Há dias em que um objeto antigo resolve nos dizer alguma coisa. Não é preciso que ele fale. Basta estar ali.
Hoje, 1º de setembro de 2026, caminhava pela Galeria dos Expedicionários, em Siqueira Campos, entre fotografias, documentos, medalhas, uniformes e tantos outros vestígios daqueles homens que um dia deixaram esta terra para atravessar o oceano e conhecer, de perto, uma das maiores tragédias produzidas pela humanidade. Foi quando encontrei um jornal. Um exemplar de O Estado de S. Paulo, de 1º de setembro de 1989.
Naquele dia, o mundo lembrava os 50 anos do início da Segunda Guerra Mundial. Hoje, 37 anos depois, eu estava diante daquela mesma página, exatamente no mesmo dia do calendário. Era como se o tempo tivesse feito uma curva. O jornal, envelhecido pelo tempo, permanecia ali. E fiquei pensando que talvez a função de um museu seja justamente essa: impedir que o passado morra duas vezes. Primeiro, quando os acontecimentos terminam. Depois, quando deixamos de lembrá-los.
Naquele 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadia a Polônia. Começava uma guerra que deixaria milhões de mortos, cidades destruídas, famílias separadas, países devastados e uma ferida que, passadas décadas, ainda não cicatrizou completamente. Em 1989, aquele jornal recuperava a memória da guerra para tentar compreender também o que ela havia provocado no Brasil. Entre as histórias estava a do coronel-aviador Rui Moreira Lima, veterano da Força Expedicionária Brasileira. Ele lembrava as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros na Itália: o despreparo inicial, as armas obsoletas, o treinamento improvisado e as diferenças culturais com os americanos.
Mas havia algo ainda maior naquela memória. A guerra não terminava para aqueles homens quando voltavam para casa. Eles haviam enfrentado o fascismo na Europa e retornavam ao Brasil carregando outra compreensão sobre democracia, liberdade e legalidade. O front italiano havia transformado aqueles jovens. E talvez seja justamente aí que a história deixe de ser apenas história.
Porque entre os homens que foram para a Itália havia também gente de Siqueira Campos. Homens que saíram daqui. Homens que deixaram famílias, trabalhos, casas e vidas para atravessar um oceano e combater numa guerra que, aparentemente, acontecia muito longe. Mas nenhuma guerra é realmente longe.
Eu sei disso por uma razão muito particular. Meu avô, Arvids Bredis, nasceu em Riga, na Letônia. Também viveu a Segunda Guerra Mundial. Também conheceu o deslocamento provocado pela guerra. Também precisou fugir. Talvez por isso, quando entro numa galeria como essa e encontro objetos que pertenceram a homens que estiveram naquele conflito, eu não consiga enxergá-los apenas como peças de museu. Existe alguma coisa de familiar naquela memória. Uma espécie de parentesco involuntário entre quem sobreviveu e quem nasceu depois. A guerra atravessou meu avô. E, de alguma maneira, atravessou também a minha história.
Talvez seja por isso que eu olhe para aqueles objetos com uma mistura de respeito e silêncio. Ali está uma medalha. Aqui, uma fotografia. Mais adiante, um documento. E, numa vitrine, um jornal de 1989 falando sobre uma guerra que havia começado cinquenta anos antes.
Hoje, porém, já não são cinquenta anos. São 87 anos desde aquele 1º de setembro de 1939. E o que mais assusta é perceber que continuamos precisando falar sobre guerras. Continuamos assistindo a conflitos no Oriente Médio. Continuamos acompanhando a guerra entre Rússia e Ucrânia. Continuamos vendo crianças crescerem entre ruínas, famílias abandonarem suas casas e homens serem enviados para matar outros homens que, muitas vezes, sequer conhecem.
E então me pergunto: o que foi que nós aprendemos? Ou, pior ainda, será que aprendemos alguma coisa?
Talvez a resposta esteja justamente naquele jornal. Em 1989, quando o mundo completava meio século do início da Segunda Guerra, alguém ainda precisava escrever sobre ela para que não fosse esquecida. Em 2026, nós continuamos precisando lembrar. Porque esquecer uma guerra não é apenas esquecer os mortos. É esquecer por que eles morreram. É esquecer o que o ódio, o autoritarismo, a intolerância e a disputa pelo poder são capazes de produzir. É esquecer que a democracia, tão banalizada quando existe, pode se tornar preciosa quando desaparece.
Na matéria daquele jornal, Rui Moreira Lima dizia algo que atravessou as décadas: “Eu detestava Getúlio, mas detestava ainda mais a ilegalidade.” Talvez essa frase seja maior do que o próprio contexto em que foi dita. Porque, depois de conhecer uma guerra e ver de perto aquilo que a violência política pode produzir, talvez ele tenha compreendido que nenhuma preferência pessoal pode estar acima da legalidade, da liberdade e da democracia. E isso continua atual. Muito atual.
Aqui em Siqueira Campos, felizmente, ainda temos alguém que pode nos contar parte dessa história olhando nos nossos olhos. Jovino Francisco Real, o nosso querido Jovino Coruja. Aos 105 anos, ele não é simplesmente um personagem de livro. É uma testemunha viva. Um pedaço da história respirando entre nós. Enquanto ele estiver aqui, enquanto puder contar, enquanto pudermos ouvir, teremos diante de nós algo que nenhum arquivo consegue substituir completamente: a memória humana.
Talvez seja essa a verdadeira riqueza da Galeria dos Expedicionários. Não são apenas objetos antigos. São testemunhos. Fragmentos de vidas. Pequenas portas abertas para um tempo que não podemos permitir que desapareça.
Hoje, ao olhar aquele jornal de 1º de setembro de 1989, pensei no jornal, nos expedicionários, em Jovino Coruja, nos brasileiros que atravessaram o Atlântico e, inevitavelmente, pensei no meu avô Arvidis. Pensei em Riga. Pensei na guerra. Pensei em quantas famílias tiveram suas histórias alteradas por uma decisão tomada muito longe de suas casas. E pensei que, 87 anos depois, talvez a humanidade ainda esteja devendo uma resposta para aqueles homens.
A resposta deveria ser simples: nunca mais.
Mas, para que o “nunca mais” seja mais do que uma frase bonita, precisamos lembrar. Precisamos visitar nossas galerias. Precisamos ouvir nossos idosos. Precisamos preservar fotografias, jornais, cartas, medalhas e documentos. Precisamos contar às crianças quem foram aqueles homens. Precisamos falar sobre as guerras sem transformá-las em espetáculo. E precisamos compreender que memória não é viver preso ao passado. Memória é uma forma de impedir que o passado volte.
Aquele jornal envelheceu. As páginas amarelaram. As fotografias perderam um pouco da nitidez. Muitos dos homens que aparecem nas histórias já partiram. Mas a pergunta continua intacta.
Hoje é 1º de setembro de 2026. Há 87 anos começava a Segunda Guerra Mundial. Há 37 anos, um jornal lembrava seus 50 anos. E hoje, dentro de uma galeria em Siqueira Campos, um velho exemplar de jornal me fez lembrar que algumas histórias não envelhecem.
Porque, enquanto houver guerra, ainda precisaremos falar de paz. Enquanto houver autoritarismo, precisaremos falar de democracia. Enquanto houver esquecimento, precisaremos falar de memória. E enquanto houver alguém como Jovino Coruja entre nós, teremos o privilégio, e a responsabilidade, de escutar.
Talvez seja essa a razão pela qual aquele jornal ainda esteja ali. Não apenas para contar o que aconteceu. Mas para nos perguntar o que estamos fazendo para que não aconteça outra vez.
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.