Cidades 203 ANOS
Bombardeada, transformada e reinventada: Jaguariaíva, a cidade que atravessou dois séculos
Dos caminhos tropeiros aos trilhos e à industrialização, município que completa 203 anos nesta terça-feira (15) carrega um passado marcado por guerras, mudanças econômicas e transformações em seu espaço urbano
15/09/2026 09h45
Por: DAVI MARTINS Fonte: DA REDAÇÃO
Vista aérea de Jaguariaíva e condomínio Matarazzo. Foto: Reprodução/Página Um News

DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA

JAGUARIAÍVA - Bombardeada por aviões durante a Revolução de 1930, transformada pelos trilhos e praticamente reinventada ao longo das décadas, Jaguariaíva chega aos 203 anos nesta terça-feira (15). A cidade que hoje se conhece é resultado de sucessivas mudanças de rumo. Nasceu ligada ao tropeirismo, viu a ferrovia deslocar o eixo urbano, tornou-se ponto estratégico de um conflito nacional, atravessou diferentes ciclos industriais e enfrentou períodos em que precisou encontrar novos caminhos para voltar a crescer.

A história que dá origem à cidade movida pela indústria madeireira hoje começou no século XIX. Lembrada até hoje por moradores mais antigos, Jaguariaíva era uma Fazenda na época, e tornou-se ponto de pouso e circulação de comerciantes e tropeiros. Não muito depois, a Fazenda Jaguariaíva foi elevada à Freguesia do Senhor Bom Jesus da Pedra Fria em 1823, e é a partir dessa data que parte a contagem dos 203 anos celebrados nesta terça-feira.

No entanto, segundo a narrativa “Jaguariaíva Duzentos Anos – Histórias e Memórias”, escrita pelo historiador jaguariaivense Rafael Pomim, uma das maiores transformações de Jaguariaíva, senão a maior, ainda estava por vir.

Em outubro de 1905, começou a operar o trecho ferroviário entre Piraí do Sul e Jaguariaíva. Naquele momento, quase todas as residências e estabelecimentos comerciais estavam concentrados na parte mais elevada do município, a Cidade Alta. Mas a estação mudou essa lógica. Casas, hotéis, bares, restaurantes e lojas começaram a ocupar a região mais baixa. Não era apenas um novo meio de transporte, a ferrovia estava praticamente criando uma nova cidade dentro de Jaguariaíva, a Cidade Baixa.

A transformação fez com que o município se tornasse um importante entroncamento ferroviário, com geração de empregos e economia. Por outro lado, a mudança também criou duas identidades urbanas. De um lado, a Cidade Alta, ligada a símbolos tradicionais como o Santuário, a Prefeitura e o Fórum. Do outro, a Cidade Baixa, impulsionada pela estação, pelo comércio, pelo Cine Avenida e pela atividade industrial. Até os espaços de convivência e os clubes refletiam diferenças entre os grupos que ocupavam cada região.

Vista da área central da Cidade Baixa. Década de 1940. Foto: Divulgação

Décadas depois, esses mesmos trilhos que trouxeram uma vida nova, foram os responsáveis por colocar Jaguariaíva no caminho de um dos episódios mais turbulentos da história brasileira. Durante a Revolução de 1930, Jaguariaíva ganhou importância estratégia por sua localização e pela estrutura ferroviária. Ela foi base para a criação de um Quartel-General das tropas do Sul, construído para receber feridos dos confrontos.

Os registros de Rafael Pomim relatam bombas que foram lançadas nas proximidades da estação, do antigo Grupo Escolar Izabel Branco e do matadouro municipal. Por cerca de duas semanas, entre os dias 9 e 23 de outubro, a cidade foi bombardeada por aviões paulistas – salvo dias de chuva.

Enquanto os ataques aconteciam, moradores assumiam outro papel. A Cruz Vermelha organizou dois hospitais na cidade e mais de 100 feridos foram atendidos antes de serem transferidos para Ponta Grossa. Parte expressiva do atendimento contou com voluntários, inclusive mulheres da comunidade.

Mas esse passado turbulento foi deixado com o crescimento da industrialização. O crescimento da atividade ferroviária, do comércio e de empreendimentos como o Frigorífico Matarazzo, da renomada família Matarazzo, tornou insuficiente a primeira estação, uma pequena construção de madeira, e fez com que uma nova estação fosse inaugurada em 1936.

Armazém do Frigorífico Matarazzo. Década de 1920. Foto: Divulgação

Até aí, tudo perfeito, o crescimento ia “de vento em popa”, mas a história de Jaguariaíva ainda reservaria outras mudanças. Se os trilhos haviam sido responsáveis por redesenhar a cidade nas primeiras décadas do século XX, a indústria passaria a ocupar papel cada vez mais importante na economia local. A exploração e o beneficiamento da madeira ganharam força e ajudaram a construir uma característica que permanece ligada ao município até os dias atuais.

Ao longo das décadas, serrarias e empresas do setor florestal passaram a fazer parte da paisagem e da rotina dos jaguariaivenses. A disponibilidade de matéria-prima, somada à posição geográfica e à estrutura de transporte, criou condições para que Jaguariaíva consolidasse sua vocação industrial. Era mais uma transformação: a cidade que havia crescido ao redor da ferrovia passava a depender também das fábricas, que geravam empregos, movimentavam o comércio e atraíam trabalhadores.

Nem todos os ciclos, porém, duraram para sempre. A ferrovia perdeu gradativamente o protagonismo que havia exercido durante boa parte do século XX. Estabelecimentos fecharam, atividades econômicas mudaram e espaços que antes concentravam grande movimentação passaram a carregar principalmente as lembranças de outra época.

O impacto foi especialmente simbólico para a Cidade Baixa. A região que nasceu e cresceu impulsionada pelos trens precisou se adaptar a uma realidade em que a estação já não determinava o ritmo cotidiano como antes. Jaguariaíva, mais uma vez, precisava se reinventar. E fez isso voltando-se ainda mais para a indústria.

A atividade madeireira e florestal ganhou novas dimensões e grandes empreendimentos passaram a integrar a economia do município. O perfil econômico mudou, mas uma característica permaneceu: Jaguariaíva continuou utilizando sua localização como vantagem. Situada em uma região de ligação entre diferentes áreas do Paraná e próxima ao estado de São Paulo, a cidade encontrou nos novos investimentos uma forma de atravessar mais uma mudança de ciclo.

Talvez seja justamente essa sucessão de rupturas que ajude a explicar Jaguariaíva aos 203 anos. Poucas cidades podem apontar para o próprio território e encontrar marcas tão evidentes de diferentes momentos da história. A Cidade Alta ainda guarda parte do núcleo que existia antes dos trilhos. A Cidade Baixa é resultado direto da chegada da ferrovia. Prédios, ruas e construções preservam fragmentos do período industrial, enquanto estruturas ferroviárias lembram uma época em que o apito das locomotivas ajudava a determinar o movimento da cidade.

O que hoje parece simplesmente parte da paisagem é, na verdade, consequência de decisões e acontecimentos acumulados durante mais de dois séculos.

Jaguariaíva chegou a ser fazenda e parada de tropeiros. Tornou-se freguesia. Recebeu a ferrovia e viu surgir praticamente um segundo núcleo urbano. Foi entroncamento ferroviário, recebeu soldados e feridos e teve seu território bombardeado durante uma revolução. Viveu o auge dos trens, atravessou sua decadência e fortaleceu uma nova identidade industrial.

Nesta terça-feira, quando completa 203 anos, o aniversário conta muito mais do que o tempo transcorrido desde 1823. Conta a história de uma cidade que, sempre que o caminho diante dela mudou, também mudou junto.

Os tropeiros deram lugar aos trens. Os trens perderam espaço para as rodovias. Velhos ciclos econômicos foram substituídos por novos. E Jaguariaíva permaneceu.