Os Estalinhos

No meio de uma das maiores festas religiosas do Paraná, entre centenas de pessoas preocupadas em consumir, fotografar, caminhar ou simplesmente passar o tempo, aquele homem encontrava alegria na brincadeira mais simples que alguém poderia imaginar.

Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
07/08/2026 às 11h26
Os Estalinhos
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

Continua após a publicidade

A segunda-feira sempre parece mais silenciosa na Festa do Bom Jesus da Cana Verde. Depois do ímpeto dos primeiros dias, a cidade respira um pouco mais devagar. Ainda há gente caminhando entre as barracas, crianças correndo de um lado para outro, o cheiro de churrasco misturado ao de café recém-passado e a música que se espalha pela Rua da Cultura. Naquele começo de noite, sob um sereno tímido e uma temperatura que convidava a colocar as mãos nos bolsos, a Orquestra de Viola Siqueirense executava antigas modas sertanejas. Algumas pessoas paravam para ouvir. Outras apenas diminuíam o passo. As crianças, como sempre, eram as únicas que dançavam sem se preocupar com quem estivesse olhando.

Foi ali que reparei nele.

Na verdade, já o havia visto outras vezes. Acho que todos já o tinham visto. Caminhava pela festa acompanhado de dois cães inseparáveis e de um saco repleto de latinhas de alumínio. Entre uma coleta e outra, ajudava motoristas a entrar e sair do estacionamento improvisado. Fazia pequenos gestos, apontava vagas, sorria para quem lhe agradecia. Quase invisível para a maioria das pessoas.

Não sei seu nome.

Continua após a publicidade

Também não sei sua idade.

Não sei se a fala difícil é consequência da bebida ou de algum acidente da vida. Não conheço sua história e não tenho o direito de inventá-la. Apenas sei o que meus olhos alcançam.

Vejo um homem que tenta conversar com todos, mesmo quando as palavras insistem em tropeçar antes de chegar à boca. Alguns o escutam com paciência. Outros desviam o olhar, aceleram o passo ou fingem que não o viram. Ele parece não guardar rancor de ninguém.

Continua após a publicidade

Quando nossos caminhos se cruzam, costumamos nos cumprimentar. Às vezes brindo com meu copo de cerveja enquanto ele ergue o copo de cachaça. Um gesto simples, sem discursos, sem constrangimentos, como dois conhecidos dividindo o mesmo instante.

Naquela noite ele resolveu descansar perto de onde a orquestra tocava.

Sentou-se no chão, apoiou ao lado o saco de recicláveis e imediatamente um dos cães aproximou-se, encostando a cabeça em seu braço à procura de carinho. O outro permaneceu deitado, atento ao movimento da festa, como se também estivesse assistindo ao espetáculo.

Enquanto a viola cantava antigas lembranças do interior, ele tirou do bolso uma pequena caixinha.

Demorou para abri-la.

As mãos pareciam obedecer mais lentamente do que sua vontade. Depois de algum esforço conseguiu retirar um saquinho que estava lá dentro. Também não foi fácil abri-lo. Observei tudo à distância, imaginando que dali sairia um pouco de fumo para enrolar um cigarro de palha.

Continuei olhando.

A música seguia.

As pessoas passavam.

Os cães esperavam.

Finalmente o saquinho se abriu.

Ele despejou o conteúdo na palma da mão.

Sorriu.

Então pegou uma daquelas pequenas bolinhas coloridas e a lançou contra o chão.

Um estalo quase imperceptível.

Só então compreendi.

Não era fumo.

Era uma caixinha de estalinhos.

Sorri sozinho.

No meio de uma das maiores festas religiosas do Paraná, entre centenas de pessoas preocupadas em consumir, fotografar, caminhar ou simplesmente passar o tempo, aquele homem encontrava alegria na brincadeira mais simples que alguém poderia imaginar.

Jogou outro.

Outro pequeno estalo.

Foi então que um dos cães levou um leve susto e, por alguns segundos, caminhou como se mancasse. Logo voltou correndo para junto do dono, encostou-se em suas pernas e recebeu um afago demorado. Tudo voltou ao normal. Talvez fosse apenas uma brincadeira do animal. Talvez um velho reflexo aprendido nas ruas. Não sei. Também não me cabe inventar essa história.

A orquestra continuava tocando.

As crianças continuavam dançando.

Os carros entravam e saíam do estacionamento.

A festa seguia seu rumo, indiferente à delicadeza daquele instante.

Aproximei-me dele.

Ainda sentado no chão, levantou o rosto, abriu um sorriso desajeitado e me reconheceu. Abracei-o. Em resposta, ele envolveu minha perna com os braços, como fazem as crianças quando encontram alguém de quem gostam. Fez um carinho rápido em minha mão e voltou sua atenção aos cães e aos estalinhos.

Despedi-me sem dizer muita coisa.

Enquanto caminhava, pensei que talvez a maior beleza daquela noite não estivesse no palco, nem nas luzes da festa ou nas modas de viola que ecoavam pela rua.

Talvez estivesse naquele homem que quase ninguém via.

Um homem cercado por dois cães, um saco de latinhas e meia dúzia de estalinhos.

Alguém que, apesar de tudo o que a vida pudesse lhe ter tirado, ainda conservava intacta a capacidade de brincar.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

FLÁVIO MELLO
FLÁVIO MELLO
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.
Ver notícias
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade