Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto a utilização dos recursos destinados à cultura nos municípios do Norte do Paraná. Primeiro pela minha atuação na gestão cultural de Siqueira Campos e, agora, também pela oportunidade de presidir a Câmara Técnica de Cultura do Norte do Paraná. Essa experiência ampliou meu contato com gestores, artistas, produtores, pesquisadores e agentes culturais de diferentes municípios.
E existe algo que me alegra particularmente nesse caminho: perceber que os recursos públicos começam a encontrar pessoas dispostas a transformar dinheiro em ideias, ideias em projetos e projetos em patrimônio.
É aí que entra o trabalho de Eryck Diegho.
Quem conhece Eryck sabe que ele é um sujeito inquieto. Está na gastronomia, na música, na produção cultural e no universo editorial por meio da Indie Editora. Talvez seja justamente essa inquietude que dê força aos seus projetos.
Recentemente, ao conhecer mais profundamente o Projeto FURUSATO, desenvolvido em Carlópolis, voltei a pensar sobre uma questão que deveria inquietar todos nós que trabalhamos com cultura: o que acontece com a história de um povo quando aqueles que a carregam começam a desaparecer?
Uma fotografia antiga perde quem poderia identificar seus personagens. Um sobrenome deixa de revelar sua origem. Uma receita deixa de ser preparada. Um documento permanece esquecido em uma gaveta. E aquilo que poderia fazer parte da trajetória de uma comunidade simplesmente desaparece.
É justamente contra esse desaparecimento silencioso que o FURUSATO se apresenta.
O projeto nasceu de uma ideia de Dona Shiguechan, integrante da comunidade japonesa de Carlópolis, que percebeu que a cidade possuía uma história que precisava ser registrada pelas próprias famílias que ajudaram a construí-la.
A Associação Cultural e Esportiva de Carlópolis, a ACECAR, abraçou a proposta, e o trabalho foi confiado a Eryck Diegho, responsável pela pesquisa, entrevistas e produção literária e audiovisual, por meio da Indie Editora.
A proposta é conhecer e registrar a trajetória das famílias japonesas de Carlópolis: de onde vieram, quando chegaram, onde se estabeleceram, quais eram seus trabalhos e costumes, como aconteceram os casamentos, quais tradições permaneceram e quais famílias participaram da formação da comunidade.
O levantamento, inicialmente pensado para cerca de 50 famílias, cresceu durante a pesquisa e já alcança aproximadamente 86.
Mas existe um detalhe fundamental: o FURUSATO não pretende simplesmente escrever sobre a comunidade japonesa. A proposta é construir esse registro com a comunidade, permitindo que seus próprios integrantes contem suas histórias.
Para isso, o projeto utiliza uma metodologia participativa organizada em oito eixos temáticos e 37 perguntas. As entrevistas serão acompanhadas do registro de fotografias e documentos pertencentes às famílias, sem que os originais precisem sair de sua guarda.
O resultado será muito mais que um livro. Estão previstas uma publicação com a história das famílias participantes, uma série documental para o YouTube e uma série de podcasts. A trajetória poderá ser preservada no papel, na fotografia, no vídeo e na voz.
E o próprio nome escolhido é significativo. FURUSATO é uma palavra japonesa relacionada à terra natal, ao lugar de origem. É mais do que geografia: envolve pertencimento, tradição e identidade.
Talvez seja especialmente simbólico que Dona Shiguechan, enquanto o projeto começava a ser construído em Carlópolis, estivesse justamente no Japão, reencontrando suas próprias raízes. Enquanto ela revisitava sua terra de origem, sua comunidade iniciava o registro da história daqueles que deixaram o Japão e fizeram de Carlópolis uma nova casa.
E aqui está a questão fundamental: o que tudo isso tem a ver com recurso público? Tudo. Precisamos superar a ideia de que investimento cultural é apenas contratar alguém para subir ao palco. Cultura também é pesquisa, publicação, profissionalização, preservação, patrimônio e registro.
Recursos como os destinados pelas políticas públicas de cultura podem financiar artistas, contratar pesquisadores, movimentar a economia criativa, produzir livros e documentários e preservar histórias que poderiam desaparecer.
O dinheiro, sozinho, não produz cultura. Ele precisa encontrar pessoas, conhecimento, compromisso e projetos. Por isso, diante de qualquer investimento cultural, deveríamos fazer uma pergunta simples: o que ficará depois que o recurso acabar?
No caso do FURUSATO, ficarão histórias, fotografias, documentos, entrevistas, vozes e um registro organizado para as próximas gerações. Talvez, daqui a algumas décadas, um jovem de Carlópolis abra esse livro, encontre o nome de seus bisavós e descubra que aquilo que parecia apenas uma lembrança familiar também fazia parte da construção de toda uma comunidade.
O Paraná é feito de encontros. Japoneses, italianos, poloneses, ucranianos, alemães, portugueses, espanhóis, árabes, povos indígenas e tantos outros ajudaram a construir o território que conhecemos. Nossa identidade não nasceu pronta. Foi construída por muitas mãos, sotaques, costumes e histórias.
O tempo apaga. A cultura registra.
Quando um recurso público encontra alguém disposto a pesquisar, escrever, fotografar e preservar, ele deixa de ser apenas um número em uma planilha. Ganha rosto, voz, pertencimento e futuro.
Talvez essa seja uma das maiores responsabilidades de quem trabalha com cultura: não perguntar apenas quanto será investido, mas qual legado queremos deixar depois que o recurso deixar de existir.
Porque administrar cultura também é decidir aquilo que uma sociedade não quer perder.
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.