.
Mas “Amores Difíceis” não parece interessado em oferecer respostas fáceis. Pelo contrário. O espetáculo mergulha nas contradições humanas, nos encontros mal resolvidos, nos afetos interrompidos, nos desejos, nas ausências e nas pequenas ruínas emocionais que todos carregamos escondidas atrás da rotina.
Dirigida por Maíra Lour, a peça reúne em cena Pablito Kucarz, Patrícia Cipriano, Dafne Viola e Zeca Sales, artistas que se revezam em múltiplos personagens, emoções e conflitos, construindo uma encenação contemporânea marcada pelo corpo, pelo movimento e pela intensidade emocional.
Há algo profundamente necessário no retorno dessa obra aos palcos após tantos anos.
Depois da pandemia, das distâncias emocionais, das relações atravessadas pela velocidade do mundo moderno, falar de amor tornou-se quase um ato de resistência. E o espetáculo compreende isso com delicadeza. Não fala apenas do amor romântico, mas também das fragilidades humanas, da solidão, da entrega e do medo que existe em todo coração que insiste em sentir.
Talvez seja justamente por isso que o teatro continue tão importante.
Porque enquanto o mundo se acostuma à pressa, o palco ainda nos obriga a olhar. A sentir. A permanecer.
E quando uma cidade do interior recebe um espetáculo dessa dimensão, algo precioso acontece. O teatro deixa de ser apenas entretenimento e se transforma em encontro. Encontro entre artistas e público. Entre silêncio e reflexão. Entre aquilo que somos e aquilo que escondemos.
A Súbita Companhia de Teatro, fundada em Curitiba em 2007, construiu ao longo dos anos uma trajetória respeitada no cenário cultural brasileiro, com pesquisas voltadas ao corpo, ao movimento e à dramaturgia contemporânea. “Amores Difíceis”, inclusive, já percorreu festivais importantes, recebeu premiações e foi indicado ao Troféu Gralha Azul, principal reconhecimento do teatro paranaense.
Agora, chega até nós.
E talvez essa seja a grande beleza da cultura: permitir que grandes obras atravessem estradas, cidades e distâncias para lembrar que a arte não pertence apenas aos grandes centros. Ela pertence a qualquer lugar onde ainda exista gente disposta a sentir.
As apresentações acontecem no dia 26 de maio, às 15h e às 19h, na Casa da Cultura Neuri Camargo da Silva. A entrada é gratuita e a classificação é de 14 anos.
Mais do que assistir a uma peça, será uma oportunidade de viver uma experiência.
Porque algumas histórias não terminam quando as cortinas se fecham.
Elas continuam dentro da gente.