Quando a fé transforma uma cidade

Há cidades que possuem uma festa. Em Siqueira Campos, a impressão é outra: por alguns dias, é a festa que passa a conduzir a vida da cidade.

Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
31/07/2026 às 10h29
Quando a fé transforma uma cidade
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

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Há cidades que possuem uma festa. Em Siqueira Campos, a impressão é outra: por alguns dias, é a festa que passa a conduzir a vida da cidade.

Entre o fim de julho e o dia 9 de agosto, o município se transforma para receber milhares de pessoas vindas de todas as partes do Paraná e de diversos estados brasileiros. A Festa do Bom Jesus da Cana Verde é, sem exagero, uma das maiores manifestações religiosas do Sul do Brasil. No dia 6 de agosto, dedicado ao padroeiro, mais de cem mil pessoas passam por Siqueira Campos, renovando uma tradição que atravessa gerações.

E o mais bonito talvez nem seja a multidão.

É observar os romeiros chegando ainda de madrugada, alguns após quilômetros de caminhada pelas rodovias, outros montados em cavalos e mulas, famílias inteiras em ônibus fretados, pessoas que retornam todos os anos para cumprir uma promessa, agradecer uma graça alcançada ou simplesmente encontrar novamente o lugar onde sua fé aprendeu a florescer.

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A devoção ao Bom Jesus da Cana Verde construiu muito mais do que um santuário. Construiu uma memória coletiva.

O complexo dos Freis Capuchinhos guarda parte dessa história com delicadeza. O museu preserva documentos, fotografias, objetos litúrgicos e os mantos utilizados ao longo dos anos pela imagem do Bom Jesus, permitindo ao visitante compreender que ali existe muito mais do que um patrimônio religioso: existe um patrimônio histórico. A Sala dos Devotos emociona pelas histórias silenciosas de quem encontrou naquele lugar esperança para seguir vivendo.

A própria imagem do Bom Jesus ultrapassou os limites da religiosidade ao tornar-se referência cultural. Não por acaso, foi tema do primeiro filme colorido produzido no Paraná, mostrando que a arte também encontrou inspiração nessa devoção centenária.

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Do lado de fora do santuário, a cidade ganha novos ritmos.

O tradicional shopping popular ocupa a praça inteira com barracas de roupas, utensílios domésticos, artesanato, eletrônicos e tantos outros produtos que fazem da visita uma experiência completa. Os aromas da praça de alimentação misturam-se ao famoso churrasco da festa e ao inesquecível pastel de polvilho, patrimônio cultural imaterial de Siqueira Campos, que há décadas conquista moradores e visitantes.

Também floresce o espírito solidário. Entidades como a APAE e o Lar do Menor promovem ações que unem arrecadação de recursos e trabalho voluntário, lembrando que a fé também se manifesta através do cuidado com o próximo.

Enquanto isso, o parque de diversões recebe crianças, jovens e famílias, mostrando que tradição e alegria podem compartilhar o mesmo espaço.

Nos últimos anos, outro elemento passou a integrar essa grande celebração: a cultura.

A Rua da Cultura tornou-se um espaço dedicado aos artistas, artesãos e criadores locais. Ali, durante a festa, a produção artística de Siqueira Campos ganha visibilidade, fortalecendo a economia criativa e permitindo que visitantes conheçam um pouco da riqueza cultural do município. As oficinas culturais, músicos, artesãos e artistas de rua transformam o entorno do santuário em uma verdadeira galeria a céu aberto, demonstrando que a arte também é uma forma de devoção, pertencimento e identidade.

Talvez seja justamente essa capacidade de reunir tantas expressões humanas que torna a Festa do Bom Jesus da Cana Verde tão especial.

Ela acolhe quem chega pela fé, quem vem pela tradição, quem procura reencontrar amigos, quem deseja conhecer a cidade ou simplesmente viver alguns dias de convivência fraterna. Entre orações, música, gastronomia, história, cultura e solidariedade, Siqueira Campos revela o melhor de si.

Ao final da visita, cada romeiro leva consigo algo diferente. Uns voltam com a promessa cumprida. Outros com novas esperanças. Muitos levam lembranças compradas nas barracas, fotografias tiradas em família ou o sabor inesquecível de um pastel de polvilho.

Mas todos, de alguma forma, levam consigo a certeza de que existem lugares onde a fé não apenas move montanhas.

Ela também une pessoas, preserva histórias e mantém viva a alma de uma cidade.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

FLÁVIO MELLO
FLÁVIO MELLO
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.
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