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Bombeiro do Norte Pioneiro relata busca por menino soterrado e cenário devastador encontrado na Venezuela
Soldado Bruno Zacharias integrou missão brasileira após terremoto que matou mais de 4,7 mil pessoas e afirma que experiência mudou sua vida para sempre
15/07/2026 11h35 Atualizada há 1 mês
Por: DAVI MARTINS Fonte: DA REDAÇÃO
Soldado Bruno e a cadela Arya durante a missão na Venezuela. Foto: Arquivo Pessoal

DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA

Montanhas de concreto, corpos sob os escombros, famílias desesperadas e o medo constante de novos tremores. Esse foi o cenário encontrado pelo soldado do Corpo de Bombeiros do Paraná, Bruno Daniel da Silva Zacharias, de 31 anos, ao desembarcar na Venezuela para atuar nas operações de resgate após o terremoto que devastou diversas cidades em 24 de junho.

Integrante da 3ª Companhia Independente do Corpo de Bombeiros, em Santo Antônio da Platina, Bruno foi um dos dez bombeiros paranaenses enviados para a missão internacional ao lado da cadela Arya, especializada na localização de vítimas soterradas, para prestar socorro ao povo venezuelano.

“Um cenário horrível. Prédios inteiros no chão, pessoas procurando familiares e uma cidade praticamente destruída. É algo que jamais vou esquecer”, contou em entrevista com a reportagem da Folha.

Segundo o balanço mais recente divulgado pelas autoridades venezuelanas, o terremoto deixou 4.734 mortos, 16.740 feridos e mais de 17 mil pessoas desabrigadas. Além disso, mais de 850 edifícios sofreram danos estruturais e pelo menos 190 ruíram completamente.

Mais de quatro mil pessoas morreram. Foto: Reprodução/PaiquereFM

Entre os momentos mais marcantes e dolorosos vividos por Bruno durante as duas semanas de missão está a tentativa de resgate de um menino que ainda apresentava sinais de vida sob os escombros. Durante horas, as equipes trabalharam intensamente na remoção do concreto na esperança de salvar a criança, mas, infelizmente, ela não resistiu antes que pudesse ser retirada.

Um rastro de destruição

A principal área de atuação da equipe de Bruno foi a cidade de La Guaira, considerada o epicentro da destruição causada pelo terremoto. Foi no município que o soldado presenciou cenas que, segundo ele, ainda são difíceis de processar e que permanecerão para sempre em sua memória.

“Eu ainda estou absorvendo tudo o que vivi lá. Ver praticamente uma cidade inteira destruída, famílias desesperadas procurando por parentes desaparecidos e pessoas tentando entender o que havia acontecido são imagens que dificilmente vou esquecer”, relatou.

Os desafios começaram logo no primeiro dia, e a cada dia que se passava, a equipe via cada vez mais o quão devastador foi o terremoto. Sem uma estrutura adequada nos primeiros dias, os bombeiros precisaram enfrentar dificuldades básicas, como a falta de banheiros e locais apropriados para banho e descanso. Além disso, o risco de novos tremores acompanhou a equipe durante toda a operação.

“Nós chegamos e já fomos para o campo atuar. Enquanto estávamos operando, houve uma réplica do terremoto. Tivemos que abandonar as edificações e sair correndo. Felizmente ninguém da equipe ficou ferido”, contou.

Nestes primeiros dias, Bruno presenciou um cenário que o abalou, a morte de uma criança. “A cachorra Arya sinalizou a possível presença de alguém nos escombros. Quando notamos, era uma criança. Os equipamentos mostraram sinais de vida, então começamos a quebrar as lajes que estavam em cima do menino, mas ele não resistiu”.

“Isso mexeu bastante comigo. Fiquei frustrado, porque a gente estava muito esperançoso em conseguir retirá-lo com vida”, contou.

Outro momento que marcou a missão aconteceu já nos últimos dias, quando uma família pediu ajuda para encontrar uma senhora de 91 anos. “Encontramos o corpo, e a família pode fazer sua despedida”, enfatizou.

“Infelizmente, não tive a felicidade de salvar pessoas. Encontramos oito pessoas mortas, e conseguimos retirar apenas três dos escombros para que as famílias pudessem se despedir”, destacou.

O valor das coisas simples

Já de volta ao Brasil, Bruno ainda tenta absorver tudo o que viveu na Venezuela. Casado e prestes a se tornar pai, o bombeiro deixou a esposa grávida durante os dias em que esteve na missão internacional. Segundo ele, a experiência trouxe uma nova perspectiva sobre a vida.

“A gente aprende a dar valor às coisas simples, principalmente à família. Os bens materiais podem ser reconstruídos, mas as pessoas que amamos são insubstituíveis”, destacou.

Ainda com o sentimento acelerado ao lembrar dos dias vividos na Venezuela, Bruno admite que talvez precise de mais tempo para compreender a dimensão da experiência. “Acho que ainda estou absorvendo tudo. Foi algo muito impactante para mim”, concluiu.