Colunistas NOSTALGIA
O lado A da memória
Antes mesmo de abrir os olhos, eu já sabia que a manhã havia chegado. Bastava sentir o cheiro do café preto passado pela minha mãe.
14/07/2026 10h20
Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

Quando eu era criança, havia um ritual silencioso que anunciava o começo de mais um dia.

Antes mesmo de abrir os olhos, eu já sabia que a manhã havia chegado. Bastava sentir o cheiro do café preto passado pela minha mãe. O leite tipo C, ainda em saquinho, descansava naquele suporte de alumínio sobre a mesa. O bolo simples, às vezes um pão com mortadela, e meu pai espalhando margarina no pão, um hábito que herdei e mantenho até hoje.

O sol atravessava a pequena sala do segundo andar da casa. Era uma luz muito particular, que parecia escolher onde pousar. Sempre iluminava a estante de livros: romances, história, literatura de cordel, arte. Era como se a manhã dissesse, todos os dias, que conhecimento também aquece.

Mas havia outro elemento indispensável naquele cenário.

A vitrola.

Tenho até hoje uma fotografia em que apareço, ainda menino, mexendo em um toca-discos da família. Cresci ouvindo a música sertaneja que meus pais tanto gostavam. Naquela época eu ainda não imaginava que me tornaria um apaixonado pelo rock, mas aquelas canções já estavam construindo, silenciosamente, a minha educação musical.

Hoje, quando escuto Cascatinha & Inhana cantando Meu Primeiro Amor, Barreirito, Tonico & Tinoco ou, principalmente, Milionário & José Rico, volto imediatamente para aquela casa.

Existe um disco que sempre me emociona: Estrada da Vida, lançado em 1977. Nele está a canção Adeus... sexta faixa do lado A. Mais do que belas melodias, o álbum revela um cuidado quase artesanal com a música. Ali convivem guarania, bolero, rasqueado, rancheira, Huapango e tantas outras influências latino-americanas que enriqueceram a música sertaneja de raiz. Cada arranjo, cada instrumento e cada voz parecem ocupar exatamente o lugar que deveriam ocupar.

Essa preocupação estética não existia apenas no sertanejo.

Ela também estava no rock.

Talvez seja justamente por isso que tantos roqueiros admirem a velha música sertaneja. Porque ambas nasceram da mesma honestidade artística. O blues que deu origem ao rock e a música caipira que moldou o sertanejo compartilham a mesma essência: contam histórias de gente comum, falam da dor, do amor, da partida, da saudade e da esperança.

Meu pai também me apresentou outro gigante: Almir Sater. Sempre tive a impressão de que ele faz com a viola o que Jimi Hendrix fez com a guitarra. Cada um à sua maneira revolucionou seu instrumento, sem jamais abandonar as raízes.

É curioso perceber como os grandes músicos nunca rompem completamente com o passado. Eles o transformam.

Talvez seja por isso que o rock continue dialogando tão bem com o sertanejo de raiz, com o blues, com a música clássica, com o jazz e com tantas outras manifestações culturais. A boa música nunca vive isolada. Ela conversa entre si.

Infelizmente, boa parte da produção musical contemporânea parece ter trocado a permanência pelo consumo imediato. Não há problema algum em existir música feita apenas para divertir. A alegria também faz parte da arte. O problema surge quando esquecemos que a música pode ser muito mais do que entretenimento.

Ela pode ser memória.

Pode ser literatura.

Pode ser filosofia.

Pode ser documento histórico.

Neste Dia Mundial do Rock, talvez a melhor homenagem não seja apenas ouvir um grande disco de rock. Talvez seja simplesmente ouvir um grande disco.

Coloque para tocar Estrada da Vida. Depois escolha um álbum do Pink Floyd, do Led Zeppelin, do Black Sabbath ou de qualquer artista que tenha tratado a música como obra de arte.

Perceba os silêncios, os arranjos, as harmonias, a construção das letras. Você descobrirá que a verdadeira música não pertence a um gênero.

Ela pertence ao tempo.

E, quando é realmente grande, consegue vencer o próprio tempo para continuar emocionando gerações que sequer haviam nascido quando o primeiro acorde foi gravado.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.