
Redação - Folha Extra
NORTE PIONEIRO - A tragédia de 1982, ocorrida no município de Santana do Itararé, permanece registrada como um dos episódios mais marcantes e devastadores da história local e do Norte Pioneiro do Paraná. O tornado que atingiu a região, lembrado como o maior desastre natural já registrado no município, afetou principalmente o Bairro Bebedouro na noite de 25 de junho de 1982, deixando um rastro de destruição, perdas humanas e forte impacto na comunidade. Municípios como Wenceslau Braz e São José da Boa Vista também foram castigados pela força dos ventos.
De acordo com relatos reunidos no livro do escritor e historiador Sirineu Mota, além de depoimentos de moradores da época, o dia começou sem sinais de anormalidade. No entanto, ao anoitecer, nuvens escuras com movimentos incomuns começaram a cobrir o céu da região, acompanhadas de trovões intensos, relâmpagos constantes e ventos cada vez mais fortes. Por volta das 21h30, uma chuva intensa tomou conta do local, descrita por moradores como semelhante a uma tromba d’água.
Pouco tempo depois, um vento extremamente violento atingiu o Bairro Bebedouro, destruindo casas, arrancando telhados e lançando árvores, madeiras e objetos a grandes distâncias. Muitos moradores não tiveram tempo de deixar suas residências. A força do fenômeno destruiu completamente diversas moradias de madeira, atingindo famílias inteiras em poucos minutos.
No Bebedouro Guaicá, próximo à Capela Nossa Senhora Aparecida, uma das cenas mais lembradas envolve a residência de Maria Teodoro de Jesus Almeida, onde moradores estavam reunidos em oração no momento do desastre. A casa, construída sobre esteios, foi completamente destruída. Entre os sobreviventes, José Ademir Vidal conseguiu caminhar até a cidade em busca de socorro, mesmo com o braço quebrado.
A tragédia resultou na morte de sete membros da mesma família, conhecidos como a família dos “Carias”: Maria Teodoro de Jesus Almeida, Armando Ferreira de Almeida, Maria Aparecida de Almeida, Maria Lusdete de Almeida, Santana de Fátima Almeida, Sonia Maria Vidal e Rosana de Almeida.
Outras famílias também foram diretamente afetadas, com a destruição total de residências pertencentes a nomes como Jesus Benedito Pereira, João Batista Pereira Filho (João Tomé), Braz José de Almeida e Celso Teixeira do Paiva. Ao todo, somente no Bairro Bebedouro, pelo menos 11 casas foram completamente destruídas, deixando moradores soterrados entre escombros, móveis quebrados e estruturas de madeira.
Mesmo diante da devastação, a resposta da comunidade foi imediata. Durante a madrugada, moradores se organizaram em mutirões improvisados de resgate, enfrentando chuva, ventos remanescentes e falta de infraestrutura. Abrigos improvisados foram montados em barracões e casas que resistiram ao fenômeno.
A dimensão da tragédia ultrapassou os limites do município e ganhou repercussão nacional, sendo noticiada à época pelo Jornal Nacional da Rede Globo. Registros históricos indicam que o fenômeno também atingiu cidades vizinhas, ampliando o alcance da destruição no Norte Pioneiro.
Em Wenceslau Braz, a Capela do Patrimônio São Miguel ficou quase totalmente destruída, restando apenas a torre. Já em áreas rurais de São José da Boa Vista, também foram registrados danos significativos em propriedades e estruturas comunitárias, reforçando a extensão regional do evento climático extremo.

Relatos de moradores indicam ainda que estradas ficaram bloqueadas por árvores caídas, dificultando o acesso das equipes de resgate e da própria população. Em alguns pontos, foi necessário abrir caminhos manualmente para permitir a passagem de veículos e o atendimento às famílias atingidas.
Há divergências sobre a classificação do fenômeno, que pode ter sido um vendaval extremo ou um tornado, já que ocorreu durante a noite e sem registros visuais precisos. No entanto, a intensidade dos danos, a força dos ventos e o padrão de destruição são frequentemente associados a eventos tornádicos.
Até hoje, a tragédia de 1982 permanece na memória coletiva como símbolo de dor, solidariedade e reconstrução. Imagens restauradas e registros históricos preservados ajudam a manter viva a lembrança do episódio, incluindo residências de famílias como Amelio Fernandes Garcia, Anizio Divino, Benedito Tomaz, Francisco Ferreira de Almeida, Francisco Gonçalves, João Carlos, João Vidal e Valdivino.
A preservação dessas memórias, reforçada por familiares e pesquisadores locais, contribui para manter vivo o registro de um dos episódios mais marcantes da história do Norte Pioneiro, onde a força da natureza transformou profundamente a vida de toda uma comunidade.