DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
SIQUEIRA CAMPOS - Uma lista compartilhada em grupos de WhatsApp está provocando polêmica em Siqueira Campos, no Norte Pioneiro do Paraná, após incentivar moradores a boicotar estabelecimentos comerciais supostamente ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT). A mobilização, atribuída a integrantes de um grupo de direita, ganhou repercussão após o segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25), e, segundo um advogado ouvido pela Folha, já foi denunciada ao Ministério Público do Paraná (MPPR).
A mensagem, que circula acompanhada de nomes de empresas e comerciantes, apresenta a orientação: “A partir de hoje vamos começar a boicotar os estabelecimentos petistas”.
Além dos locais apontados como ligados ao PT, as mensagens também indicariam estabelecimentos que deveriam receber a preferência dos consumidores por supostamente apoiarem o campo político de Flávio Bolsonaro (PL).
Em entrevista à Folha, o advogado Rennie Alejandro Pontes Lazo relatou que tomou conhecimento da lista após receber capturas de tela de conversas de um grupo de WhatsApp denominado "Deus Pátria e Família".
Segundo ele, a mobilização teria começado ainda durante a apuração dos votos e se intensificado após a confirmação do resultado presidencial.
Rennie afirmou que seu nome também apareceu entre os alvos do boicote. Durante a campanha, ele utilizou as redes sociais para divulgar conteúdos políticos e defender a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O advogado relatou que recebeu o convite para participar do grupo, mas preferiu não entrar. Posteriormente, passou a receber mensagens de participantes que discordavam da iniciativa.
"Eu recebi só a lista e vi meu nome nela, entre outros empresários e comerciantes. Foi quando comecei a procurar quem estava por trás disso", contou.
De acordo com Rennie, os materiais recebidos apontam Luiz Gustavo Germano, identificado como filho do atual prefeito de Siqueira Campos, Luiz Henrique Germano, como um dos responsáveis pela divulgação da lista. Outra fonte ouvida pela reportagem também confirmou a versão de Rennie, apontando Luiz Gustavo como um dos criadores da lista.
Conforme o advogado, a relação de estabelecimentos passou por atualizações e ganhou novos nomes à medida que as mensagens circulavam. Rennie também afirmou que alguns comerciantes incluídos na lista não teriam manifestado publicamente apoio a qualquer candidato, mas acabaram associados a determinado posicionamento político.
Entre os exemplos citados está um supermercado da cidade que, segundo ele, foi incluído entre os estabelecimentos a serem evitados, apesar de não ter declarado apoio político. O advogado suspeita que a iniciativa possa favorecer comercialmente empresas identificadas com o campo político oposto, mas essa hipótese ainda não foi comprovada.
Segundo Rennie, empresários mencionados nas mensagens começaram a procurá-lo para avaliar possíveis providências judiciais.
O advogado declarou ter encaminhado uma denúncia ao Ministério Público e procurado a Justiça Eleitoral para solicitar a apuração do caso. Entre as medidas pretendidas, mencionou a retirada das publicações e a possibilidade de pedidos de indenização por eventuais prejuízos sofridos pelos comerciantes.
Rennie também afirmou que pretende complementar a documentação apresentada conforme novas pessoas procurem orientação jurídica. "Conforme as pessoas estão vindo, eu vou emendar a denúncia e colocar outras pessoas denunciando", explicou.
A apresentação de uma denúncia, por si só, não significa que houve reconhecimento de irregularidade ou abertura de processo judicial. Eventuais responsabilidades dependerão da análise das autoridades competentes.
O caso também levanta discussões sobre os limites das manifestações políticas e os possíveis efeitos de campanhas de boicote sobre comerciantes e trabalhadores.
A reportagem da Folha também entrou em contato com Luiz Gustavo Germano, que negou ser o responsável pela criação da lista e afirmou estar sendo alvo de informações falsas.
“Não sou o criador. Estão usando da situação para tentar me atrapalhar politicamente”, declarou.
Questionado sobre as capturas de tela que mostram a lista sendo compartilhada em seu nome, Luiz Gustavo afirmou que não foi responsável pela divulgação original do material. Segundo ele, sua participação se limitou a atualizar uma versão já existente, incluindo o próprio nome entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL).
Em suas redes sociais, Luiz Gustavo também publicou uma nota de repúdio para esclarecer seu posicionamento e contestar as acusações.
“Estão circulando prints que colocam meu nome como CRIADOR de uma suposta lista de BOICOTE a comerciantes de esquerda. Quero deixar bem claro que essa lista não foi criada por mim. Apenas atualizei a lista, colocando meu nome entre os apoiadores de direita [...]”, afirmou na publicação.
Apesar de reconhecer que realizou uma atualização no documento, Luiz Gustavo nega ter criado ou iniciado a mobilização pelo boicote. A autoria original da lista permanece sem confirmação independente.
Genesis Machado, presidente da Associação Comercial de Siqueira Campos, afirmou que um dos comerciantes listados entre os estabelecimentos que devem ser boicotados procurou a Associação em busca de uma solução. Como presidente, ele afirmou que a Associação não se envolve em questões políticas, e que apenas defende o estatuto da entidade.
Segundo o presidente, a polêmica gira em torno estritamente da repercussão das eleições presidenciais, e não cabe à Associação uma manifestação.