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Renato Nadalini Aguiar: a inquietude de um artista que merece ser ouvido
Ator, bonequeiro, palhaço, diretor circense, poeta e escritor, Renato construiu uma caminhada que une teatro, circo, literatura e educação
30/10/2026 17h45
Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
Sua história artística começou em 1992, em Curitiba. Foto: Divulgação

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

Há artistas que não cabem em uma única definição. Movidos pela inquietude, transitam entre diferentes linguagens e transformam suas experiências em expressão, sensibilidade e encontro humano. Renato Nadalini Aguiar é um desses artistas cuja trajetória merece ser conhecida, reconhecida e preservada.

Ator, bonequeiro, palhaço, diretor circense, poeta e escritor, Renato construiu uma caminhada que une teatro, circo, literatura e educação. Sua história artística começou em 1992, em Curitiba, e, desde então, expandiu-se por meio de espetáculos, projetos sociais e experiências que ultrapassam os limites do palco.

Naquele mesmo ano, integrou o Grupo de Teatro Experimental Lua Nova, que conquistou o Troféu Gralha Azul pelo espetáculo O Drama de Bóris, de Paulo Afonso de Castro, dirigido por Laerte Ortega. Ao longo de sua trajetória, aprofundou conhecimentos em circo, mímica, palhaçaria e teatro físico, participando de atividades no Brasil e no exterior.

Em 2003, sua atuação ganhou novos caminhos em Wenceslau Braz, com a Companhia Casa do Palhaço e a Escola de Circo Casa do Palhaço, vinculada a um projeto social. O circo passou a representar não apenas entretenimento, mas também uma ferramenta de formação e transformação social.

Conheci Renato pouco depois de assumir a Secretaria Municipal de Cultura de Siqueira Campos. Ele foi um dos primeiros artistas a me procurar para conversar sobre cultura. Naquele encontro, ganhei um de seus livros. Talvez ele não imaginasse que aquele gesto simples contribuiria para despertar a admiração que hoje tenho por seu trabalho.

Desde então, passei a acompanhar sua trajetória com interesse e respeito, reconhecendo nele alguém que não se acomoda em uma única forma de expressão. Sua inquietude é criativa: nasce da curiosidade, da vontade de aprender e da necessidade de transformar ideias em arte.

Tive a satisfação de trazê-lo para a 4ª Semana de Arte Siqueirense, em 2026, proporcionando ao público da Casa da Cultura Neuri Camargo da Silva a oportunidade de conhecer um pouco de seu universo artístico. Seu espetáculo aborda questões ambientais, saúde e conscientização, mostrando como o teatro pode ir além do entretenimento e despertar reflexões sobre o mundo em que vivemos.

Entre seus trabalhos estão projetos como Piá Sai da Rua, contemplado pela Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras, Circo de Sombras, Assim que se Faz e Circo Kombi's — Picadeiro sobre Rodas. São iniciativas que evidenciam a importância de criar oportunidades para que a arte chegue a diferentes públicos.

Na literatura, Renato também encontrou espaço para expressar suas inquietações. Publicou Identidade, em 2022, e Perdão, Perdoei, Perdoado, em 2026. Sua produção inclui ainda A Flor, o Paletó e o Palhaço, obra de poesia infantil que permanece inédita.

Há algo particularmente bonito nesse trânsito entre o palco e a palavra escrita. O artista que trabalha com o corpo, o gesto, a mímica e o riso também encontra na poesia outra maneira de tocar as pessoas. São linguagens distintas, mas nascem de uma mesma necessidade: comunicar, provocar sentimentos e estabelecer vínculos.

A fé também ocupa um lugar em sua produção. Renato encontra na arte um caminho de evangelização, revelando como a expressão artística pode acolher diferentes crenças e visões de mundo. Afinal, a cultura se enriquece quando reconhecemos a diversidade de experiências e sentimentos que compõem a sociedade.

Tenho profunda admiração por Renato Nadalini Aguiar e acredito que sua trajetória merece ocupar um espaço cada vez maior na memória cultural paranaense. Infelizmente, nem sempre os artistas recebem, em vida, o reconhecimento proporcional à importância de seu trabalho. Muitos seguem criando, pesquisando, escrevendo e se apresentando sem alcançar a visibilidade que merecem.

É por isso que considero tão importante escrever sobre essas personalidades enquanto estão entre nós, produzindo e contribuindo para a sociedade. Seja nesta coluna da Folha Extra, seja no espaço que ocupo no Correio do Norte, procuro registrar histórias, valorizar talentos e manter viva a memória cultural do Norte Pioneiro.

Quem quiser conhecer mais sobre o trabalho de Renato pode visitar o site www.palhacosiricotico.com.br.

Falar de Renato é reafirmar meu compromisso com a cultura e com aqueles que, muitas vezes longe dos grandes holofotes, continuam criando, ensinando e transformando realidades.

Porque a história cultural de um povo não é feita somente por aqueles que alcançam as manchetes nacionais. Ela também é construída por artistas que persistem, acreditam na força de sua arte e encontram, em cada apresentação, livro ou gesto, uma maneira de tornar o mundo um pouco mais sensível.

E enquanto houver artistas como Renato Nadalini Aguiar, haverá boas razões para continuar falando de arte, alimentando a memória e mantendo viva a inquietude que nos faz humanos.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.