Colunistas NOVA COMPOSIÇÃO
Carroceiro Fantasma
Quando o agreste encontra o infinito
14/08/2026 10h13
Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

 

Esta semana recebi uma missão encantadora de um artista por quem nutro profunda admiração: Nóis'Y Vendel. Tive o privilégio de ouvir, em primeira mão, duas de suas novas composições. Falarei de cada uma separadamente, antes de reunir as impressões num olhar mais amplo sobre sua obra.

A primeira delas, "Carroceiro Fantasma", com seus três minutos e trinta e um segundos, não parece uma canção dividida em partes. Ela acontece como um ato contínuo, um fluxo que manipula espaço e tempo, onde física e arte parecem caminhar lado a lado, dissolvendo fronteiras entre o real e o imaginário.

A interpretação vocal foi o primeiro elemento a me capturar. Não se trata apenas de um canto; soa como uma prece antiga, uma ladainha de velório nordestino. Há uma espiritualidade árida em cada sílaba. É possível quase ouvir o som da seca, sentir a boca arenosa da terra rachada, perceber o vento dialogando com a zabumba. O triângulo, por sua vez, remete imediatamente aos sinos do gado cruzando a caatinga em busca de pasto, enquanto os graves distorcidos constroem um horizonte de tensão e mistério.

É uma das raras ocasiões em que não sinto falta de nenhum outro instrumento. O contrabaixo e a percussão bastam. São suficientes porque servem integralmente à estética proposta por Nóis'Y Vendel. Existe ali um trabalho refinado de cordas e ritmos, em que cada silêncio possui tanto significado quanto cada nota executada.

Outro aspecto fascinante é a presença de um coro que imediatamente me transportou ao teatro da Grécia Antiga. Mas não um coro clássico: um “coro grego agreste”, impregnado de poeira, religiosidade popular e misticismo sertanejo. Como nas antigas tragédias, ele comenta, amplia e conduz a narrativa.

Talvez seja justamente essa espiritualidade que faz a música pulsar. Se a África é o berço da humanidade, o Nordeste é, em muitos sentidos, o berço simbólico do Brasil. Nóis'Y Vendel parece compreender profundamente essa herança, transformando religiosidade, folclore e imaginário popular em linguagem artística contemporânea.

Não me surpreende encontrar ecos do misticismo de Zé Ramalho atravessando a composição, ainda que envoltos por uma atmosfera sombria que, em alguns momentos, me remete ao universo do The Sister of Mercy. São referências que não competem entre si; convivem naturalmente, criando uma identidade absolutamente própria.

O encerramento da música talvez seja seu momento mais surpreendente. A estrutura lembra o breakdown do metal extremo, mas é como se esse peso fosse escrito por João Cabral de Melo Neto: brutal, seco, preciso, econômico e profundamente poético.

Mais uma vez, Nóis'Y Vendel demonstra uma capacidade artística impressionante. Seu talento vai muito além da música; ele constrói atmosferas, personagens e universos inteiros. Feliz de quem pode acompanhá-lo de perto, ouvir suas composições e assistir às suas performances ao vivo.

Tenho a convicção de que, com estrutura, incentivo e pessoas dispostas a acreditar em sua arte, Nóis'Y Vendel pode alcançar uma dimensão extraordinária. Guardadas todas as proporções, enxergo nele um King Diamond nordestino. Não falo da potência vocal, mas da capacidade teatral, dramática e da rara habilidade de transformar cada apresentação em uma experiência artística completa.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.