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Gabi Caroline: quando a resistência vira música

Uma história de persistência

Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
15/09/2026 às 13h27
Gabi Caroline: quando a resistência vira música
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

Falar de Gabi Caroline, para mim, é uma tarefa fácil. Tenho por ela um carinho enorme, uma admiração que ultrapassa a relação entre escritor e artista. Gosto de pensar que sou uma espécie de pai artístico da Gabi. Sempre que posso, abro uma porta, faço um convite, coloco seu nome em um projeto, um festival, um podcast ou um palco. Não porque ela precise de favores, mas porque talento precisa encontrar espaço... e Gabi tem talento de sobra.

Ela começou sua história artística em São José da Boa Vista aos 15 anos, quando passou a publicar covers e músicas autorais no YouTube. Na mesma idade, gravou sua primeira música em um estúdio de Wenceslau Braz. Aos poucos, aquela voz foi chegando a outras pessoas. Mas foi em 2021 que sua trajetória ganhou uma nova dimensão: Luzes de Setembro viralizou no TikTok e trouxe para perto dela uma quantidade ainda maior de pessoas dispostas a acompanhar e escrever essa história junto.

E a história continuou.

Vieram os reconhecimentos como cantora destaque em Wenceslau Braz, em 2022 e 2023, pelo Instituto CMP. Veio uma música sua como trilha sonora de uma websérie premiada do Rio de Janeiro. Veio a participação na Parada LGBT de Curitiba, diante de mais de 30 mil pessoas. E veio também uma daquelas cenas que parecem ter sido escritas por algum roteirista muito criativo: no início deste ano, enquanto Gabi cantava no centro de Curitiba, um homem em situação de rua apareceu acompanhado de seu cachorro, e, em determinado momento, até o Homem de Ferro entrou na dança. O vídeo viralizou.

É impossível não sorrir diante de uma cena dessas. Mas, para mim, existe algo ainda mais bonito por trás dela: Gabi continua caminhando.

Agora, ela se prepara para lançar Bonita e Pilantra, cuja prévia já circula pelas redes sociais. E, antes mesmo de a música chegar oficialmente ao público, Gabi já está fazendo aquilo que sabe fazer melhor: criar expectativa, provocar, brincar com as palavras e transformar sua personalidade em arte.

Também foi finalista do Estrelas da Diversidade, em Curitiba, mais um reconhecimento de uma trajetória que não nasceu pronta. Foi construída. Porque há uma diferença enorme entre talento e carreira. Talento pode nascer com a pessoa. Carreira precisa ser construída todos os dias.

E Gabi constrói.

Constrói cantando. Compondo. Dançando. Enfrentando o palco. Conversando com o público. Errando, acertando, tentando novamente. E, sobretudo, resistindo.

Porque não podemos ignorar que Gabi é uma mulher e uma artista LGBTQIA+. E isso, infelizmente, ainda significa enfrentar um mundo que muitas vezes é mais hostil do que deveria. Há preconceitos que aparecem de maneira explícita e outros que se escondem em pequenas atitudes, portas que não se abrem, oportunidades que não chegam e julgamentos que artistas como ela precisam enfrentar diariamente.

Mas existe uma coisa curiosa quando Gabi sobe ao palco: você não enxerga nada disso.

Você enxerga força.

Enxerga carisma.

Enxerga uma artista que domina o espaço e conquista a plateia com uma facilidade impressionante. Seja acompanhada de um playback, seja com um violão nas mãos, Gabi tem dinâmica, presença e uma capacidade muito particular de estabelecer comunicação com quem está diante dela. Seu carisma é tão grande quanto seu talento. E talvez seja justamente essa a sua maior qualidade: transformar aquilo que poderia ser motivo de desistência em combustível para continuar.

Gabi tem uma legião de fãs. E isso é uma das coisas mais bonitas que um artista pode conquistar. Não são apenas pessoas que ouvem suas músicas. São pessoas que acompanham sua caminhada, comemoram suas conquistas e acreditam no próximo capítulo.

E talvez seja por isso que São José da Boa Vista tenha tanto a comemorar.

De uma cidade pequena nasceu uma artista que começou aos 15 anos gravando covers para a internet e que, alguns anos depois, estava cantando para dezenas de milhares de pessoas em Curitiba. Uma artista que teve música em produção premiada, que viu sua composição viralizar, que recebeu reconhecimento, que chegou à final de um prêmio de diversidade e que agora prepara mais uma canção.

Mas a maior conquista de Gabi talvez ainda não tenha acontecido. Porque ela não está apenas construindo uma carreira. Está construindo uma mensagem. A mensagem de que sonhos são possíveis quando existe coragem para persegui-los... e quando encontramos pessoas dispostas a acreditar conosco.

Gabi costuma carregar consigo uma frase de Luan Santana: “só quem sonha consegue alcançar”. Eu acrescentaria outra palavra: resistir. Porque sonhar é importante. Acreditar é fundamental. Mas continuar quando as coisas ficam difíceis é o que transforma sonho em história.

E Gabi Caroline ainda está escrevendo a sua.

Com música, com poesia, com dança, com coragem e, principalmente, com a certeza de que ninguém pode determinar o tamanho de um sonho por nós. Que sorte a de São José da Boa Vista ter uma filha assim. E que sorte a nossa, enquanto público, poder acompanhar essa história sendo escrita.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

FLÁVIO MELLO
FLÁVIO MELLO
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.
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