Redação - Marcelo Aguiar
WENCESLAU BRAZ - O que começou como uma segunda gestação cercada de expectativas se transformou em uma corrida contra o tempo pela vida de uma mãe e de sua filha. Para Diogo Ribeiro, morador de Wenceslau Braz, no Norte Pioneiro do Paraná, a madrugada de 22 de setembro ficou marcada pelo medo de perder a esposa, Mariana, e a bebê Martina. Depois de sobreviverem a uma série de complicações médicas, ele decidiu percorrer quase 180 quilômetros a pé até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP), para agradecer pelo que considera um milagre.
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A família já tinha Alice, a primeira filha do casal, que estava com apenas seis meses quando descobriram a nova gravidez. Aos quatro meses de gestação, Mariana sofreu um descolamento de placenta de aproximadamente 30%. Segundo Diogo, os médicos alertaram que, se o problema chegasse a 50%, a gestação poderia se tornar inviável. Com repouso e acompanhamento, o quadro apresentou melhora inicial.
A situação, porém, voltou a se agravar. Aos seis meses de gravidez, Mariana teve o rompimento de uma das membranas da bolsa, com perda de líquido, e precisou permanecer em repouso absoluto. Posteriormente, recebeu o diagnóstico de placenta prévia, condição em que a placenta se posiciona próxima ou sobre o colo do útero. Os exames identificaram ainda um quadro de acretismo placentário, quando a placenta se fixa de maneira anormal à parede uterina.
Uma ressonância realizada na 28ª semana confirmou a gravidade do problema. A placenta estava infiltrada na região da cicatriz da cesárea anterior e também havia atingido a bexiga, aumentando os riscos de hemorragia durante o parto.
A família buscou atendimento especializado em São Paulo e conseguiu uma vaga na maternidade Santa Joana. Mariana permaneceu internada por 26 dias, enquanto a equipe médica tentava prolongar a gestação para dar mais tempo de desenvolvimento à bebê. A cesárea foi programada para 23 de setembro, com uma equipe especializada e estrutura preparada para controlar possíveis sangramentos intensos.
Mas, na madrugada do dia 22, tudo aconteceu antes do previsto.
Diogo acordou ao perceber que havia sangue. Ao olhar para Mariana, encontrou uma hemorragia intensa. Ela foi levada às pressas para a cirurgia, enquanto ele permaneceu no quarto sem saber se voltaria a ver a esposa e a filha com vida.
“Eu achei que tinha perdido as duas. Naquele momento, eu estava com a Alice e minha fé. Cada minuto parecia uma eternidade. Eu só pedia a Deus que trouxessem as duas vivas de volta para nós”, recorda.
Mariana perdeu aproximadamente seis litros de sangue, segundo o relato de Diogo, e precisou receber reposição durante o procedimento. Martina também enfrentou falta de oxigenação. Após a cirurgia, mãe e filha foram encaminhadas à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para recuperação.
Quando recebeu a notícia de que ambas haviam sobrevivido, Diogo encontrou no agradecimento religioso uma forma de expressar o que havia vivido. A promessa de caminhar até Aparecida ganhou força diante do desfecho da gestação, que ele considera uma intervenção de Nossa Senhora Aparecida.
A peregrinação foi realizada ao longo de quatro dias, em um percurso de quase 180 quilômetros. Sob sol e chuva, Diogo enfrentou dores pelo corpo, bolhas nos pés, calor, frio e calafrios. Durante a noite, chegou a dormir em postos pelo caminho.
“Teve hora em que meu corpo chegou ao limite. Eu sentava no meio-fio do asfalto para descansar. Então passavam grupos de romeiros, alguns empurrando pessoas em cadeiras de rodas, todos cantando. Aquilo me dava força para levantar e continuar”, conta.
Além do esforço físico, a caminhada proporcionou encontros com outros peregrinos e histórias de fé. Diogo afirma que a experiência mudou sua maneira de enxergar a devoção religiosa.
“Eu nunca imaginei passar por tudo isso. Se alguém me contasse, anos atrás, que faria uma caminhada dessas e viveria tudo o que vivi, talvez eu não acreditasse. Mas eu passei por isso. Conheci pessoas, ouvi histórias e vi uma fé que eu não conhecia daquela forma”, relata.
Ao chegar ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, o sentimento era de gratidão pela recuperação de Mariana e Martina e pela possibilidade de seguir a vida ao lado da esposa e das duas filhas.
“Chegar ao meu destino depois de quatro dias foi maravilhoso. Foi a maior experiência da minha vida. Peregrinar é libertador, cura a alma e restaura a fé. Hoje, nossa família reunida é o meu testemunho”, afirma Diogo, que pretende repetir a caminhada todos os anos, durante o mês de outubro.