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Um pedacinho da Holanda no Brasil

Um pedacinho da Holanda no Brasil

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07/04/2014 às 17h34 Atualizada em 07/04/2014 às 20h34

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O sotaque é claramente europeu. Mas o bom humor é genuinamente brasileiro. Esse é o caso da agricultora Jantina de Jager Salomons e do empresário Arent Jacob de Jong.

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Os dois não têm nenhum parentesco, mas têm em comum muito mais do que o humor: ambos nasceram 

na Holanda e ainda adolescentes vieram para o Brasil. Hoje, Jantina e Arent são expoentes da famosa Colônia Holandesa de Arapoti, que, com cerca de 500 membros (entre holandeses e descendentes), é a segunda maior da América Latina.

a história desses dois holandeses criados no Brasil merece ser contadas distintamente, tamanha riqueza. E como ditam os bons costumes, primeiro as damas.

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Jantina chegou ao Brasil em 1951, aos 13 anos, junto com pai, mãe e mais sete irmãos. Na época, a colônia ainda não havia se formado em Arapoti, e assim a família Salomons se instalou em Castrolanda, colônia de imigrantes holandeses no município de Castro.

A holandesa conta que entre tantas dificuldades, a língua era uma das maiores. Além disso, a vinda para o Brasil foi repleta de desafios, como trazer gado e maquinário agrícola no navio para a nova morada.

Porém, entre tantas diferenças, uma agradou e muito aos imigrantes. “O clima é a melhor das coisas que encontramos aqui”, destaca Jantina, relembrando os problemas com estradas de terra, falta de água encanada e de energia elétrica.

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Apesar das dificuldades, os imigrantes foram se desenvolvendo e, curiosamente, algo que parece ruim para a maioria absoluta dos brasileiros acabou beneficiando os imigrantes: a ditadura militar.

“Não que os militares gostassem da gente, mas eles sabiam que para o povo ficar satisfeito era preciso ter comida. Então construíram estradas que ligassem o campo, que é onde se produzia a comida, até as grandes cidades. Também havia políticas favoráveis aos produtores, o que nos ajudou bastante”, afirma Jantina.

Um ano após o golpe, em 1965 a holandesa se instalou em Arapoti, onde vive até hoje. Em meio a “conflitos” culturais e uma vida no Brasil, Jantina demonstra amor pelo país onde mora. “O país é muito bom. Tem esse problema com corrupção, mas é um lugar muito bom. Nunca me arrependi de ter vindo para cá ou pensei em morar na Holanda novamente. Em todos esses anos acho que fui para lá apenas umas oito vezes”.

Por fim, a imigrante, hoje bem sucedida, ressalta um aspecto interessante: a fusão das culturas. “A gente tentou usar o melhor de cada cultura e acho que deu certo”, afirma. E com o bom humor que Jantina trata os assuntos, inclusive as lembranças de épocas bem mais difíceis, a receita realmente parece eficaz.

Já Arent é proprietário de um famoso restaurante em Arapoti – o Restaurante Refúgio. “Seu Ari”, como é chamado entre aqueles que não têm muita intimidade com a língua holandesa, o holandês faz parte dos primeiros imigrantes que chegaram ao município, em 1960, quando tinha 16 anos.

“Chegamos aqui em 7 de setembro de 1960, e já encontramos festa”, brinca. A chegada, por si só, já deixou claro a dificuldade que aquelas famílias encontrariam. Do porto de Santos até Arapoti o trajeto durou um dia e uma noite inteiros.

“Foram muitas as dificuldades, e a língua era uma das maiores. Muitos voltaram para a Holanda, mas eu acho que quem ficou fez uma boa escolha”, diz Arent, que também elogia o Brasil. “Não existe país no mundo como o Brasil. O único problema é a corrupção, que tem em todo lugar, mas nos outros lugares quem rouba, tem que devolver, e aqui não. Mas fora isso é muito bom”.

Elogios à parte, o empresário holandês relembra com bom humor alguns casos dos primeiros dias no Brasil. “Não tinha energia elétrica, tinha só um gerador que era ligado a tardezinha e desligado às 10h da noite. Se ficasse ligado a noite, era porque alguém tinha morrido. Só não entendo porque o morto precisava de luz”, brinca entre risadas e uma série de lembranças.

O restaurante de Arent, assim como o dono, é um caso de mescla entre as culturas. Entre decoração e um estilo todo holandês, no dia da visita da reportagem o cardápio é feijoada. Quando perguntado por um freguês de primeira viagem a respeito do sistema do restaurante, Arent é mais uma vez bem humorado. “Aqui o esquema é pegar um prato, encher bastante e comer até não agüentar mais”, responde.

Mas o empresário também fala sério, e mostra com orgulho a pedra fundamental da cooperativa Capal, fundada por holandeses, e entre eles, seu pai. E quando o assunto é futebol, Arent admite: torce para a Holanda em jogos contra o Brasil. “Meus filhos torcem para o Brasil, mas eu confesso que eu torço para a Holanda. É algo que vem de dentro de mim e não tem como lutar contra”, completa.

 

RELIGIÃO

Outro ponto em comum nestes dois entrevistados é a religião. Além do gado e de uma eficiente organização no campo trabalhista, a fé dos imigrantes holandeses foi algo fundamental na construção das colônias e no seu posterior desenvolvimento.

Do local onde aconteciam os primeiros encontros da colônia até a formação de uma igreja com cerca de 400 membros, a fé dos imigrantes de Arapoti parece permanecer intacta.

“Estou aqui há apenas dois meses, e ainda estou aprendendo a lidar com a colônia, mas são pessoas muito boas, unidas e que levam a religião a sério, como de fato tem que ser”, enfatiza o pastor da Igreja Evangélica Reformada de Arapoti (situada dentro da colônia), Ilmo Rewie.

Sem descendência holandesa, o pastor afirma que nesse pouco tempo de convivência já pode perceber alguns pontos fundamentais para o progresso da colônia. “O fundamental para todo esse progresso foi, além do clima e da terra de Arapoti, foi que eles sempre tiveram consciência que estavam no Brasil e que existem diferenças entre aqui e a Holanda. Mas ao mesmo tempo, trouxeram a organização européia e primam pela honestidade, e o resultado é este que todos conhecem”.

Como alguém que tem uma visão “de fora”, mas convivendo no íntimo com a colônia, Ilmo acredita que, embora a tendência seja o enfraquecimento dos costumes gradativamente conforme as gerações passam, a colônia deve se manter forte pelos próximos anos.

 

ESCOLA

E essa continuidade passa justamente pela educação, assim o Colégio Cultura Holandesa exerce um papel quase tão importante quanto a religião no prosseguimento dos costumes holandeses para as novas gerações.

Embora seja uma escola particular com uma grade curricular normal, inclusive com dezenas de alunos que não têm descendência holandesa, o colégio conta com professoras holandesas (detalhe: uma delas não fala absolutamente nada da língua portuguesa) para ensinar tanto a língua quanto costumes para crianças.

“Nossa escola é mais reconhecida pela tradição e qualidade do ensino, mas oferecemos aulas à tarde para quem quer aprender holandês, mas aí é opção dos pais”, relata o diretor da instituição, Paulo Fernando Alvarez dos Santos (que não é descendente de holandeses).

O fato é que ao se conhecer a colônia existe a certeza de que um pedacinho da Holanda está instalada em Arapoti, e que os laços com a terra mãe destas pessoas são fortes o suficiente para não serem quebrados nem pela distância de um oceano inteiro.

 

HISTÓRIA

As duas colônias que já existiam, Carambeí, fundada em 1911, e Castro, fundada em 1951, queriam que mais famílias viessem da Holanda para o Brasil, e para isso contavam com o apoio do governo, que ajudava ou até bancava as viagem da Europa para cá.

Como a Holanda é um país pequeno e as terras eram caras e escassas, as famílias viam no Brasil a oportunidade do progresso, devido a abundância de terras na época não utilizadas.

Assim, em 1960 sete famílias chegaram a Arapoti já com um bom número de alqueires para que pudessem plantar e criar o gado – nos meses que antecederam a chegada, holandeses das outras colônias estiveram no município para construir casas e preparar a terra para os que chegariam em breve.

Contando com muita força de vontade e competência, a colônia prosperou e logo mais holandeses chegaram. Além da escola, outro exemplo do progresso da colônia é a cooperativa Capal, fundada por 21 holandeses já em 1960, pouco tempo após a chegada em Arapoti.

Em 1966 a cooperativa já contava com cinco brasileiros e em 1973 nas reuniões se passou a falar a língua portuguesa. Atualmente a Capal é uma das maiores cooperativas do Paraná, tendo milhares de associados.

Por LUCAS ALEIXO.

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