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EXATAMENTE EM DOIS

ou Macaco matando macaco Matando macaco por pedaços do chão

Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
03/02/2026 às 10h19
EXATAMENTE EM DOIS
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

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Polarização.

Torcidas uniformizadas.

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Exércitos sem rosto.

Muros, grades, violência... e uma cegueira coletiva que parece confortável demais para ser questionada.

E... ontem choveu.

Eu ouvia TOOL. O álbum era 10,000 Days. Pela janela, a água escorria pelo vidro e criava desenhos abstratos, como se o mundo estivesse tentando escrever algo que insistimos em não ler. O céu, violeta e nervoso, explodia aqui e ali em relâmpagos que cortavam o horizonte como varizes abertas. Lembrei do início de Guerra dos Mundos.

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O fim sempre começa assim: bonito e ameaçador.

Quando percebi, tocava Right in Two.

Prestei atenção na letra... erro meu. A alma se encheu de tristeza. Porque seguimos exatamente ali: divididos. E, pior, orgulhosos disso.
Matando-nos.

Às vezes é terrível. Falo por mim.

TOOL tem esse poder estranho de nos empurrar para dentro. Para o fundo. Para o VITRIOL que evitamos encarar. Nem sempre isso é bom. Às vezes é terrível. Falo por mim. Toda vez que me encontro nesse mergulho, lembro de Dante:

No meio do caminho de nossa vida

Me achei em uma selva escura

Quando o caminho correto se perdera

ou algo assim, meio Drummond.

A minha selva é a sala de estar solitária, observando a chuva cair. O inferno não tem chamas, tem silêncio. Caminhar dentro de mim é uma espécie de Divina Comédia sem guia. Raul Seixas tinha razão: é uma pena não ser burro. A lucidez dói.

Estamos cansados, ou talvez anestesiados, de ver esses “macacos” que receberam o livre-arbítrio e não souberam o que fazer com ele. Desde o Éden. Desde o Éter. Não compreenderam a abundância do Jardim. Perderam-se entre a fumaça da carne sacrificada e o medo artificial da escassez.

Hoje, devoram-se.

Como vermes sobre a carne do chão apodrecido, sem perceber a dimensão infinita deste Éden chamado Terra. A fartura que poderia ser dividida entre dois, apenas dois, lados que insistem em se ver como inimigos absolutos.
Macacos conflituosos. Perdidos. Matando macacos por pedaços do chão.

A letra do TOOL embarga a voz. A bílis sobe. E o mundo inteiro me parece um poema de Augusto dos Anjos: orgânico, pútrido, verdadeiro.

Perdoem a fala melancólica. Mas a inumanidade humana me causa ânsia da própria ânsia.

Pobres de nós, que vivemos espremidos entre dois extremismos que se alimentam do ódio cotidiano. Onde morrem cachorros de rua, crianças, idosos, não por necessidade, mas por vaidade, poder e aplauso.

Que eu chegue logo ao Éden.

Antes que o barulho dos macacos seja tudo o que reste.