Nenhuma rodovia duplicada, nenhum presídio, nenhum aeroporto de vôos comerciais, nenhum investimento público milionário, nenhum reforço estrutural substancial – muito menos estádios modernos. Este é o Norte Pioneiro.
Os turistas que chegam não têm atenção especial nem esquema de segurança. Aliás, aqueles que chegam de ônibus nem sempre tem o “luxo” de desembarcar em uma rodoviária propriamente dita, já que nem todos os municípios da região contam com uma.
Desta forma, ficam de um lado os bilhões investidos sem dó pelo governo Federal para a Copa do Mundo, do outro lado fica o Norte Pioneiro, alheio e sem qualquer vestígio de uma mera proximidade com o evento.
Os contrastes são muitos, e gritantes. Alguns exemplos, até já citados em reportagens anteriores da Folha Extra, são emblemáticos. Além disso, outros textos aqui publicados já citaram alguns exemplos de diferenças absurdas entre o Norte Pioneiro e a Copa, porém sem “unir” todas estas discrepâncias sociais e econômicas.
DIVISA COM BALSA
Muito se ouve falar em obras de mobilidade urbana para receber a Copa. Pois bem. E uma travessia entre estados feita por uma balsa de madeira e puxada manualmente por um balseiro? Assim é divisa entre Paraná e São Paulo, nos municípios de São José da Boa Vista e Riversul.
Sem asfalto por perto, sem fiscalização, e quase sem movimento. No entanto, ainda uma divisa entre dois estados. A média de míseros dois carros por dia dá o tom do local, que não poderia esperar muito, já que está entre dois municípios que se, somadas as populações, passa pouco dos 12 mil habitantes.
A balsa, em si, merece uma descrição mais aprofundada. Sustentada por uma estrutura metálica, na parte que fica submersa, é toda de madeira e tem em cabos de aço e cordas a garantia de não ser levada pela correnteza do rio Itararé.
Aí, a força que faz a balsa ir de um lado a outro é a própria correnteza, porém contando com um pequeno impulso do balseiro, responsável por empurrar a embarcação da margem e esperar que os aproximadamente 30 metros de rio cheguem ao fim, o que leva cerca de um minuto.
Claro que só se atravessa um veículo por vez, e ônibus e caminhões não tem a possibilidade da travessia por ali.
CAMPOS DE FUTEBOL
Arenas multi uso? Não. O máximo que os poucos estádios de futebol do Norte Pioneiro entendem deste termo é quando sediam rodeios, de forma absolutamente destrutiva ao gramado.
Ausência de alambrado sim, isto é fácil de achar. Basta ir a um dos vários campos de futebol espelhados pela região, especialmente na zona rural dos municípios. Além do alambrado, também não se vê vestiários, demarcação de gramado com cal, medidas oficiais, etc.
Também não existem grandes construtoras neste segmento. Um exemplo perfeito nesse quesito é o Estádio Regional de Cambará, que foi erguido no começo da década de 80 pela torcida do atualmente “falecido” Matsubara – proprietária até hoje da praça esportiva. Para a construção foram realizadas rifas, bingos e mutirões, sem qualquer dinheiro público investido.
AEROPORTOS
Este subtítulo deveria ficar em branco. Como nem todos conhecem a realidade regional com relação aos aeroportos, então algumas linhas vão explicar. Não existe aeroporto comercial na região, nem projeto para isso. O último vôo comercial do Norte Pioneiro aconteceu na década de 70, saindo de Jacarezinho ou Siqueira Campos, que possuíam pistas de pouso com vôos regulares de uma linha comercial especializada no interior do Brasil.
Depois disso o aeroporto de Jacarezinho foi extinto, enquanto o de Siqueira Campos recebe raramente aviões de pequeno porte. Ibaiti também possui uma pista de pouso asfaltada, porém sem maior freqüência de aeronaves (nunca uma de grande porte).
TRANSPORTE COLETIVO
O último trem de passageiros circulou no fim da década de 70. Depois disso, apenas ônibus de empresas que fazem cada linha de forma monopolizada. Poucos horários e viagens quase sempre em ônibus “pinga pinga” são a rotina de quem precisa de transporte coletivo na região.
CONCLUSÃO
Padrões Fifa só nas cidades sede. Nos outros mais de 5 mil municípios brasileiros, a realidade é esta, muito bem exemplificada pelo Norte Pioneiro, com graves problemas crônicos e soluções visíveis apenas em propagandas de televisão.
Por LUCAS ALEIXO