
por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
Eu me lembro
Vinte e quatro anos já se passaram, mas ainda consigo sentir o cheiro da tinta, da massa e da ferrugem na oficina onde eu trabalhava. Eu tinha uns 23 anos, recém-iniciado nos sonhos que, mais tarde, me trariam ao Norte Pioneiro. Naquele dia, eu preparava um caminhão para pintura — lixando, mergulhado num trabalho repetitivo, monótono.
O rádio, meu companheiro, transmitia o noticiário. Não lembro a estação, mas lembro o susto: a música de plantão interrompeu o fluxo do dia. O jornalista, com a voz trêmula, anunciava algo inimaginável: aviões haviam atingido torres em Nova York. Logo saberíamos que outros caíram em diferentes lugares.
Silêncio de perplexidade, mas também um silêncio carregado de perguntas: como é possível tanta destruição?
Parei, com a mão no balde de água turva. Um enjoo súbito me percorreu. Minutos depois, as torres gêmeas desabaram — e um silêncio espesso tomou conta da oficina, da rua, do bairro, do país. Silêncio de perplexidade, mas também um silêncio carregado de perguntas: como é possível tanta destruição?
Tempos depois, soubemos que algumas pessoas, presas nas alturas, saltaram antes do colapso. Há fotos, vídeos, testemunhos. Essas imagens não pertencem apenas à história americana; elas são um espelho das nossas vulnerabilidades mais profundas.
Filósofos como Hannah Arendt lembram que o mal, muitas vezes, se apresenta de forma banal — silencioso, burocrático, mas devastador quando encontra estruturas para crescer. Sociólogos diriam que, em cada ato de terror, também estão as rachaduras das nossas sociedades: desigualdades, radicalismos, discursos que secam a empatia. A violência nunca nasce do nada; ela fermenta onde a dignidade humana é negada.
O horror é como a água: infiltra-se, encontra frestas, rompe barreiras.
Hoje, vivendo aqueles sonhos de juventude, moro em uma cidade pequena, onde às vezes parece que o mundo lá fora não chega. Mas ele chega, sempre chega. O horror é como a água: infiltra-se, encontra frestas, rompe barreiras.
E, no entanto, também é água o que cura, o que irriga, o que alimenta. Se o mal é persistente, a bondade também pode ser. Somos rios de escolha: ou levamos destruição, ou fertilizamos o terreno onde estamos.
Por isso, mais do que lembrar onde você estava quando tudo aconteceu, é preciso perguntar: onde você está agora? O que você está fazendo, hoje, para que o ódio não tenha a última palavra?
A memória não deve ser um peso apenas — ela pode ser um chamado. Que cada lembrança das torres, de suas sombras e cinzas, seja também um convite silencioso para construir um mundo menos inflamável, mais humano.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.