Colunistas TRISTE PARTIDA
Dolly e os discos que ficam
Hoje, 25/08/2026, terça-feira fria, recebi uma notícia que me atingiu de um jeito muito particular: Dolly Parton morreu, aos 80 anos.
28/08/2026 14h53
Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

 

Desde que soube, fiquei pensando em como algumas pessoas entram na nossa vida sem pedir licença. Às vezes chegam pela televisão, por um disco, por uma voz que ouvimos ainda crianças, quando sequer sabemos explicar o que é música, memória ou arte. E, quando percebemos, aquela pessoa já está misturada às nossas lembranças.

Dolly entrou na minha vida muito cedo.

Meu pai ouvia muita música country. Eu era menino e cresci cercado por aquelas vozes, aquelas histórias, aquelas guitarras. Também assistia aos filmes. E Dolly Parton estava ali, de alguma maneira, fazendo parte daquele universo que eu ainda começava a descobrir.

Talvez venha daí também uma das minhas grandes paixões: os discos, os filmes, os VHS, os DVDs. Essas coisas que, para alguns, são apenas objetos antigos, mas que para mim carregam histórias.

Tenho alguns LPs de Dolly na minha coleção. E, curiosamente, há poucas semanas coloquei para tocar My Tennessee Mountain Home, um dos seus trabalhos que mais me emocionam. Um disco autobiográfico, uma espécie de fotografia sonora de sua infância. Na capa, a casa onde nasceu e viveu.

Fiquei olhando para aquela imagem e pensando em como o tempo é uma coisa estranha. Aquela menina que nasceu em uma família pobre, numa pequena comunidade do Tennessee, cresceu e transformou a própria história em música. Tornou-se compositora, cantora, atriz, empresária, produtora. Construiu uma carreira gigantesca e ultrapassou as fronteiras do country para se tornar uma dessas figuras que pertencem não apenas à música, mas à cultura popular.

Dolly era maior do que seus discos e talvez seja justamente isso que mais doa quando alguém assim parte. Os grandes estão indo.

Uma geração inteira de artistas que ajudou a construir o mundo cultural que conhecemos começa a desaparecer. Alguns ainda estão entre nós, produzindo, criando, subindo aos palcos. Outros já se foram. E tantos chegaram a uma idade em que começamos a compreender, talvez com um pouco mais de tristeza, que essas presenças não estarão conosco para sempre.

Como artista, escritor e produtor cultural, isso mexe profundamente comigo, por que não estamos apenas perdendo pessoas... estamos perdendo referências, e uma referência não se substitui.

Um disco pode continuar tocando. Um filme pode continuar sendo assistido. Um livro pode continuar sendo lido. Uma fotografia pode permanecer durante décadas guardada numa gaveta. Mas a pessoa que criou tudo aquilo, com sua voz, seu corpo, sua inteligência e sua maneira absolutamente particular de enxergar o mundo, é insubstituível.

É aí que penso também no nosso tempo.

Vivemos uma época em que uma geração inteira de grandes artistas está partindo enquanto, paradoxalmente, parece existir cada vez menos disposição para conhecer, estudar e preservar aquilo que essas pessoas construíram.

Tudo passa rápido demais.

Uma música vira alguns segundos de vídeo. Uma carreira de décadas se transforma em uma fotografia nas redes sociais. Um artista que dedicou a vida à sua obra passa a ser lembrado por uma única canção.

Talvez por isso eu tenha sentido tanto a morte de Dolly.... por que ela não era apenas uma cantora que eu admirava, ela faz parte da minha memória. Quando penso nela, penso no meu pai. Penso na infância. Penso nos primeiros contatos com o country. Penso nos discos. Penso na minha coleção. Penso naquela casa do Tennessee estampada na capa de My Tennessee Mountain Home, e é curioso como um disco pode guardar tanta coisa.

Dolly partiu.

Mas aqui em casa ela continua.

Está nos meus LPs, nas minhas lembranças, naqueles filmes, nas canções que atravessaram décadas e chegaram até mim quando eu ainda era menino. Talvez essa seja uma das maiores vitórias que um artista pode alcançar sobre o tempo.

Amanhã, ou qualquer outro dia, vou tirar um de seus discos da estante, vou colocá-lo no aparelho e a agulha vai encontrar o sulco, a música vai começar, e por alguns minutos, Dolly Parton estará novamente viva na minha sala. E talvez seja isso que a arte tenha de mais bonito. Alguns artistas morrem, mas a arte, quando é verdadeira, encontra maneiras de continuar respirando.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.