
DA REDAÇÃO/SENAR - FOLHA EXTRA
De 7 a 19 de setembro, 40 participantes, entre técnicos do Sistema FAEP, representantes de 29 sindicatos rurais e integrantes de outras organizações, fizeram parte do quarto grupo da viagem técnica promovida pela entidade aos Estados Unidos em 2026. Na ocasião, as visitas passaram por empresas de tecnologia, universidades, propriedades e entidades de representação, fomentando o conhecimento da aplicação de inteligência artificial, experiências de pesquisa e formas de gestão da produção rural. As agendas buscaram demonstrar aos produtores paranaenses soluções para problemas encontrados no campo.
Com o quarto grupo, representantes de 111 sindicatos rurais do Paraná já participaram das viagens técnicas realizadas pelo Sistema FAEP em 2026. As delegações anteriores estiveram nos Estados Unidos em maio, julho e agosto. Uma quinta comitiva está programada para outubro.
Na Califórnia, a EarthOptics apresentou uma forma de reunir informações biológicas, químicas e físicas do solo, incluindo dados sobre nutrientes e compactação. Para Sidney Lujan, presidente do Sindicato Rural de Umuarama e produtor de bovinos nas atividades de cria, recria, engorda e confinamento, o interesse está em identificar com maior precisão as necessidades de cada área, além de direcionar investimentos e evitar gastos onde uma intervenção não é necessária.
“Uma análise como a que vimos traz vários itens complementares em que podemos notar onde a nossa terra está deficiente”, afirmou.
Conhecer a propriedade também apareceu como condição para usar ferramentas de inteligência artificial na comercialização. Na Agro AI, o grupo viu aplicações capazes de processar informações de mercado e apoiar análises sobre preços e momento de venda.
Marcelo Valdevino da Luz, produtor de café e presidente do Sindicato Rural de Carlópolis, já utiliza sistemas para acompanhar custos e dados da produção. Para ele, a visita reforçou que a utilidade da IA depende da qualidade das informações fornecidas pelo próprio produtor. “Quanto melhores os dados, melhor tende a ser o apoio na tomada de decisão”, observou.
Ainda na Califórnia, na Planet Labs, imagens frequentes de satélite e análise de dados foram apresentadas como instrumentos para acompanhar o desenvolvimento das lavouras, identificar alterações nas áreas agrícolas e produzir estimativas de rendimento antes da colheita. Para o produtor de grãos César Bronzel, presidente do Sindicato Rural de Campo Mourão, a possibilidade de perceber um problema mais cedo, por meio das imagens via satélite, pode antecipar a resposta do produtor. “Se você começa a detectar uma doença, tipo ferrugem, acelera o processo de passar o fungicida e pode evitar um grande prejuízo”, exemplificou.
A visita também abriu uma linha de investigação para Deborah Gerda de Geus, suinocultora, presidente da Comissão Técnica de Suinocultura do Sistema FAEP e representante do Sindicato Rural de Tibagi. Ela avalia se as imagens podem ajudar a localizar áreas atingidas por javalis e dimensionar os danos provocados pelos animais, como perdas nas lavouras e os riscos sanitários.
Na pecuária, o interesse recaiu sobre o acompanhamento das pastagens.
Mário Zafanelli, pecuarista e vice-presidente do Sindicato Rural de Umuarama, observou que informações sobre a condição da vegetação poderiam antecipar decisões de manejo. “Pelas imagens via satélite, é possível perceber se determinado pasto já está muito deteriorado e antecipar a decisão de co locar ou retirar um lote daquela área”, afirmou. Ele também apontou as novas ferramentas de monitoramento para a contagem de animais.
A Bonsai Robotics mostrou tec nologias de autonomia para máquinas agrícolas. Para Orlando de Paula, produtor de bovinos Nelore de cria, recria e engorda e também de mandioca, e presidente do Sindicato Rural de Rondon, a visita expôs a diferença entre reconhecer um problema e conseguir investir na solução. Assim como nos Estados Unidos, a falta de trabalhadores também atinge propriedades brasileiras, mas o custo de incorporar máquinas autônomas ainda limita sua adoção.
“A nossa mão de obra também está bem escassa. Mas a diferença está na capacidade de incorporar determinadas soluções no atual cenário econômico das propriedades. Essa tecnologia tem um custo alto”, ponderou.
No Nebraska, em visita à Valley Irrigation, a delegação conheceu equipamentos e sistemas que combinam dados meteorológicos, condições do solo e sensores para orientar a irrigação. Também viu alternativas como o pivô rebocável, que pode ser desloca do entre áreas, mas exige mão de obra para essa movimentação.
Produtora de soja e milho em Astorga e vice-presidente do sindicato rural do município, Ana Cristina Lombeiro Beneti avalia que a decisão de implantar esse tipo de sistema passa pela origem da água, autorizações necessárias e depende da infraestrutura de energia. O formato do terreno e as diferenças de solo dentro da própria fazenda também pesam. “A gente precisa avaliar para saber a viabilidade e o custo”, afirmou.
Na Reservoir Farms, na Califórnia, a delegação conheceu um espaço que aproxima empresas de tecnologia e produtores para testar soluções agrícolas em condições de uso. A experiência interessou a Aristeu Sakamoto, produtor de algodão e presidente do Sindicato Rural de Cambará, porque, segundo ele, uma máquina ou ferramenta que apresenta bons resultados durante o desenvolvimento ainda precisa resistir à rotina de trabalho no campo.
“As ideias precisam ter sua eficiência e eficácia comprovadas no campo. É necessária uma validação para saber se aquilo realmente será útil para quem vai utilizar a tecnologia”, afirmou.
Na Universidade de Nebraska, a pesquisa dentro das fazendas apareceu sob outra forma. A delegação conheceu uma rede de pesquisadores e extensionistas que ajudam a estruturar experimentos para testar produtos, tecnologias e práticas de manejo nas condições de cada propriedade. O produtor participa com suas máquinas e sistema de produção; a universidade acompanha o experimento e analisa os resultados.
A conexão entre pesquisa e lavoura voltou a aparecer na última etapa do roteiro, durante a visita à Bayer, na região de Saint Louis, no Estado de Missouri. A delegação conheceu o uso de análise genética, dados e inteligência artificial na seleção de sementes. O produtor de grãos Harry Antoine Van Noort, tesoureiro do Sindicato Rural de Arapoti, acompanha outra etapa desse processo há oito anos: sua propriedade recebe ensaios de campo da empresa. Em alguns deles, uma área de quatro hectares reúne até 4 mil variedades.
A visita permitiu a Noort conhecer parte do trabalho realizado antes de os materiais chegarem à sua propriedade. Também mostrou por que, mesmo com modelos capazes de antecipar resulta dos, o desempenho das plantas ainda precisa ser verificado sob as condições reais de cultivo.
Em Iowa, a delegação visitou uma propriedade de pecuária de corte em Scranton na qual os animais são acompanhados desde o nascimento por meio de dados. Pesagens, histórico sanitário e desempenho das crias compõem registros usados na gestão do rebanho.
Para João Paulo Calomeno, agropecuarista, médico-veterinário e diretor-secretário do Sindicato Rural de Jacarezinho, a experiência mostrou o alcance que o acompanhamento individual pode ter na pecuária paranaense. “O produtor vai conhecer um a um, só que eletronicamente”, avaliou.
Segundo Calomeno, os registros permitem relacionar o desempenho dos animais aos custos e identificar onde o investimento traz resultado. A inteligência artificial pode acelerar a análise, desde que a propriedade tenha informações organizadas. “O produtor precisa ter os seus dados e continua sendo o tomador da decisão”, ressaltou.
A viagem também colocou em discussão a gestão das propriedades nas próximas décadas. Na Iowa State University, a delegação conheceu iniciativas voltadas ao planejamento sucessório.
Para o avicultor José Carlos da Silva Maia, de São João do Caiuá, integrante da delegação, a sucessão já faz parte da gestão familiar. Ele chamou o filho Carlos Eduardo para participar dos negócios da propriedade e acompanha o interesse dos netos pela atividade.
“Muitos produtores investem durante a vida, mas, se não houver sucessão, aquilo pode acabar se perdendo pelo caminho”, afirmou. No Paraná, o Sistema FAEP trabalha o assunto com as famílias por meio de iniciativas como o programa Herdeiros do Campo.
Livaldo Gemin, diretor-secretário do Sistema FAEP e coordenador da quarta delegação, chamou atenção para uma condição essencial desse processo: os jovens precisam encontrar perspectivas de renda na propriedade. “Mostrando que a atividade tem viabilidade econômica, a sucessão familiar passa a ser encarada como algo natural”, avaliou.
No Estado de Illinois, no Madison County Farm Bureau, o grupo conheceu iniciativas para aproximar jovens produtores dos espaços de participação e decisão. Kátia Cristina Garrido, produtora de mandioca e vice-presidente do Sindicato Rural de Santa Cruz de Monte Castelo, relacionou a experiência à for mação da comissão de mulheres em seu sindicato, que ajudou a atrair participantes, ampliar cursos e movimentar a entidade.
“Preparar novas lideranças também exige mostrar aos produtores, desde cedo, como podem participar das decisões que afetam o setor”, observou Kátia.