Redação - Folha Extra
PARANÁ - Em uma manhã de janeiro de 2010, uma ocorrência registrada na zona rural de Enéas Marques, no Sudoeste do Paraná, deu início a uma investigação que se transformaria em um dos casos criminais mais marcantes da história recente do estado. O que inicialmente parecia ser uma tragédia provocada por um incêndio revelou uma sequência de assassinatos, anos de fuga em meio à mata e uma história que mobilizou policiais, moradores e autoridades da região. O protagonista dessa história foi o agricultor Gilmar Reolon, que foi de vítima a autor dos crimes em um dos maiores Plot Twist de todos os tempos.
No dia 7 de janeiro daquele ano, equipes do Corpo de Bombeiros foram acionadas para atender uma ocorrência de incêndio em uma residência localizada na área rural do município. Quando as chamas foram controladas, o cenário encontrado era devastador. Entre os escombros estavam os corpos carbonizados de Petronília Maria Casanova, de 84 anos, de sua filha Gema Casanova Reolon, de 45 anos, e dos netos Gisele Reolon, de 14 anos, e Jean Lucas Reolon, de apenas oito anos.
A princípio, uma pergunta chamou a atenção dos investigadores. Gilmar Reolon, marido de Gema, genro de Petronília e pai das duas crianças, não estava entre as vítimas. Nos primeiros momentos da investigação, existia a possibilidade de que ele também tivesse morrido no incêndio. No entanto, à medida que as buscas avançavam, nenhuma evidência indicava que seu corpo estivesse no local. O desaparecimento passou a intrigar a polícia.
As investigações revelaram que Gilmar enfrentava dificuldades financeiras e acumulava dívidas. Outro fato chamou a atenção dos policiais. Meses antes, o pai dele havia sido assassinado em um caso tratado inicialmente como latrocínio. A análise conjunta das duas ocorrências fez com que os investigadores passassem a considerar uma possível ligação entre elas. Aos poucos, Gilmar deixou de ser tratado como uma possível vítima para se tornar o principal suspeito.
Enquanto a polícia buscava respostas para o incêndio que matou quatro integrantes da mesma família, outro crime abalou a região. Em fevereiro de 2010, a adolescente Indiamara, de 13 anos, foi encontrada morta dentro de casa. A família havia saído para realizar uma mudança e, ao retornar, encontrou a jovem assassinada com golpes de facão na cabeça.
As suspeitas recaíram sobre Jesus Pereira dos Santos, tio da adolescente. Ele foi chamado para prestar depoimento e acabou preso durante as investigações. Apesar de ter sido posteriormente libertado, carregou por anos o peso da acusação e a desconfiança de parte da comunidade, que acreditava em seu envolvimento no crime.
Enquanto isso, Gilmar Reolon permanecia desaparecido. Com o passar dos meses, moradores da zona rural passaram a relatar situações incomuns. Animais apareciam abatidos em propriedades rurais e, em muitos casos, apenas uma pequena quantidade de carne era retirada. O restante das carcaças permanecia abandonado no local. O padrão chamou a atenção de agricultores e investigadores.
Foi então que surgiu uma pista considerada decisiva. Idemar Reolon, irmão de Gilmar, observou que a forma como os animais eram carneados apresentava uma característica específica. Segundo ele, o procedimento havia sido ensinado pelo pai aos filhos ainda na infância. Havia, porém, um detalhe peculiar: Gilmar executava o trabalho de maneira diferente e cometia sempre o mesmo erro. As marcas encontradas nos animais coincidiam exatamente com essa característica.
A descoberta reforçou a suspeita de que Gilmar estava sobrevivendo escondido em áreas de mata da região. A polícia intensificou as buscas e montou uma força-tarefa para localizá-lo. Mesmo assim, os anos passaram sem que ele fosse encontrado.
O desfecho aconteceu após aproximadamente três anos de procura. O próprio Idemar acabou encontrando o irmão. A captura encerrou uma das buscas mais longas já registradas na região e permitiu que os investigadores finalmente obtivessem respostas para uma série de crimes que permaneciam sem solução.
Após ser preso, Gilmar confessou os assassinatos. Em depoimento à polícia e posteriormente em entrevistas, afirmou que matou o próprio pai em razão de agressões que teria sofrido durante a infância. Segundo seu relato, ele havia prometido vingança e, após cometer o crime, simulou um roubo para que o caso parecesse um latrocínio.
Na sequência, confessou ter matado a esposa, os dois filhos e a sogra. De acordo com o depoimento, as vítimas foram assassinadas enquanto dormiam. Depois dos crimes, ele deixou a residência com a intenção de tirar a própria vida, mas desistiu. Em seguida, retornou ao local e ateou fogo na casa para destruir evidências.
Gilmar também declarou que sua esposa sabia que ele havia matado o próprio pai. Durante a confissão, revelou ainda ser o responsável pela morte da adolescente Indiamara. Segundo ele, estava escondido na mata e invadiu a residência da família em busca de alimentos. Ao encontrar a jovem, decidiu matá-la por medo de ser identificado e denunciado às autoridades.
A revelação mudou completamente os rumos daquele caso e comprovou a inocência de Jesus Pereira dos Santos, que durante anos conviveu com as suspeitas relacionadas à morte da sobrinha.
Submetido a avaliações psicológicas e psiquiátricas, Gilmar foi considerado apto a responder pelos crimes perante a Justiça. Os processos referentes às seis mortes foram julgados em uma única sessão do Tribunal do Júri que durou cerca de 12 horas. Ao final do julgamento, ele recebeu condenações que totalizavam 180 anos de prisão. Em razão das regras da legislação penal aplicadas ao caso, a pena foi fixada em 150 anos de reclusão em regime fechado.
Após a condenação, Gilmar Reolon foi encaminhado para a Penitenciária Estadual de Francisco Beltrão, onde permanece cumprindo pena. Mais de uma década depois, a sequência de crimes continua sendo lembrada como uma das mais impactantes da história criminal do Paraná, marcada pela morte de familiares, por anos de fuga em meio à mata e por uma investigação que mobilizou comunidades inteiras em busca de respostas.
Texto com informações do canal do Marcos Campos no Youtube.