Colunistas GERAÇÕES
O homem que conversa com o tempo
Algumas pessoas atravessam a vida. Outras atravessam gerações. Toninho é uma delas. Aos oitenta e dois anos, continua carregando nos olhos a curiosidade de um menino
03/07/2026 14h13
Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
Foto: Flávio Mello

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

O que dizer de Antônio Ramos da Silva Júnior, o nosso querido Toninho Ramos?

Algumas pessoas atravessam a vida. Outras atravessam gerações. Toninho é uma delas. Aos oitenta e dois anos, continua carregando nos olhos a curiosidade de um menino e, na memória, um patrimônio que nenhum museu seria capaz de reunir por completo.

Sempre que ele entra na Casa da Cultura, o ambiente muda. Nunca chega de mãos vazias. Às vezes traz uma fotografia antiga, um documento esquecido, um objeto que resistiu ao tempo ou uma história que ninguém mais lembrava. Em outras ocasiões, chega apenas com sua conversa generosa. E, curiosamente, isso já basta. Porque conversar com Toninho é visitar uma Siqueira Campos que continua viva, pulsando entre lembranças e afetos.

Nossa amizade nasceu da admiração mútua. Sempre fui recebido por ele com cordialidade, respeito e um carinho que não se compra e não se explica. É daqueles presentes que a vida oferece sem que a gente perceba. Hoje tenho a alegria de ouvi-lo me chamar de amigo, de irmão. E isso, definitivamente, não há dinheiro que pague.

A história de Toninho se confunde com a própria história do município.

Técnico em eletrônica e comerciante aposentado, foi um dos pioneiros na implantação da televisão em Siqueira Campos. Ao lado do irmão, dedicou anos à manutenção da torre de transmissão, permitindo que muitas famílias acompanhassem, pela primeira vez, um mundo que chegava através das telas. Em uma época em que a tecnologia parecia magia, Toninho ajudava a transformar o impossível em rotina.

Também foi um dos primeiros comerciantes do ramo de móveis, eletrodomésticos e eletrônicos da cidade, levando inovação aos lares siqueirenses quando esses equipamentos ainda despertavam encantamento. Mas sua maior obra nunca esteve nas prateleiras de sua loja. Sempre esteve na confiança das pessoas e na disposição de compartilhar aquilo que sabia.

Seus conhecimentos históricos impressionam. Sua memória é privilegiada. Quando preciso compreender algum episódio do passado de Siqueira Campos, quase sempre é para Toninho que recorro. Ele conhece nomes, datas, personagens, acontecimentos e curiosidades como quem folheia um álbum de família. Não fala da história apenas porque estudou. Fala porque a viveu.

Mas existe algo ainda mais admirável do que sua inteligência: sua humildade.

Toninho jamais transforma conhecimento em vaidade. Ao contrário. Compartilha tudo com alegria, paciência e entusiasmo, como quem entende que a memória só faz sentido quando é dividida.

Apaixonado pela cultura, pelo esporte e pela preservação histórica, construiu um verdadeiro acervo particular. Entre rádios antigos, televisores, equipamentos eletrônicos, documentos e objetos raros, mantém viva uma parte importante da identidade do nosso município. É um guardião silencioso daquilo que o tempo insiste em apagar.

Talvez seja por isso que nossa amizade tenha encontrado tantos pontos em comum.

Somos apaixonados por antiguidades, vitrolas, televisores de tubo, videocassetes, aparelhos que muitos chamam de velhos, mas que eu prefiro chamar de testemunhas do tempo. Quando me mudei para o Paraná, trouxe comigo muitos objetos que pertenciam ao meu pai, ao meu avô e aos meus irmãos. Depois vieram outros, presentes de amigos. E quase sempre é Toninho quem lhes devolve a vida.

Recentemente presenteei minha filha Alice com um toca-discos. Antes de chegar às mãos dela, passou pelas mãos de Toninho. Foi ele quem o restaurou. Sempre que um disco começa a girar e a música preenche a casa, inevitavelmente lembro dele. Porque, de certa forma, há um pouco de Toninho em cada som que volta a existir.

Descendente de mineiros, filho do saudoso Seu Tozinho e de Dona Maria José, construiu ao lado da esposa, Bazelícia, uma bela família, formada pelas filhas Rosana e Luciana e pelos netos, que dão continuidade a uma trajetória construída sobre trabalho, honestidade e amor à comunidade.

Vivemos em um tempo que valoriza excessivamente as novidades. Talvez por isso homens como Toninho sejam tão necessários. Eles nos lembram que nenhuma sociedade constrói um futuro sólido quando despreza o próprio passado.

Toninho não restaura apenas aparelhos antigos.

Ele restaura lembranças.

Ele conserta objetos, mas também preserva histórias.

Ele mantém funcionando uma máquina muito mais importante do que qualquer equipamento eletrônico: a memória de um povo.

E falar das grandes personalidades de Siqueira Campos sem falar de Toninho Ramos seria uma injustiça imperdoável.

Alguns homens passam pela história.

Outros fazem com que a própria história continue viva.

Toninho Ramos pertence, com toda justiça, a esse raro segundo grupo.