
por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
A arte tem poder de alinhar planetas e sonhos.
A arte tem poder de alinhar planetas e sonhos. Digo isso com a segurança de quem a vive e a testemunha todos os dias, ela pode ser um poço profundo, onde muitos artistas se lançaram, deixando não apenas sua arte, mas, às vezes, as próprias vidas, sucumbindo às dores do mundo. Sim, a arte também pode ser um trem que descarrilha. Pode... e faz parte. A dor, afinal, é um de seus temas fundamentais. Mas há outro lado: a arte é também salvação. São incontáveis as vidas que ela já resgatou, e graças a Deus posso dizer, com o coração leve, que vi muitas delas sendo salvas diante de mim.
Faço esse prelúdio para que compreendamos que ser artista não é uma escolha: é um dom, uma predestinação. Por isso, no mundo tido como “real”, o artista é tantas vezes incompreendido, visto como recluso, distante, temperamental. Essa palavra, temperamental, talvez seja a chave para falar do personagem central desta crônica: Júnior Mendes Leal.
De ferros retorcidos, ferrugem, graxa, pinos e parafusos, ele cria esculturas de alma viva – ramagens, flores, figuras humanas – todas nascidas do calor da solda e da resistência do aço. Em sua oficina, entre o som metálico e o cheiro de graxa, Júnior tempera em solda e recicláveis a própria vida que pesa, tal qual a matéria-prima que manipula. Júnior é um artista nato. Participa de diversas atividades culturais do município, da Dança Gaúcha à Banda Municipal de Siqueira Campos, com a qual já percorreu inúmeros municípios dentro e fora do Paraná. É, sem dúvida, um talento singular, e sua trajetória merece destaque e reverência. Siqueira Campos, mais uma vez, se confirma como berço e morada de pessoas criativas, sensíveis e profundamente humanas.
Filho de José Jair Leal, o conhecido Zé Jair Mecânico, e de Nilda Mendes Leal, Júnior nasceu em 18 de julho de 1986, em Quatiguá, Paraná. Desde cedo, a vida lhe apresentou desafios, dificuldades escolares, timidez e uma infância simples, mas povoada de sonhos. Queria seguir os passos do pai, tornar-se mecânico. Com apenas 10 anos, começou a trabalhar na indústria de implementos agrícolas Barbosa, a famosa Oficina do Cocão. Foi ajudante de soldador, depois ferreiro, e, aos 14, já era torneiro mecânico, função que exerceu até os 18. Em seguida, ingressou na Doces Vilson, onde permaneceu cerca de 15 anos, crescendo até se tornar chefe de manutenção.
Mas o que mais o marcaria viria de dentro: a luta silenciosa contra a depressão e a síndrome do pânico, diagnosticadas aos 16 anos, numa época em que esses temas eram pouco compreendidos. Entre consultas e remédios, percebeu que precisava encontrar um novo caminho para se reencontrar consigo mesmo. Foi então que surgiram as três grandes forças de sua cura: a dança gaúcha, a música e o artesanato em ferro. A solda se tornou oração, o ferro, confissão. Em poucos anos, Júnior reencontrou o equilíbrio e superou o medo. Começou a vender suas esculturas e, ainda que o retorno financeiro fosse modesto, a recompensa espiritual foi imensa.
Entre idas e vindas de empregos, fundou ao lado do pai a Pesadão Mecânica Pai e Filho, e ali, entre motores e chapas, manteve acesa a chama da criação. Certo dia, o destino o colocou no caminho da Cultura novamente. Nos conhecemos quando o procurei para confeccionar um disco de arado para churrasco. Daquele pedido nasceu uma amizade e, com ela, o retorno à arte. Desde então, Júnior Mendes Leal voltou a soldar sonhos. Hoje possui mais de trinta obras em seu acervo, muitas delas expostas ou doadas à Casa da Cultura Neuri Camargo da Silva, encantando visitantes de várias cidades. É também músico atuante e um dos artistas com maior participação em eventos culturais entre o Paraná e São Paulo.
Vencedor do Concurso de Presépios e professor de artesanato em sucata pela Lei Aldir Blanc, Júnior hoje cursa Artes Visuais na Unicesumar e é reconhecido pelo Programa do Artesão Brasileiro (PAB). Aos 39 anos, é pai de Emanuele Júlia e avô de Helena Maria, e segue firme, equilibrando a força do ferro com a ternura da flor. A trajetória de Júnior Mendes Leal é um exemplo de superação, disciplina e fé no dom que lhe foi concedido. Sua arte é feita de matéria bruta e alma sensível... como o próprio artista. Ele nos ensina que nunca é tarde para recomeçar, que a humildade é o aço mais resistente, e que a arte, quando nasce do coração, tem o poder de salvar o próprio criador.