
DA REDAÇÃO - ESPECIAL
Em meio à sequência de tempestades severas, vendavais e registros de granizo que atingem o Paraná nos últimos dias, uma iniciativa adotada por Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, vem chamando atenção. O município instalou um sistema antigranizo que utiliza ondas de choque para tentar reduzir a formação e o tamanho das pedras de gelo antes que elas atinjam o solo.
O primeiro equipamento entrou em operação em fevereiro deste ano, com investimento de R$ 972.510,28. Posteriormente, o projeto foi ampliado com a aquisição de outros dois equipamentos, o investimento total se aproxima de R$ 3 milhões.
A tecnologia é de origem espanhola e funciona por meio de explosões controladas de acetileno e oxigênio. A combustão gera ondas de pressão que são direcionadas para a atmosfera por uma estrutura semelhante a um grande cone. Quando acionado, o equipamento realiza disparos em intervalos de aproximadamente sete segundos.
Segundo a prefeitura de Chapecó, a finalidade é interferir no processo de formação do granizo dentro das nuvens, reduzindo o crescimento dos cristais de gelo e, consequentemente, o potencial de danos quando eles chegam ao solo. A primeira unidade instalada tem área estimada de atuação de aproximadamente 80 hectares, com alcance de cerca de 500 metros de raio.
O equipamento não permanece acionado continuamente. A operação depende de monitoramento meteorológico 24 horas e é realizada quando células de tempestade com potencial para produção de granizo se aproximam da área protegida.
De acordo com a administração municipal, o sistema deve entrar em funcionamento antes da chegada da tempestade, permitindo que as ondas de choque atuem enquanto o granizo ainda está em formação. A estrutura também possui autonomia energética para continuar operando em situações de queda no fornecimento de eletricidade.
Nos primeiros meses de funcionamento, foram divulgados resultados considerados positivos. Somente em fevereiro foram registrados 1.432 disparos. Em julho, o município já contabilizava mais de quatro mil disparos em mais de dez eventos meteorológicos.

Segundo a administração municipal, em algumas dessas situações houve ocorrência de granizo em regiões próximas, enquanto a área atendida pelo equipamento não apresentou danos semelhantes. Esses episódios foram utilizados pela prefeitura como indicativo de eficiência do sistema.
O Paraná também já tem experiências com esse tipo de tecnologia, embora ainda não para a proteção de áreas urbanas pelo poder público. Em São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, Renault e Volkswagen utilizam sistemas antigranizo baseados em ondas de choque para proteger os veículos armazenados nos pátios das montadoras, reduzindo o risco de prejuízos provocados pelas pedras de gelo.
O assunto também chegou às administrações municipais. Em Jandaia do Sul, no Norte do Paraná, a prefeitura iniciou estudos em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) para avaliar a viabilidade técnica e operacional da implantação de um sistema antigranizo no município, tendo justamente a experiência de Chapecó como uma das referências.
A implantação do sistema foi motivada principalmente pelos prejuízos recorrentes provocados por tempestades de granizo em Chapecó. Em 2022, cerca de mil famílias foram atingidas, de acordo com informações divulgadas pelo município.
A Defesa Civil de Chapecó também sustenta que, em determinados episódios, os gastos públicos com telhas, lonas e assistência às famílias atingidas chegaram a valores equivalentes ao custo de mais de um equipamento antigranizo.
A estratégia adotada pela cidade parte do princípio de investir em prevenção para reduzir os prejuízos após as tempestades. A vida útil estimada de cada sistema é de aproximadamente 20 anos, desde que sejam realizadas as manutenções previstas.
Apesar dos resultados apresentados, a eficácia dos chamados canhões antigranizo ainda é motivo de discussão científica. Pesquisadores apontam que é difícil determinar se a ausência de granizo em determinada área ocorreu efetivamente por causa do equipamento ou por características naturais da própria tempestade.
Isso acontece porque uma mesma célula pode provocar granizo intenso em um ponto e apenas chuva poucos quilômetros adiante. Por esse motivo, episódios isolados não são suficientes para comprovar cientificamente a relação direta entre o acionamento do sistema e a ausência das pedras de gelo.
Estudos recentes indicam que as ondas de choque podem provocar alterações mensuráveis na atmosfera, mas ainda não existe consenso científico amplo de que esse tipo de equipamento consiga impedir ou reduzir o granizo de maneira confiável em todas as tempestades.
Por isso, especialistas tratam a tecnologia como uma alternativa de mitigação, e não como uma garantia absoluta de proteção.
O sistema também possui limitações. Ele não impede chuva forte, vendavais, tornados, descargas elétricas, alagamentos ou enxurradas. A função é específica: tentar reduzir os impactos provocados pelo granizo dentro da área alcançada pelo equipamento.
Outro ponto observado é o ruído. Sem proteção acústica, o sistema pode atingir níveis próximos de 92 decibéis. Em Chapecó, foram instaladas estruturas de abafamento para reduzir o som durante os disparos.
Com três equipamentos já instalados, a experiência de Chapecó começa a ser acompanhada como uma possível alternativa para cidades que enfrentam prejuízos recorrentes com tempestades de granizo.
Para municípios do Paraná, especialmente em regiões frequentemente atingidas por tempo severo, o modelo chama atenção. No entanto, a implantação de sistemas semelhantes exigiria análise técnica, levantamento histórico de ocorrências, cálculo dos prejuízos e avaliação do custo-benefício.
A experiência catarinense ainda é recente, mas coloca em discussão uma questão cada vez mais relevante diante da intensidade das tempestades no Sul do Brasil: até que ponto a tecnologia pode ajudar as cidades a reduzir os prejuízos provocados pelo granizo?