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Quando as ruas também sonhavam com o Brasil

Ou As bandeirinhas que coloriam a infância

Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
19/06/2026 às 09h51 Atualizada em 19/06/2026 às 09h55
Quando as ruas também sonhavam com o Brasil
Rua de Ibaiti pintada para a Copa. Foto: Ibaiti da Depre

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

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Nasci na Vila Ema, na Zona Leste de São Paulo, próximo a Vila Prudente e o Ipiranga. Minha infância aconteceu em territórios que hoje habitam minha memória como pequenos reinos encantados: o Clube Arthur Friedenreich, o Museu do Ipiranga, a Biblioteca Pública da Vila Prudente. Foram lugares onde aprendi a andar de bicicleta, arriscar os primeiros movimentos sobre um skate, cair dos patins e, sobretudo, descobrir que o mundo podia ser muito maior do que as ruas do bairro.

Na biblioteca encontrei outros mundos. Livros de capa dura, adaptações de clássicos, coleções que me apresentaram escritores que mais tarde voltariam a cruzar meu caminho. Ali nasceu um amor que nunca mais me abandonou: a arte.

A arte estava em tudo. Nos livros, na música que tocava nas casas vizinhas, nos desenhos que eu rabiscava sem muito talento, mas com enorme entusiasmo. E estava, principalmente, nas ruas.

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Quando chegava a época da Copa do Mundo, algo mágico acontecia.

As ruas deixavam de ser apenas ruas.

Transformavam-se em telas.

Os fios ganhavam bandeirinhas. Os postes recebiam cores. O asfalto virava mural. Crianças, jovens e adultos saíam com pincéis, latas de tinta e uma alegria difícil de explicar para quem nunca viveu aquilo.

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Entre todos os artistas daquele tempo, havia um que ocupava um lugar especial no imaginário do bairro. Chamávamos de Mansão, seu nome Francisco Martins. Era um artista popular, desses que a vida ensina e a universidade raramente consegue formar. Fazia esculturas em isopor para festas de aniversário, pintava, desenhava e dominava as cores como quem conversa com velhos amigos.

Lembro dele chegando com o avental branco completamente manchado de tinta. Para nós, aquelas manchas eram medalhas. Ele se ajoelhava no asfalto e começava a desenhar. Nós observávamos fascinados. Explicava como misturar cores, como criar sombras, como fazer surgir uma imagem onde antes existia apenas o chão cinza da rua.

Uma das imagens que nunca saiu da minha memória foi um enorme urso polar pintado logo na entrada da rua. Parecia vivo. Parecia guardar a nossa pequena comunidade. Ao redor dele surgiam bandeiras, jogadores, bolas, estrelas e sonhos.

Hoje volto àquela rua.

Ela não é tão grande quanto eu lembrava.

A infância sempre exagera as dimensões das coisas.

Mas percebo que, embora menor, ela guardava um mundo imenso.

Talvez por isso me entristeça notar como essa tradição esta desaparecendo. Cresci vendo ruas pintadas para a Copa. Era algo comum em São Paulo. Aqui no interior do Paraná, raramente vejo algo parecido. As bandeirinhas quase desapareceram. Os desenhos sumiram. As crianças já não passam tardes inteiras criando arte sobre o asfalto.

Não sei exatamente quando isso aconteceu.

Talvez tenha sido a internet ocupando os espaços da convivência. Talvez a correria dos dias modernos. Talvez o próprio desencanto com uma seleção brasileira que já não desperta a mesma paixão de outros tempos.

Não sou especialista em futebol. Nunca fui.

Mas lembro de uma época em que vestir a camisa amarela parecia carregar um significado diferente. Havia um respeito internacional pela Seleção Brasileira. Havia a sensação de que aqueles jogadores representavam um sonho coletivo.

Hoje, muitas vezes, parece que a camisa pesa menos do que os contratos. Mas talvez a maior perda não tenha acontecido dentro dos estádios. Talvez tenha acontecido fora deles.

Nas ruas.

Porque pintar uma rua para a Copa nunca foi apenas sobre futebol. Era sobre comunidade. Sobre vizinhos que se conheciam pelo nome. Sobre crianças aprendendo arte com artistas populares. Sobre ocupar os espaços públicos com beleza. Sobre criar memórias.

E havia algo ainda mais bonito, as cores da bandeira pertenciam a todos... não serviam para separar pessoas. Não eram instrumento de disputa. Eram apenas as cores de um país que, por alguns instantes, conseguia sonhar junto.

Sinto falta das bandeirinhas.

Sinto falta dos desenhos.

Sinto falta daquele urso polar que um dia guardou a entrada da minha rua. Talvez porque, no fundo, eu não sinta falta apenas das Copas do Mundo. Sinto falta de um tempo em que as ruas também sabiam sonhar.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

FLÁVIO MELLO
FLÁVIO MELLO
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.
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