Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
Há algum tempo, quando conheci Eryck Diegho, um dos grandes articuladores da cultura independente de Carlópolis, descobri também um universo de projetos, ideias e trabalhos que ele vem construindo há bastante tempo. Nossas conversas, como quase sempre acontece quando a cultura entra em pauta, percorrem muitos caminhos: literatura, música, memória, artistas, livros, projetos e essas iniciativas que, muitas vezes longe dos grandes holofotes, mantêm viva a criação cultural de uma cidade. Foi em uma dessas conversas que conheci Saturno Januário.
Eryck Diegho me apresentou algumas de suas músicas e, confesso, fiquei imediatamente encantado. Algumas chegaram até mim como praticamente tudo chega hoje: por meio de arquivos digitais. Mas havia ali alguma coisa diferente. Havia identidade, poesia, personalidade. Havia uma sonoridade própria, uma maneira particular de transformar sentimentos e experiências em música. Não demorou para que aquelas canções encontrassem espaço também no meu programa de rádio, o Cultura em Distorção, na Alternativa FM 87,9. Entre tantos sons que chegam diariamente pelas plataformas digitais, descobrir um trabalho autoral, independente e produzido tão perto de nós é sempre uma experiência especial.
Mas a história ganhou outro significado quando soube que o trabalho de Saturno Januário também chegaria ao formato físico. Sou colecionador de CDs, vinis, fitas cassete, DVDs e VHS. Minha relação com essas mídias vem da infância e talvez exista aí algo de afetivo que a tecnologia, por mais avançada que seja, não conseguiu substituir. Para mim, música nunca foi somente aquilo que sai das caixas de som. Existe também o objeto: a capa, o encarte, a fotografia, a arte gráfica, o gesto de abrir uma embalagem, colocar o disco no aparelho e acompanhar aquele pequeno ritual. O streaming tornou a música praticamente infinita, disponível em qualquer lugar e a qualquer momento. Mas, ao mesmo tempo, transformou muitas obras em arquivos que passam por nós sem necessariamente permanecer.
Por isso, fiquei particularmente feliz ao saber que Saturno teria seu trabalho materializado em livro, CD e fanzine. Estou ansioso para receber minha cópia, colocar o disco no aparelho de som, talvez ouvi-lo no carro, olhar a arte, folhear o material e reencontrar aquelas músicas que já conheço do ambiente digital sob outra perspectiva. Porque existe algo de muito simbólico quando uma criação deixa de ser apenas um arquivo e passa a ocupar um espaço físico. Ela pode ser guardada, colecionada, reencontrada anos depois em uma estante e carregar consigo uma história. Talvez seja justamente aí que a cultura independente revele uma de suas maiores forças: sua capacidade de transformar produção artística em memória.
O trabalho de Saturno estará também presente no Festival Literário do coletivo Cultura Indie, iniciativa que marca a estreia do Podcast Cultura Indie e reúne literatura, poesia, música e ilustração. A proposta parece simples, mas carrega uma dimensão importante: contar histórias que talvez não encontrassem espaço em outros lugares e registrar a trajetória de quem produz cultura em nossa região. Entre 2024 e 2026, Saturno acessou quatro editais de políticas culturais, incluindo recursos da Lei Paulo Gustavo e da Política Nacional Aldir Blanc, em projetos realizados em Carlópolis e Siqueira Campos. Mais do que números, esses recursos representam possibilidades concretas: transformar uma ideia em livro, uma poesia em publicação, uma composição em música, uma criação em disco e um sonho em projeto cultural.
E há algo ainda maior nessa iniciativa. A primeira temporada do podcast selecionou oito obras e propõe uma série de entrevistas com seus autores e autoras. São conversas pensadas para registrar não apenas aquilo que esses artistas produziram, mas também seus caminhos, experiências, pensamentos e processos de criação. É, portanto, um trabalho de salvaguarda da memória cultural. Porque uma cidade não é feita somente de seus prédios, suas ruas, seus monumentos e seus documentos oficiais. Ela também é feita pelas pessoas que escrevem, desenham, cantam, compõem, publicam, fotografam, ilustram e inventam novas maneiras de dizer aquilo que vivem.
Os artistas também são documentos vivos de um território. Seus livros, discos, poemas, fanzines e histórias pessoais ajudam a contar quem fomos e quem estamos nos tornando. Quando uma obra é registrada, publicada, gravada ou transformada em um objeto que pode ser guardado, ela passa a fazer parte de uma memória que ultrapassa o instante de sua criação. É por isso que iniciativas como a Cultura Indie possuem importância que vai muito além da realização de um festival ou do lançamento de um podcast. Elas ajudam a construir uma espécie de arquivo afetivo de uma cidade, reunindo vozes que, no futuro, poderão ajudar outras pessoas a compreender quem fomos.
Carlópolis tem mostrado que existe espaço para essa produção. E nós, aqui no Norte Pioneiro, precisamos aprender a olhar para esses movimentos com mais atenção. Não apenas como espectadores, mas como parceiros, divulgadores e participantes de uma construção cultural que pertence a todos nós. Tenho alegria em poder caminhar novamente ao lado de Eryck Diegho e de todos aqueles que acreditam que a cultura independente merece espaço, registro e continuidade.
Porque, no fundo, não estamos falando apenas de um festival, de um podcast, de um livro ou de um CD. Estamos falando de memória. Estamos falando de permanência. E existe, para mim, uma imagem que resume tudo isso. Em algum momento, vou abrir a embalagem, colocar o CD de Saturno Januário no aparelho e apertar o play. E naquele instante, uma música que nasceu aqui, entre nós, deixará de ser apenas um arquivo digital e voltará a caber nas mãos.
Talvez seja disso que também precisamos: fazer com que a nossa cultura volte a caber nas mãos, nos olhos, nos ouvidos e na memória das pessoas. Porque aquilo que conseguimos tocar, ouvir, guardar e lembrar encontra uma maneira mais resistente de permanecer. E aquilo que permanece também conta a história de quem somos.
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.