
Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
Há dias em que observo as pessoas caminhando pelas ruas e tenho a estranha impressão de que a humanidade resolveu terceirizar o pensamento. Não é falta de inteligência. É algo mais delicado. Parece que pensar com liberdade passou a ser inconveniente.
João do Rio imaginou, há mais de um século, um homem com cabeça de papelão. Era uma metáfora poderosa. Talvez hoje ela nem pareça ficção. Talvez tenha se tornado um retrato.
Vivemos cercados por moldes. Etiquetas. Rótulos. Tribos. Algoritmos. Espera-se que cada um encontre rapidamente uma gaveta onde possa ser guardado. Quem escapa desse catálogo humano desperta desconfiança. Afinal, quem pensa por conta própria sempre causa algum desconforto.
O curioso é que nunca se falou tanto em individualidade e nunca se produziu tanta uniformidade.
As opiniões vêm prontas. As indignações chegam embaladas. Os julgamentos dispensam investigação. Basta que alguém aponte um dedo para que dezenas de outros apareçam logo em seguida, formando um tribunal onde quase ninguém conhece os fatos, mas todos desejam uma sentença.
É um tempo estranho.
O mal continua sendo minoria, acredito nisso. Mas descobriu um recurso precioso: faz mais barulho do que a bondade. A generosidade costuma trabalhar em silêncio; a maldade prefere os refletores.
Talvez por isso tantas pessoas tenham desenvolvido um estranho prazer em assistir à queda dos outros. Não basta vencer. É preciso ver alguém fracassar. Não basta discordar. É necessário humilhar. Como se destruir uma reputação produzisse algum tipo de recompensa íntima.
Vivemos uma época em que muitos observam a vida alheia como quem acompanha um reality show. Uma pena. George Orwell imaginou um Grande Irmão para discutir o controle do poder sobre os indivíduos. Nós conseguimos transformar essa vigilância em entretenimento.
Enquanto isso, seguimos andando sobre nossas esteiras invisíveis. Lembro-me da fábrica de Chaplin em Tempos Modernos. Lembro-me também dos estudantes de The Wall, do Pink Floyd, marchando em fila até se tornarem peças indistintas de uma engrenagem. Mudaram os cenários, mudaram as máquinas, mas continua existindo um esforço permanente para que todos pensem da mesma maneira.
E quem insiste em criar?
Quem insiste em fazer arte?
Quem insiste em plantar ideias?
Esses passam a ser observados com uma curiosa expectativa de fracasso. Como se houvesse uma torcida silenciosa aguardando o tropeço. Não para corrigir, mas para celebrar a queda. É a velha caça aos que ousam sair da fila.
Talvez seja justamente esse o maior risco de ser artista. Não o de errar, porque errar é profundamente humano, mas o de incomodar. A arte sempre perturba quem se acostumou ao conforto das certezas prontas. Um livro, uma música, uma pintura ou uma simples crônica têm o poder de abrir janelas onde alguns prefeririam construir muros.
Há quem diga que não devemos dar pérolas aos porcos. Confesso que outra preocupação me parece ainda mais urgente: transformar os próprios porcos em pérolas apenas para satisfazer a aparência das vitrines. Quando isso acontece, perde-se o valor das pérolas e também a natureza dos porcos. Todos saem empobrecidos.
Talvez João do Rio estivesse apenas antecipando um problema que cresceria com o tempo. A cabeça de papelão não é incapaz de pensar; ela apenas aceita qualquer formato que lhe imponham. Dobra-se com facilidade. Molda-se conforme o vento. Nunca incomoda.
Mas ainda existem algumas cabeças que insistem em funcionar como velhos relógios suíços: silenciosas, precisas e obstinadas. Não são perfeitas. Apenas recusam o conforto de trocar o pensamento pela embalagem.
Talvez sejam justamente essas as cabeças que ainda nos lembram de que a liberdade não começa na boca, nem nas mãos. Ela começa dentro daquilo que ninguém deveria permitir que fosse feito de papelão.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.