Redação - Marcelo Aguiar
SENGÉS - Uma falsa negociação de veículo terminou em um duplo latrocínio na zona rural de Sengés, nos Campos Gerais do Paraná. Em entrevista exclusiva à Folha Extra, o delegado Isaías Fernandes, responsável pelas investigações da Polícia Civil, revelou detalhes sobre a dinâmica do crime, a mudança nos planos das suspeitas e as circunstâncias que levaram à morte de dois homens, de 53 e 36 anos. Duas mulheres, de 27 e 30 anos, foram presas durante a operação policial realizada com apoio da Polícia Militar de São José da Boa Vista.
LEIA TAMBÉM - Crianças são encontradas mortas dentro de carro no Norte Pioneiro
As vítimas eram o proprietário e um funcionário de uma loja de comercialização de veículos localizada em Carlópolis, no Norte Pioneiro. Conforme apurado pela Polícia Civil, as mulheres simularam interesse na compra de um automóvel para atrair o vendedor até a região de Sengés. Segundo o delegado, as investigadas não conheciam previamente as vítimas e utilizaram a suposta negociação como estratégia para executar um roubo.
Inicialmente, o plano não envolvia assassinatos. A intenção das suspeitas, conforme explicou Isaías Fernandes, era levar apenas o vendedor para conhecer o veículo e, durante o retorno a Carlópolis, anunciar o assalto e roubar o automóvel.
Entretanto, a situação tomou outro rumo quando o proprietário da loja também apareceu no encontro, acompanhado de um segundo veículo, uma Volkswagen Tiguan zero quilômetro, ainda sem emplacamento.
"Elas não imaginavam que viriam duas pessoas com carro. O plano seria levar o vendedor de volta a Carlópolis e, no caminho, dar voz de assalto. Como vieram dois, e o proprietário da loja veio com um outro veículo, de sua propriedade, uma Tiguan ainda não emplacada, elas então resolveram matar os dois e levar os dois veículos", explicou o delegado.
De acordo com Fernandes, o local onde os homens foram mortos também não foi escolhido por acaso. As suspeitas teriam planejado antecipadamente o deslocamento até uma região de mata nas proximidades do distrito de Reianópolis, onde ocorreu o encontro inicial. Os corpos foram encontrados em pontos diferentes, separados por aproximadamente um quilômetro, ambos com ferimentos provocados por disparos de arma de fogo.
Depois dos assassinatos, as mulheres teriam tentado organizar a retirada da Tiguan. Para isso, contrataram um motorista de aplicativo para buscar o automóvel. Entretanto, o plano acabou interrompido quando o motorista chegou ao distrito de Reianópolis e ouviu comentários sobre a localização de um dos corpos, que já havia sido encontrado.
"Elas contrataram um Uber para buscar a Tiguan, mas ele chegou ao distrito e ouviu comentários de que um dos corpos já havia sido localizado", relatou o delegado.
A investigação também identificou a subtração de dinheiro e outros bens das vítimas. Durante as diligências, os policiais recuperaram um dos veículos em um estabelecimento de lavagem de automóveis em São José da Boa Vista. Na residência onde as investigadas moravam, foram apreendidos aproximadamente R$ 15 mil em dinheiro, cheques que somam cerca de R$ 1,2 milhão, munições, uma motocicleta roubada dias antes em Wenceslau Braz, adesivos com identificação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e camisetas com inscrições da Polícia Penal e da Polícia Civil.
Sobre os cheques e o dinheiro, Fernandes afirmou que a principal hipótese é de que os valores tenham sido retirados do empresário. "Ele era um empresário muito bem-sucedido. Tudo indica que esses cheques e o dinheiro foram subtraídos dele", disse. No entanto, a origem de todo o montante ainda não foi definitivamente esclarecida, e os documentos financeiros passam por análise.
Outro ponto investigado é a possível participação das mulheres em outros roubos de veículos na região. Segundo o delegado, uma das suspeitas é apontada como provável autora de um assalto ocorrido em Wenceslau Braz, quando uma motocicleta foi levada de um mototaxista. O veículo foi encontrado na residência das investigadas.
A Polícia Civil suspeita que a mesma arma utilizada naquele roubo possa ter sido empregada nos assassinatos em Sengés. A arma, porém, ainda não foi localizada. Também existem informações sobre possíveis outros roubos de veículos em Wenceslau Braz, mas esses casos ainda dependem de confirmação.
Fernandes afirmou que, até o momento, não foram encontrados elementos que indiquem a participação de uma terceira pessoa no duplo latrocínio. As duas mulheres mantinham um relacionamento e moravam juntas em São José da Boa Vista. Uma delas negou envolvimento nos crimes, enquanto a outra apresentou uma confissão parcial, mas atribuiu participação a um homem conhecido por um apelido, também morador do município.
A versão apresentada pela suspeita está sendo analisada. Segundo o delegado, a mulher afirmou que esse homem teria participado de uma tentativa de assalto contra ela, mas a dinâmica apurada até agora não aponta para o envolvimento dele. "Temos quase certeza de que ele não participou. Tudo indica que elas são as únicas envolvidas nos crimes", declarou Fernandes.
A investigação também apura a procedência de fotografias das suspeitas utilizando roupas e identificações semelhantes às de policiais civis e penais. As imagens teriam sido divulgadas nas redes sociais das mulheres. Moradores de São José da Boa Vista relataram que elas se apresentavam como policiais, mas a Polícia Civil trabalha com a hipótese de que as fotografias tenham sido produzidas por inteligência artificial.
De acordo com o delegado, não há indicativos de ligação das investigadas com organizações criminosas ou facções. A Polícia Civil também aguarda informações sobre eventuais antecedentes de uma das mulheres no estado de São Paulo, de onde ela é natural. No Paraná, até o momento, não foram identificados registros anteriores.
A investigação segue com a oitiva de testemunhas e análise dos materiais apreendidos. A Polícia Civil informou que dispõe de dez dias para concluir o inquérito, que tramita em Sengés, onde as duas suspeitas permanecem presas.