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Sucessão familiar une desafios do agro no Iowa e Paraná

Durante viagem técnica aos Estados Unidos, delegação do Sistema FAEP conheceu programas de preparação das próximas gerações para a continuidade dos negócios rurais

Por: DAVI MARTINS Fonte: DA REDAÇÃO COM SENAR
16/09/2026 às 10h32
Sucessão familiar une desafios do agro no Iowa e Paraná
Foto: Senar

DA REDAÇÃO/SENAR - FOLHA EXTRA

Quem vai assumir a propriedade no futuro? A pergunta que mobiliza produtores rurais paranaenses também está presente no meio rural dos Estados Unidos. Durante visita à Iowa State University, a delegação do Sistema FAEP, composta por 40 produtores e lideranças rurais, encontrou uma realidade conhecida: produtores envelhecendo, jovens atraídos por oportunidades no meio urbano e famílias diante do desafio de dar continuidade ao negócio construído ao longo de gerações.

Os números ajudam a dimensionar a questão em Iowa. Segundo o Censo Agropecuário dos Estados Unidos de 2022, levantamento mais recente do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a idade média dos produtores no Estado é de 57,6 anos. Mais, 58 mil entre os 153 mil produtores contabilizados têm 65 anos ou mais.

“Geralmente, durante o inverno, há eventos de extensão da universidade e é difícil ver pessoas da nova geração participando. O pessoal mais novo não está querendo ficar na agricultura”, afirma Natan Seraglio, assistente de pesquisa da Iowa State University e filho de produtores rurais do Tocantins. “Um americano que se forma aqui e vai trabalhar na indústria consegue um salário bom na indústria. Isso acaba desmotivando a permanência na atividade”, complementa.

A falta de sucessores também pode provocar mudanças na própria estrutura da produção rural. Na avaliação de Seraglio, propriedades que deixam de permanecer sob a gestão das famílias tendem a abrir espaço para uma agricultura cada vez mais empresarial, com maior concentração das áreas.

“Em vez de ter agricultura familiar, vai virar uma agricultura empresarial. Grandes grupos já estão comprando terras e, no futuro, também vão passar a plantar quando essa geração atual deixar a atividade”, avalia.

A preocupação encontra respaldo em transformações já identificadas no Estado. Levantamento da própria Iowa State University mostra que 55% das terras agrícolas do Iowa pertenciam, em 2022, a pessoas que não estavam diretamente na atividade. Ao longo das últimas décadas, também houve redução proporcional das áreas mantidas exclusivamente em propriedade individual ou conjunta e crescimento de estruturas como trusts e empresas de responsabilidade limitada (LLCs).

Fomento à permanência no campo

Diante desse cenário, a Iowa State University mantém programas voltados ao planejamento patrimonial e sucessório de propriedades rurais, com oficinas, cursos e materiais destinados a ajudar as famílias na transição entre gerações. Por exemplo, o programa Managing for Today and Tomorrow: Farm Transition Planning reúne planejamento do negócio, aposentadoria, patrimônio e sucessão. A universidade também oferece oficinas específicas sobre sucessão rural e ferramentas para elaboração desses planos.

Porém, para garantir a sucessão, também é necessário criar condições para que a nova geração enxergue futuro econômico dentro da propriedade. Ou seja, os sucessores precisam conciliar formação profissional, renda, estrutura de trabalho e perspectivas para o futuro.

Essa é uma realidade em andamento na Justin Robbin’s Farm, propriedade de pecuária de corte em Scranton, no Iowa, que também fez parte da programação da viagem técnica promovida pelo Sistema FAEP. McKinley Robbins, filho dos proprietários Justin e Lacy Robbins, pretende continuar o trabalho da família. Para isso, o jovem pretende ingressar na faculdade de Medicina Veterinária e admite que ainda não sabe como conciliar a futura profissão com a propriedade da família. Entre as possibilidades está reduzir o tamanho do rebanho para tornar a atividade compatível com sua futura rotina.

“Eu quero continuar trabalhando na fazenda e seguir o trabalho da minha família porque os Estados Unidos e o mundo sempre vão precisar de alimentos. Quero continuar fazendo isso”, afirma.

Experiência paranaense

No Paraná, o Sistema FAEP trabalha a questão da sucessão diretamente com produtores e suas famílias. Uma das principais iniciativas é o programa Herdeiros do Campo, que há 10 anos reúne obrigatoriamente pelo menos duas gerações da mesma família. Ao longo da capacitação, os participantes discutem temas como governança, planejamento estratégico, resultados econômicos, mediação de conflitos e construção de confiança. Ao final, cada família começa a estruturar um plano de ação para conduzir seu próprio processo sucessório.

Para o produtor José Carlos da Silva Maia, integrante da delegação do Sistema FAEP e representante do Sindicato Rural de São João do Caiuá, o tema já faz parte da gestão da própria propriedade. Depois de chamar o filho Carlos Eduardo Maia para participar dos negócios, hoje ele acompanha também o interesse dos netos pela atividade.

“Hoje meu filho está à frente dos negócios. E já tenho dois netos, filhos dele, que também estão focados”, conta. “Muitos produtores investem durante toda a vida, mas, se não houver sucessão, aquilo pode acabar se perdendo pelo caminho. A gente entendeu essa necessidade e já implantou esse processo dentro do negócio com o apoio e assistência do Sistema FAEP”, afirma.

Para o diretor-secretário do Sistema FAEP, Livaldo Gemin, não basta estimular o jovem a permanecer no meio rural. A propriedade também precisa apresentar perspectivas econômicas para que essa escolha seja viável.

“Quando há viabilidade econômica e o sucessor pode viver naquele ambiente que escolheu e gosta, a sucessão passa a ser encarada como algo natural da atividade”, destaca. “O cenário observado no Iowa reforça que a dificuldade de atrair os jovens não é exclusiva do Brasil. Enquanto novas tecnologias, máquinas e inteligência artificial ajudam a projetar o futuro da produção, garantir quem estará à frente das propriedades nas próximas décadas continua sendo uma decisão que só os produtores podem tomar”, conclui Gemin.