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Abuso na infância, consequências para toda a vida

Abuso na infância, consequências para toda a vida

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16/10/2018 às 18h37 Atualizada em 16/10/2018 às 21h37
Abuso na infância, consequências para toda a vida

Qualquer tipo de violência deixa cicatrizes psicológicas que podem marcar uma vida inteira, mas a violência sexual é uma das que mais comprometem o futuro de quem sofreu ou sofre esse tipo de violação.

A falta de acompanhamento psicológico para lidar com a violência sexual é uma das razões pelas quais, na vida adulta, o indivíduo tende a sofrer com traços comportamentais latentes, que não são voluntários, mas consequências do que foi sofrido na infância ou adolescência.

Entre 2011 e 2017, o Brasil teve um aumento de 83% nas notificações gerais de violências sexuais contra crianças e adolescentes, segundo boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde na segunda-feira (25). No período foram notificados 184.524 casos de violência sexual, sendo 58.037 (31,5%) contra crianças e 83.068 (45,0%) contra adolescentes.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) classifica a atração adulta por crianças como um transtorno, não sendo considerada uma preferência dentro da normalidade.

De acordo com a psicóloga Dayane Mesquita, quem sofreu abuso sexual na infância carrega traumas psíquicos que na vida adulta podem acarretar em consequências como depressão, vícios em bebida ou drogas, prostituição, sentimento de culpa, dificuldade de relacionamentos, falta de aceitação do corpo e até mesmo o suicídio. “O dano maior que fica depois de um abuso é a relação de desconfiança com o mundo, sem saber o que é real, pois as cenas às quais a vítima foi submetida podem voltar a toda hora, ficando no inconsciente”, explica.

Com todo trauma sofrido, muitas pessoas sentem vergonha em denunciar ou até mesmo fazer um tratamento psicológico para amenizar os efeitos do abuso, o que segundo Dayane, pode acarretar em efeitos devastadores na vida adulta.

“O estresse causado na infância pode perturbar o desenvolvimento inicial do cérebro, além do funcionamento do sistema nervoso e imunológico. Como toda dor e sofrimento ficam reprimidos em nosso inconsciente, ao tornar consciente nossas lembranças, teremos muito mais condições de buscarmos o auto reconhecimento, diminuindo a possibilidade de repetir padrões, evitando doenças físicas e/ou emocionais”, comenta.

Outro rumo tomado por parte dos adultos que são abusados sexualmente quando crianças, é se tornar um abusador, repetindo o padrão que comprometeu sua infância. Sobre esta tendência, não existem indícios concretos de que a criança que foi abusada possa vir a se tornar um abusador, porém uma pesquisa realizada pelo Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP constatou que grande parte dos meninos que sofrem abuso sexual apresentam transtornos de gênero.

“O que leva uma pessoa a cometer esse tipo de violência é um conjunto de fatores sociais, culturais e neurais, que variam de caso para caso, contudo, ter experiências sexuais quando criança, principalmente por parte de uma pessoa da família, pode tornar aquilo um padrão de prazer, vindo a ser repetido posteriormente na vida adulta”, ressalta Dayane.

A psicóloga, que já teve contato com inúmeros casos de adultos abusados na infância, reforça que a maior parte dos abusos acontece dentro de casa, não exclusivamente envolvendo contato físico, mas muitas vezes abuso emocional, que prejudica tanto quanto o ato em si. “Sabemos que a denúncia é algo doloroso para a vítima, mas é algo necessário, assim como o tratamento, pois os traumas são intensos e podem prejudicar toda uma vida”, finaliza.

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