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Norte Pioneiro fica novamente sem representantes próprios na Câmara e na Alep

Candidatos ligados diretamente à região somaram mais de 98 mil votos, mas nenhum conquistou mandato; resultado expõe pulverização dos votos locais e mantém espaço para deputados de outras bases eleitorais

Por: Da Redação Fonte: DA REDAÇÃO - OLIVEIRA JUNIOR
05/10/2026 às 14h16
Norte Pioneiro fica novamente sem representantes próprios na Câmara e na Alep
Quase 100 mil votos, nenhuma cadeira. Foto Divulgação Alep

As Eleições 2026 terminaram com um resultado que reacende uma discussão antiga no Norte Pioneiro: a dificuldade da região em transformar seus próprios votos em representação política.

Nenhum dos oito candidatos com ligação direta às cidades acompanhadas pela Folha Extra conseguiu conquistar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) ou na Câmara dos Deputados. Juntos, eles receberam 98.424 votos em todo o Paraná.

Ficaram pelo caminho Emanuel Cavalar, de Wenceslau Braz; Flávio Zanrosso, ligado a Tomazina; Bruna Fogaça e Valter do PT, de Santo Antônio da Platina; delegado Amir Salmen, de Jacarezinho; Dr. Bráulio César Pereira, ligado a Ibaiti e Wenceslau Braz; Ghiovanny Lorusso, de Jaguariaíva; e Diego Garcia, natural de Andirá e atualmente radicado em Londrina.

Candidatos da região somam mais de 98 mil votos nas eleições; veja o desempenho de cada um. Acesse e leia.

O resultado chama ainda mais atenção porque alguns desses candidatos conseguiram liderar a votação em suas próprias bases. Emanuel Cavalar foi o federal mais votado em Wenceslau Braz, com 1.461 votos. Bruna Fogaça liderou entre os estaduais em Santo Antônio da Platina, com 4.963. Ghiovanny Lorusso foi o federal mais votado em Jaguariaíva, com 3.648 votos. Flávio Zanrosso, por sua vez, teve forte desempenho regional, liderando entre os estaduais em cidades como Wenceslau Braz e Ibaiti.

Ainda assim, a força localizada não foi suficiente para garantir representação parlamentar.

Quase 100 mil votos, nenhuma cadeira

Entre os candidatos regionais a deputado estadual, Flávio Zanrosso obteve o melhor resultado no Paraná, com 21.849 votos. Amir Salmen recebeu 8.365; Bruna Fogaça, 7.905; Dr. Bráulio, 3.356; e Valter do PT, 2.899. Nenhum entrou na composição das 54 cadeiras da Assembleia Legislativa.

Para deputado federal, Diego Garcia alcançou 46.072 votos e ficou como suplente. Ghiovanny Lorusso recebeu 5.768 votos e Emanuel Cavalar, 2.210. Também nenhum deles conquistou uma das 30 cadeiras paranaenses na Câmara.

O caso de Diego Garcia é particularmente simbólico. Mesmo chegando à eleição como parlamentar em exercício e reunindo, de longe, a maior votação entre os candidatos ligados à região analisados pela Folha, seus 46 mil votos não foram suficientes para garantir novo mandato. O resultado oficial o colocou na suplência da Federação União Progressista.

Região vota em candidatos locais, mas também entrega milhares de votos para fora

A leitura dos resultados municipais revela um fenômeno importante. Não se pode dizer simplesmente que o eleitor rejeitou os candidatos locais. Em várias cidades aconteceu justamente o contrário: candidatos da própria região terminaram em primeiro lugar.

O problema aparece quando se observa o conjunto. Enquanto os votos destinados aos nomes regionais ficaram distribuídos entre diferentes candidaturas, partidos e cidades, deputados consolidados eleitoralmente em outras regiões receberam milhares de votos dentro do Norte Pioneiro e dos Campos Gerais.

Em Santo Antônio da Platina, por exemplo, Pedro Lupion recebeu 8.699 votos para deputado federal, enquanto Bruna Fogaça liderou a votação para estadual. Em Jacarezinho, Lupion recebeu outros 6.703 votos e Maria Victoria terminou na liderança para estadual, à frente do candidato local Amir Salmen. Em Ibaiti, Pedro Lupion também liderou para federal, enquanto Flávio Zanrosso venceu para estadual.

Nos Campos Gerais ocorre fenômeno semelhante. Em Sengés, os mais votados foram Beto Preto para federal e Ademar Traiano para estadual. Em Arapoti, Aline Sleutjes liderou para federal e Moacyr Fadel para estadual. Jaguariaíva foi uma exceção parcial: Ghiovanny Lorusso conseguiu liderar para federal, mas Moacyr Fadel venceu entre os estaduais.

Ou seja: a região tem votos suficientes para participar de maneira relevante da eleição de deputados, mas parte significativa desses votos continua ajudando a eleger representantes cuja principal base política está fora dela.

O problema da pulverização

Politicamente, este talvez seja o principal ponto deixado pelas urnas. O Norte Pioneiro não sofre necessariamente de falta de candidatos. Sofre de dificuldade em construir candidaturas regionais capazes de ultrapassar as fronteiras municipais e concentrar votação suficiente em um ou dois projetos competitivos.

Um candidato pode dominar sua cidade e ainda assim estar muito distante de uma cadeira na Assembleia ou na Câmara. Para chegar a Curitiba ou Brasília, é necessário construir uma base eleitoral que atravesse municípios, estabeleça alianças regionais e acumule votos em escala muito maior.

Flávio Zanrosso é um exemplo. Foi o candidato regional a deputado estadual com melhor desempenho, recebeu 21.849 votos no Paraná e apresentou força expressiva em diferentes municípios do Norte Pioneiro, mas terminou como suplente do Novo.

Ao mesmo tempo, candidatos com estruturas eleitorais consolidadas, mandatos, partidos fortes e bases distribuídas pelo Paraná conseguem buscar alguns milhares de votos em dezenas de municípios. Somados, esses votos formam grandes eleitorados estaduais.

É uma diferença fundamental entre ser forte em uma cidade e construir uma candidatura regionalmente competitiva.

Quem perde é a capacidade de representação da região

A consequência vai além dos candidatos derrotados. Deputados não representam juridicamente apenas uma cidade ou região, depois de eleitos, representam todo o Paraná. Politicamente, porém, é natural que parlamentares mantenham relações mais próximas com as bases onde construíram suas trajetórias, receberam apoio e estabeleceram seus principais grupos políticos.

Por isso, ter deputados efetivamente enraizados no Norte Pioneiro significa aumentar a capacidade da região de colocar suas demandas permanentemente dentro da Assembleia Legislativa e da Câmara dos Deputados.

Rodovias, hospitais, universidades, infraestrutura, segurança pública, agricultura, turismo, geração de empregos e recursos para pequenos municípios disputam atenção com demandas de todas as demais regiões paranaenses.

Sem uma bancada própria ou representantes fortemente identificados com o território, o Norte Pioneiro continua dependendo da articulação com parlamentares que também possuem compromissos políticos e eleitorais em outras partes do Estado.

A matemática eleitoral também pesa

Há ainda um componente que não pode ser ignorado. Deputados estaduais e federais são escolhidos pelo sistema proporcional. Portanto, a quantidade individual de votos não é o único fator que determina quem conquista uma cadeira.

O desempenho dos partidos e federações influencia diretamente a distribuição das vagas. Em 2026, por exemplo, houve candidatos eleitos para a Câmara com votação individual inferior à de candidatos que ficaram como suplentes em outras legendas.

Isso significa que construir uma candidatura competitiva envolve três fatores simultâneos: força individual, distribuição geográfica dos votos e desempenho da legenda.

Mas o sistema eleitoral, sozinho, não explica o quadro regional. A própria distribuição das urnas mostra que candidatos de fora continuam encontrando no Norte Pioneiro um território importante para ampliar suas votações.