Sem hospitais do Estado credenciados pelo Ministério da Saúde, os paranaenses que desejam realizar a cirurgia de mudança de sexo precisam encarar uma verdadeira odisseia, tendo de viajar para outros Estados para realizar o procedimento. Em todo o País são apenas cinco as instituições credenciadas e desde 2010, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), foram feitas 41 solicitações de tratamento de paranaenses para realizar a cirurgia.
A situação não deixa de ser curiosa, especialmente porque o Paraná foi um dos pioneiros no assunto. Entre 1999 e 2000 um programa da Clínica de Sexualidade, órgão de extensão da Universidade Tuiuti, realizou pelo menos quatro procedimentos em Curitiba. A iniciativa, contudo, foi cancelada após uma paciente ter complicações pós-operatórias e entrar com uma ação judicial contra o Hospital de Clínicas, parceira do programa. Já em 2008, quando o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a ofertar o procedimento, o próprio HC chegou a montar uma equipe, mas nunca deu entrada no processo de credenciamento.
Por conta dessa situação, os pacientes acabam tendo de ser encaminhados para hospitais de São Paulo, Rio de Janeiro e, principalmente, Rio Grande do Sul. “Conseguir o procedimento demora em torno de 5 ou 6 anos, mas também conheço quem já está há oito, nove anos na fila”, conta a psicóloga Wilsali Pallu, do Transgrupo Marcela Prado.
Nesse sentido, a história da professora Brenda Ferrari da Silva, 36, diretora do Colégio Estadual Professora Irma Antonia Bortoletto de Anchini, pode ser considerada exemplar. Desde 1999 ela aguarda para poder realizar o procedimento, após três tentativas frustradas em sequência.
“Fiz o tratamento na Tuiuti por dois anos, mas o Hospital de Clínicas não fez mais (cirurgias) e me transferiram para a Santa Casa de Porto Alegre. Em 2002, cheguei a ser internada, passar pelo anestesista e tudo”, recorda ela, que minutos antes de entrar na sala de cirurgia foi informada de que o SUS havia cortado a verba para a realização de sua operação.
Ela ainda tentou, mas não conseguiu a cirurgia pelo Hospital de Clínicas do Estado vizinho por morar no Paraná. Foi quando resolveu ingressar com um processo contra a União, o Estado e o município (de Curitiba). “Ganhei em todas as instâncias e em 2010 saiu a sentença final. Fui então encaminhada para a fila de espera do Rio de Janeiro e agora entrei na lista dos que vão fazer a cirurgia no ano que vem”.