Opinião FUGA ELEITORAL
Candidatos Nutella: querem o voto, mas fogem do debate
Candidato que só funciona protegido por roteiro, câmera amiga, edição e algoritmo talvez esteja preparado para ser influenciador.
24/08/2026 16h25
Por: Da Redação Fonte: POR OLIVEIRA JUNIOR
Foto: Divulgação Band TV

Por Oliveira Júnior

Estamos criando no Brasil uma geração de candidatos Nutella: políticos que querem o voto, querem o poder, querem o mandato, querem governar milhões de pessoas, mas não querem ser contrariados. Querem campanha com roteiro, iluminação perfeita, vídeo editado, pergunta confortável e marqueteiro ao lado. Quando chega a hora do debate de verdade, desaparecem.

Foi exatamente o que vimos neste domingo, 23 de agosto, no debate presidencial da Band. Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema foram convidados e não compareceram. Metade dos presidenciáveis convidados deixou o púlpito vazio.

E isso precisa deixar de ser tratado como uma simples “estratégia de campanha”.

Faltar a um debate é faltar com o eleitor. Não é a Band que fica esperando. Não é o apresentador. Não é o jornalista. É o cidadão brasileiro que gostaria de colocar dois projetos frente a frente e descobrir quem tem preparo para governar o país.

O candidato que pretende administrar uma nação não pode querer responder somente aquilo que sua equipe de marketing permite. É muito fácil fazer política dentro do Instagram. Grava, erra, grava novamente. Corta, edita, escolhe a música, coloca legenda, impulsiona. Se a pergunta incomodar, simplesmente não publica.

Debate sério é indispensável. Quero ouvir o candidato explicar como pretende melhorar a saúde e ouvir outro candidato questionar os números. Quero saber sua proposta econômica e vê-la contestada. Quero ouvir sobre segurança, emprego, educação e infraestrutura. Quero descobrir se existe conteúdo por trás do slogan.

A democracia não tem botão de editar. Presidente enfrenta crise econômica, Congresso, governadores, empresários, movimentos sociais, imprensa, oposição, tragédias, cobranças e situações absolutamente imprevisíveis. Então chega a ser contraditório alguém pedir autorização para governar mais de 200 milhões de brasileiros e considerar arriscado demais passar algumas horas diante de adversários e jornalistas.

Debate eleitoral também não precisa ser baixaria. O modelo da gritaria, da ofensa e do espetáculo barato precisa morrer. Mas uma coisa é rejeitar o circo; outra completamente diferente é fugir do contraditório.

Debate sério é indispensável. Quero ouvir o candidato explicar como pretende melhorar a saúde e ouvir outro candidato questionar os números. Quero saber sua proposta econômica e vê-la contestada. Quero ouvir sobre segurança, emprego, educação e infraestrutura. Quero descobrir se existe conteúdo por trás do slogan.

No debate, a maquiagem política começa a cair. Ali existe algo que o algoritmo não consegue controlar completamente: o outro lado. E talvez seja exatamente por isso que tantos estejam fugindo.

Porque campanha eleitoral virou uma gigantesca fábrica de personagens. Equipes milionárias de marketing conseguem controlar praticamente tudo: roupa, cenário, enquadramento, frase, música, público, corte do vídeo e até o momento em que determinada postagem será publicada. O candidato que chega até nós pelas redes sociais muitas vezes é um produto acabado.

No debate, a maquiagem política começa a cair. Ali existe algo que o algoritmo não consegue controlar completamente: o outro lado. E talvez seja exatamente por isso que tantos estejam fugindo.

O pior é que essa moda está se espalhando. Hoje falta-se a um debate. Amanhã falta-se a uma sabatina. Depois, concede-se entrevista apenas para jornalista simpático. Em seguida, o candidato passa a falar exclusivamente pelas próprias redes.

Quando percebermos, não estaremos mais escolhendo candidatos. Os algoritmos estarão escolhendo por nós.

Eles decidirão qual discurso aparecerá no celular, qual vídeo viralizará, qual candidato veremos cinquenta vezes durante uma semana e qual praticamente desaparecerá da nossa tela. A eleição poderá deixar progressivamente de ser um confronto público de projetos para virar uma disputa entre máquinas de marketing digital.

É por isso que considero que chegou a hora de o Congresso Nacional discutir seriamente uma mudança na legislação eleitoral. Debates oficiais, obedecendo critérios objetivos, razoáveis e previamente definidos, deveriam contar com algum mecanismo legal de participação obrigatória para candidatos a cargos majoritários que preencham determinados requisitos.

A forma jurídica precisa evidentemente ser debatida, amadurecida e compatibilizada com a Constituição. Mas o assunto precisa entrar na pauta.

Não podemos simplesmente aceitar que um candidato receba recursos públicos, utilize horário eleitoral, peça votos durante meses, pretenda comandar um Estado ou um país e possa, ao mesmo tempo, selecionar apenas os ambientes nos quais deseja ser confrontado.

Quer ser presidente? Apareça.
Quer ser governador? Apareça.
Quer ser prefeito? Apareça.

Quem quer o bônus de exercer o poder precisa aceitar o ônus de explicar como pretende exercê-lo. E essa cobrança não pode depender de paixão política. Se Lula faltar, Lula deve ser criticado, se Flávio Bolsonaro faltar, Flávio deve ser criticado, se Zema faltar, Zema deve ser criticado. Se amanhã faltar um candidato que eu admiro, ele também deverá ser criticado. Democracia não pode ter candidato de estimação.

Há ainda um desrespeito enorme com quem trabalha para produzir esses encontros. Jornalistas passam dias estudando. Produtores organizam regras. Técnicos montam cenários. Operadores cuidam de áudio e iluminação. Seguranças, motoristas, cinegrafistas, produtores, equipes de limpeza e profissionais de apoio trabalham para que algumas horas de debate cheguem à casa do eleitor.

Mas, acima de todos eles, está justamente quem mais importa: o cidadão. É ele quem foi desprezado quando o púlpito ficou vazio. Por isso precisamos parar de romantizar ausência como estratégia inteligente.

Às vezes, aquilo que o marqueteiro chama de estratégia eu prefiro chamar pelo nome: fuga. Fuga da pergunta difícil, fuga do adversário, fuga do improviso, fuga do contraditório, e, principalmente, fuga do eleitor.

Candidato que só funciona protegido por roteiro, câmera amiga, edição e algoritmo talvez esteja preparado para ser influenciador.

O Brasil não precisa de candidatos Nutella. Precisa de candidatos capazes de sentar diante do eleitor, encarar perguntas difíceis e sustentar aquilo que prometem sem filtro, sem edição e sem esconderijo.

Porque se continuarmos aceitando políticos que escolhem quando, onde e diante de quem querem prestar contas, chegará o dia em que a democracia será apenas o cenário. E quem realmente escolherá nossos candidatos será o algoritmo.