Colunistas A ARTE DO TEATRO
Quando o teatro entra em cena para salvar vidas
Levaram talento, dedicação, maquiagem, caracterização, interpretação e compromisso
02/10/2026 16h14
Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

Na semana passada, recebi uma mensagem de Soyara Queiroz, da Santa Casa de Siqueira Campos, perguntando sobre a disponibilidade de alguns atores que fazem parte do nosso Grupo de Teatro Neuri Camargo da Silva. Confesso que, para mim, esse tipo de pedido é motivo de muito orgulho. Não apenas porque demonstra o reconhecimento do trabalho dos nossos artistas, mas porque revela que a cultura pode chegar a lugares onde, muitas vezes, ninguém imagina.

O Grupo de Teatro Neuri Camargo da Silva é coordenado pelo nosso diretor de Cultura, dramaturgo, ator e professor Vinícius Cardoso e é um dos projetos mais antigos da nossa gestão. Vinícius montou o grupo ainda no primeiro ano da administração e, para nossa felicidade, muitos dos alunos daquela primeira turma continuam conosco até hoje.

De lá para cá, o grupo cresceu, amadureceu e ganhou novos palcos. Participou da Mostra de Teatro da América Latina, realizada no CAT, em Jacarezinho, esteve em gravações de dublagem para o Festival das APAEs e vem circulando com espetáculos adultos e infantis. São jovens e adultos que descobriram no teatro muito mais do que uma atividade artística: encontraram uma possibilidade de expressão, formação, convivência e transformação.

Desta vez, porém, o palco foi a saúde.

Nossos atores foram convidados a participar de uma simulação de acidente com múltiplas vítimas, realizada pela Santa Casa como parte da capacitação de seus profissionais. Esse tipo de exercício reproduz, de forma planejada e segura, uma situação de emergência envolvendo várias pessoas feridas ao mesmo tempo. O objetivo é preparar as equipes para avaliar a cena, identificar prioridades, organizar o atendimento, melhorar a comunicação e fortalecer o trabalho conjunto.

E foi justamente aí que o teatro entrou em cena.

Nossos atores interpretaram as vítimas do acidente, utilizando maquiagem, caracterização e interpretação para tornar o cenário o mais próximo possível de uma situação real. Quando vi posteriormente algumas fotografias e vídeos, fiquei impressionado. Profissionais da saúde relataram a intensidade da experiência e o quanto a situação parecia verdadeira. Por alguns instantes, era possível esquecer que tudo aquilo fazia parte de uma simulação.

Isso é teatro.

É a capacidade de criar uma realidade por meio da interpretação. Mas, naquele momento, o teatro foi além de emocionar ou divertir. Tornou-se uma ferramenta de aprendizado.

A atividade contou também com a participação da Help 2 Treinamento, empresa de Marília que há cerca de seis meses realiza treinamentos e educação continuada para os funcionários da Santa Casa. Também participaram o SAMU, o Corpo de Bombeiros, profissionais da instituição e representantes das Secretarias Municipais de Saúde e de Cultura. Técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos puderam colocar em prática conhecimentos, procedimentos, comunicação e trabalho em equipe.

Treinar também é uma forma de cuidar.

É preparar as equipes para responder melhor quando muitas pessoas precisarem de ajuda ao mesmo tempo. É fortalecer a confiança entre os profissionais e aperfeiçoar a resposta conjunta para que, em uma emergência real, cada minuto e cada ação possam fazer diferença.

Mas houve outro detalhe que me deixou especialmente feliz: nossos artistas receberam cachê. Faço questão de destacar isso porque estamos falando também de profissionalização. Tenho certeza de que muitos deles fariam esse trabalho mesmo sem remuneração, pelo amor ao teatro e pela vontade de contribuir. Mas artista trabalha. Artista estuda, ensaia, se prepara e também precisa ser remunerado.

Quando um artista recebe pelo seu trabalho, esse dinheiro circula. Vai para o comércio, para os serviços e para as necessidades desses próprios artistas. É a economia criativa acontecendo dentro do nosso município.

Nesse caso, a saúde contratou artistas, os artistas contribuíram com a saúde e todos contribuíram, de alguma maneira, para movimentar a economia local. É uma demonstração de que a cultura não é um setor isolado. Ela conversa com a educação, com a saúde, com o turismo, com a assistência social, com o esporte e com a economia.

Também foi muito especial assistir à entrevista realizada por Claret Coutinho, na qual nosso professor e diretor de Cultura, Vinícius Cardoso, falou sobre o trabalho realizado. Como secretário de Cultura, mas também como alguém que trabalha com arte há muitas décadas, senti aquele orgulho silencioso de quem olha para uma semente plantada alguns anos atrás e percebe que ela está crescendo.

O Grupo de Teatro Neuri Camargo da Silva é uma dessas sementes.

Alguns dos jovens que participaram dessa experiência são os mesmos que estavam conosco quando o grupo começou. Alguns hoje estão no Instituto Federal, seguindo sua formação acadêmica, mas continuam ligados ao teatro e à cultura.

E lá foram eles.

Levaram talento, dedicação, maquiagem, caracterização, interpretação e compromisso.

É por isso que sempre digo que a Secretaria Municipal de Cultura precisa estar onde puder contribuir. Se pudermos plantar uma semente em uma escola, plantaremos. Se pudermos plantar uma semente em uma praça, plantaremos. Se pudermos plantar uma semente dentro de um hospital, também plantaremos.

Porque cultura não tem lugar específico para acontecer.

Cultura acontece onde existe gente.

E quando a cultura entra em cena, todo mundo pode aprender alguma coisa.

Desta vez, o teatro entrou em cena para ensinar. E também para nos lembrar que toda arte que transforma é, de alguma maneira, uma forma de cuidar.

A cultura vive.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.