
Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
Vivemos uma época curiosa. Nunca houve tanta informação disponível e, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil encontrar profundidade.
Basta abrir uma rede social, assistir a alguns vídeos ou navegar por alguns comentários para encontrar especialistas em tudo. São filósofos de ocasião, antropólogos de intervalo comercial, sociólogos de quinze segundos, juristas de manchete e críticos de arte que jamais se permitiram o trabalho de conhecer aquilo que criticam.
Talvez o fenômeno mais inquietante do nosso tempo seja justamente a velocidade com que as pessoas passaram a emitir sentenças sobre assuntos que desconhecem. Não se trata de discordar — a discordância é saudável e necessária. Trata-se de transformar impressões superficiais em verdades absolutas.
A arte tem sido uma das maiores vítimas desse processo.
Um artista passa décadas construindo uma trajetória. Escreve, compõe, pesquisa, fracassa, recomeça, atravessa dificuldades financeiras, enfrenta a indiferença do mercado e continua criando. Então, um dia, alguém que conheceu apenas um fragmento daquela obra decreta sua irrelevância em poucas palavras.
É curioso observar como muitos confundem visibilidade com importância.
Os grandes veículos de comunicação, naturalmente, possuem força suficiente para direcionar holofotes. Escolhem o artista do momento, a música do momento, o livro do momento. E o público, muitas vezes, acredita estar enxergando o panorama completo quando vê apenas a vitrine.
Mas a cultura sempre foi muito maior que a vitrine.
Enquanto os refletores iluminam um pequeno espaço, milhares de artistas continuam trabalhando nos bastidores. Produzem livros, discos, espetáculos e pesquisas. Viajam pelo mundo. Levam a cultura brasileira para lugares onde muitos sequer imaginam que ela chegue. Constroem carreiras sólidas sem depender da aprovação instantânea dos algoritmos ou da bênção dos apresentadores da moda.
A história da arte é repleta desses personagens.
Muitos foram ignorados em seu tempo e celebrados séculos depois. Outros foram fenômenos absolutos durante alguns meses e desapareceram sem deixar vestígios. A permanência raramente obedece às regras da popularidade.
Talvez porque a verdadeira arte não tenha compromisso com o imediatismo.
Ela não nasce para ocupar tendências. Nasce para dialogar com algo mais profundo dentro de nós. Para provocar perguntas. Para incomodar. Para emocionar. Para permanecer.
Quando escutamos uma composição de Bach, lemos um trecho de Camões ou abrimos um romance escrito há centenas de anos, percebemos que algumas obras atravessam o tempo porque falam daquilo que continua sendo humano.
As modas passam.
Os algoritmos mudam.
As plataformas desaparecem.
Mas aquilo que toca a essência das pessoas permanece
Por isso sempre desconfio de quem anuncia a morte de uma expressão artística. Já disseram que a poesia morreu. Já disseram que o teatro morreu. Já disseram que o livro morreria. Já decretaram inúmeras vezes o fim do rock.
Nenhum deles morreu.
Apenas saíram dos holofotes.
E existe uma enorme diferença entre desaparecer e deixar de existir.
A cultura verdadeira costuma habitar justamente esses lugares menos iluminados. Ela cresce silenciosamente, longe das vitrines, alimentada por artistas que continuam criando porque não sabem viver de outra forma.
Enquanto houver alguém disposto a escrever, pintar, cantar, representar ou sonhar, a arte continuará respirando.
Mesmo que os filósofos de plantão insistam em não perceber.
E isso, não é apenas sobre arte.