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Paraná pode ter vacina eficaz e de menor custo contra Covid-19

Paraná pode ter vacina eficaz e de menor custo contra Covid-19

Por: Da Redação
17/07/2020 às 15h47 Atualizada em 17/07/2020 às 18h47
Paraná pode ter vacina eficaz e de menor custo contra Covid-19

Com a expansão de casos de Covid-19 pelo mundo, cientistas de todo o planeta correm contra o tempo para encontrar uma vacina que seja eficaz e segura para a população. O Paraná também entrou nessa corrida e está em fase de produção. A técnica escolhida utiliza o polímero bacteriano polihidroxibutirato, também conhecido como PHB, e se der um resultado positivo em animais, poderá significar o surgimento de um antídoto contra a doença.

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“Várias bactérias produzem esse polímero e ele contém algumas propriedades medicinais interessantes, que nós chamamos de biocompatíveis. Um material utilizado para produzir cápsulas, fios de sutura, próteses e o nosso organismo com o tempo consegue absorver esse material, sem que ele gere algum dano”, explicou o professor e pesquisador do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFPR, Marcelo Müller, ao longo da participação por videoconferência ao programa Assembleia Entrevista, da TV Assembleia que vai ao ar na próxima segunda-feira (20) logo após a sessão plenária.

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A ideia dos pesquisadores paranaenses foi utilizar esse material, nesse momento em que se busca tanto uma vacina, como um veículo para carregar o antígeno viral para dentro do organismo humano. O objetivo é produzir nanopartículas, que são em escalas similares ao tamanho do vírus e colocar proteínas do vírus sobre essas partículas “Revestir essas partículas com proteínas do vírus e fazer com que nosso sistema imunológico reconheça essas partículas como um, digamos, “falso vírus”, detalhou Müller.

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O processo tem se mostrado seguro. O que quer dizer que o indivíduo não corre o risco de desenvolver a doença, já que não é um vírus atenuado.

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A economia na produção de uma vacina foi outro ponto levantado pelo pesquisador.  Tanto pela estrutura já existente de um laboratório, como pelo fato de que não é um processo para produção de adenovírus (casos das vacinas em testes inclusive no Brasil: a chinesa e a britânica). Assim, pelos experimentos feitos até agora, ficou demonstrado que essa tecnologia é viável.

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Diferenças com outras vacinas

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Nas outras duas vacinas, os cientistas usam os adenovírus, que não causam a incidência da doença e fazem com que esse vírus comece a mostrar essa proteína na sua superfície. Assim, o sistema imune do indivíduo ataca esse vírus, porque o reconhece como estranho. E, se tudo funcionar bem, ele começa a produzir anticorpos na superfície. No caso da pesquisa paranaense, o processo é parecido. A diferença é que por aqui, os cientistas não vão trabalhar com o vírus, mas com pequenas partículas fabricadas em laboratório e que possuem proteínas em sua superfície.

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Mas o mecanismo de como o sistema imune do indivíduo vai reconhecer e produzir os anticorpos tem forma bastante similar. “A probabilidade de dar certo, eu diria que é de boa pra muito boa”, diz o Dr. Marcelo.

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Provavelmente as respostas de produção de anticorpos virão após a sua introdução nos animais em laboratório.

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A grande pergunta é se esses anticorpos serão neutralizantes. Ou seja, se vão impedir que o vírus desencadeie a doença. Por exemplo, aquele indivíduo que entrou em contato com a Sars Cov 2, e se curou, provavelmente já tem anticorpos, o que significa que, quando esse indivíduo entra em contato com o vírus novamente, esses anticorpos conseguem bloquear a situação.

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Esses indivíduos não terão os efeitos graves provocados pelo vírus, porque os anticorpos vão impedir que o vírus se replique dentro do organismo.  É o que se pretende com a vacina. Porém, essa é a grande questão, que só pode ser respondida com os testes pré-clínicos e clínicos.

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Por que a vacina demora?

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As estratégias podem funcionar muito bem em laboratório, mas seriam os anticorpos suficientes do ponto de vista neutralizante? É o que tentam responder os pesquisadores. Às vezes, é necessário recuar e entender o porquê de alguns testes não se mostrarem efetivos e produzir novos antígenos para tentar melhorar essa resposta.  E ela não surge de uma hora para outra. Leva tempo. “O indivíduo toma uma vacina e é preciso esperar um ano para que tome uma segunda dose. Ou, ele toma a vacina e o efeito é permanente. Ou seja, continua produzindo anticorpos de forma vitalícia. Isso é o que os cientistas verificam no momento dos testes”, justifica.

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Não se descarta, inclusive, que até as vacinas que estão mais adiantadas, levem um tempo maior para entrar no mercado. Além de poder ter reforço anual, porque o vírus pode sofrer mutação, é preciso levar em conta que após a resposta da efetividade da vacina, vem o quesito segurança. Os pesquisadores precisam saber se após a administração dessas partículas nos animais, se eles terão alguma reação alérgica ou inflamatória. Por isso, os dois testes são realizados em paralelo.

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No caso do Paraná, se os profissionais conseguirem concluir que essa tecnologia é efetiva e segura, deverão protocolar um pedido de teste clínico. A partir daí são recrutados os pacientes/indivíduos e começa a avaliação em humanos. O teste clínico de nível 1 é feito com algumas dezenas de pacientes. No nível 2, já são centenas e se trabalha com a divisão por grupos. De preferência, um grupo placebo, outro que poderá estar doente (que seria o ideal), e um grupo de indivíduos saudáveis e que nunca tenham entrado em contato com o vírus. Além disso, que não apresente nenhum problema de saúde.

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Em seguida, é possível realizar o teste clínico de nível 3, que é com milhares de pacientes e em várias regiões do mundo. Exatamente o que está acontecendo agora com as vacinas chinesa e a de Oxford, na Inglaterra. A primeira em parceria com o Instituto Butantã e a britânica com o Governo Federal. O Brasil foi escolhido exatamente por causa do grande número de casos registrados.

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“Provavelmente, essas vacinas devam chegar ao mercado até o fim deste ano ou no início do ano que vem, pois os resultados são bem animadores”, lembra Müller.

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Pesquisas avançadas também na UFPR

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No laboratório da UFPR já ocorreram testes de algumas partículas com soro de pacientes positivos para a Covid-19. E o resultado também foi animador. Os pesquisadores conseguiram detectar anticorpos que “ligaram” nessas partículas. Pode-se deduzir com isso que no soro desses indivíduos, os anticorpos reconheceram o antígeno que está sendo produzido.  Na prática, isso significa que há uma grande possibilidade de imunizar e gerar anticorpos que podem ser benéficos para combater a infecção viral.

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Os testes pré-clínicos são feitos em animais de experimentação. É nessa fase que se encontra o trabalho na UFPR. “Camundongos, macacos, coelhos, mas normalmente utilizamos camundongos e algum tipo de primata para os testes. O que deve ocorrer nos próximos dias”, disse Marcelo Müller.

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Já em agosto o experimento-piloto para observar a reação dos camundongos deve ser realizado e em setembro os cientistas pretendem lançar o grande experimento.

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Mas neste teste pré-clínico, já foi constatada efetividade e segurança. A resposta imunológica, a chamada resposta moral e a resposta celular para saber se a resposta imunológica é persistente, que é o que mais interessa.

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Para o professor Marcelo Müller, se trata de um grande desafio. Tanto que foram selecionados vários especialistas de diversas áreas para auxiliar nesse trabalho. “Por exemplo, eu trabalho com a produção de proteínas e desse polímero para fabricação das nanopartículas, em parceria com os profissionais da área de imunologia, que já atuam nesse segmento. Uma equipe multidisciplinar, que sempre traz diferentes enfoques, o que contribui muito para chegarmos mais longe”, comemora.

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Do ponto de vista experimental, não é algo tão complexo, porque juntar uma proteína e uma partícula, injetá-las em um animal e aguardar para ver o que vai acontecer, é comum nos projetos desenvolvidos no laboratório e que, em alguns casos, são muito mais complexos do ponto de vista científico, mas que não despertam tanto interesse do público. Mas desta vez esse interesse é justificável, afinal o mundo está diante de uma pandemia sem precedentes.

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Por isso, o professor Marcelo Müller fez questão de ressaltar a importância de se ter a ciência como principal aliada do homem. “Se olharmos para o lado, até essa nossa entrevista, ela só é possível graças à ciência. Telefone celular, medicamentos, vacinas, equipamentos médicos como os próprios respiradores, tudo passa pela ciência. Infelizmente. estamos aprendendo a lição da forma mais dura. Justamente quando o investimento em ciência no país é colocado em segundo plano. Assim como a educação, ciência é vista como gasto público. Uma sociedade mais educada é capaz de gerar soluções para seus problemas. E para toda a sociedade. Então, na verdade, é um benefício. Se tivéssemos mais investimentos, seriam muitas as vantagens inclusive econômicas, pois poderíamos produzir mais e até exportar essa tecnologia, em vez de importar, o que hoje nos coloca numa posição bem dependente”.

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Ele citou exemplos de pesquisadores de vários estados, que relatam demora de até um mês para receber um reagente. O que acaba atrasando os resultados da pesquisa brasileira. E ele aproveitou para finalizar com uma mensagem:

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“Acredito que após essa pandemia, os governantes vão repensar esses investimentos na ciência como um todo. E criar programas para que nos tornemos menos dependentes da tecnologia vinda de fora. Que sem uma vacina será difícil voltar à rotina de vida normal. Pelo menos, num curto espaço de tempo. E esse “curto espaço” foi mudando ao longo da pandemia. No começo, se falava em algumas semanas, depois meses e agora já se fala até em anos. Ou seja, essa nova forma de conviver, evitando aglomerações, praticando o isolamento social deve durar até que surja a primeira vacina, o que deve ocorrer até o resto desse ano. E, ainda assim, será necessário se pensar numa forma de distribuição. É improvável que uma única empresa consiga distribuir as doses para o mundo todo. Por isso, será preciso um período de adaptação para saber que profissionais de saúde, de serviços essenciais e grupos de risco terão prioridade. Teremos que ter muita paciência. Não dá para imaginar que a vacina seja um passe de mágica. E tomar o cuidado para entender que pandemias podem voltar a acontecer, até pelo nosso estilo de vida. Parece que a epidemia de coronavírus foi aumentando de intensidade. Se surgir outra pandemia, ainda mais assustadora, creio que a ciência, nesse caso, já vai ter acumulado experiências e estará mais preparada e credenciada para o enfrentamento, incluindo, além das vacinas, o desenvolvimento de kits diagnósticos e equipamentos médicos. E aí sim, poder dar respostas mais rápidas e efetivas para a população. É aí que entra a importância da nossa pesquisa”.

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O programa com o professor e pesquisador do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFPR, Marcelo Müller, pode ser acompanhado pela TV Assembleia canal 20.2 em TV Aberta e 16 na Claro/Net e também no canal do Youtube do Legislativo na segunda-feira (20), logo após a sessão plenária, que tem início às 14h30.