DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
WENCESLAU BRAZ - Uma emboscada que matou policiais, uma bazuca apreendida em uma operação no Norte Pioneiro e mais de uma tonelada de maconha escondida dentro de um caminhão falso. Parece roteiro de filme, mas todos esses episódios aconteceram na região de Wenceslau Braz e agora fazem parte da memória preservada pela Polícia Militar.
Na última quinta-feira (25), o 2º Batalhão da Polícia Militar inaugurou um mural histórico em sua sede, em Wenceslau Braz. O espaço reúne fotografias de oficiais que ajudaram a construir a trajetória da corporação, imagens das primeiras viaturas utilizadas na região, registros de operações marcantes e momentos que atravessaram décadas da história policial no Norte Pioneiro.
“Preservar a história é reconhecer o legado de quem veio antes de nós. Esse painel foi criado para preservar e valorizar a memória daqueles que contribuíram para a construção da nossa trajetória”, destacou o capitão Lucio da Silva Dziuba durante a solenidade.
A iniciativa nasceu de um trabalho realizado ao longo de anos pelo subtenente da reserva remunerada Marco Aurélio, que dedicou três décadas de sua vida à Polícia Militar.
“Eu notava que os mais antigos, depois que aposentavam, eram esquecidos. Então há anos venho guardando fotos e organizando esse mural para nos lembrarmos daqueles que deram suas vidas pela nossa região e celebrarmos a importância dos policiais que passaram por aqui”, afirmou.
Em entrevista à Folha, Marco Aurélio relembrou alguns dos episódios mais marcantes de sua carreira. São histórias de coragem, tragédia, grandes apreensões e operações que mobilizaram toda a região.
Entre todas as lembranças, uma continua viva na memória do subtenente mesmo após quase três décadas.
Em 1998, uma quadrilha fortemente armada invadiu uma agência bancária em Salto do Itararé. Após o assalto, os criminosos fugiram para uma área de mata próxima à divisa com o estado de São Paulo.
Assim que a ocorrência foi comunicada, equipes da Polícia Militar de diversas cidades foram mobilizadas para localizar os suspeitos. O que os policiais não sabiam era que os criminosos haviam preparado uma emboscada.
“Quando estávamos indo para o local, recebemos pelo rádio a informação de que os bandidos estavam escondidos em um barranco e tinham metralhado uma das viaturas. Dois policiais nossos perderam a vida naquele dia”, recorda Marco Aurélio.
Quando as equipes chegaram, encontraram uma cena que até hoje emociona quem participou da ocorrência. “Foi horrível. Um dos companheiros estava caído no chão. Outro permaneceu morto dentro da viatura. O terceiro policial conseguiu fugir ferido, atingido por estilhaços no olho. Ele sobreviveu, mas perdeu a visão do olho atingido”, contou.
A operação mobilizou forças policiais durante vários dias. Segundo Marco Aurélio, a maioria dos integrantes da quadrilha acabou morrendo em confrontos posteriores com equipes policiais. Outros foram localizados em ações realizadas no estado de São Paulo.
Outra ocorrência que entrou para a história da corporação aconteceu no fim da década de 1990.
Após um trabalho de inteligência, policiais montaram uma operação na região do trevo de acesso a São José da Boa Vista e Santana do Itararé. A suspeita era de que criminosos estariam transportando armamento pesado pela região.
Quando os veículos suspeitos foram abordados, houve reação de um dos ocupantes, que acabou sendo baleado na perna. Mas o que chamou atenção veio logo depois.
“No porta-malas encontramos armamento pesado mesmo. Tinha fuzis, metralhadoras, pistolas, coletes balísticos e até uma bazuca”, relembra o subtenente.
Outra fotografia do mural relembra uma das maiores apreensões de drogas da história da região. Após semanas de levantamento de informações, policiais abordaram um caminhão caracterizado com adesivos falsos para tentar despistar a fiscalização.
Quando os agentes abriram o compartimento de carga, aparentemente não havia nada. Mas a experiência dos policiais levantou suspeitas.
“Quando abrimos o baú, ele estava vazio. Mesmo assim, resolvemos verificar melhor. Dentro das placas metálicas que formavam as paredes do caminhão havia muita droga escondida”, lembra.
Foi necessário desmontar parte da estrutura do veículo para retirar os tabletes. Ao final da operação, mais de uma tonelada de maconha foi apreendida. “Foi uma ocorrência que marcou muito a minha carreira”, destacou.
Nem todas as lembranças do mural envolvem confrontos ou prisões. Entre as imagens mais marcantes está o registro da enchente histórica que atingiu Tomazina em 2010. Marco Aurélio afirma que aquele foi um dos episódios mais impactantes que presenciou em três décadas de serviço.
“Eu nunca tinha visto algo daquele jeito. Parecia um cenário de guerra”, recorda.
Segundo ele, a água subiu tão rapidamente que os policiais tiveram apenas tempo suficiente para retirar armamentos e equipamentos antes que o prédio da corporação fosse tomado pela inundação.
Quando as equipes chegaram para prestar apoio à população, encontraram uma cidade devastada. “Tinha móveis, roupas e objetos espalhados pelas ruas, muito barro, carros inundados e famílias que tinham perdido praticamente tudo. Foram dias de trabalho ajudando a população”, contou.
Décadas depois, os uniformes mudaram, as viaturas evoluíram e muitos daqueles policiais já deixaram a ativa. Alguns aposentaram, outros seguiram novos caminhos e alguns deram a própria vida em serviço. Agora, as histórias que marcaram gerações estão eternizadas nas paredes do 2º BPM, mostrando operações que também contaram com o apoio da Polícia Civil, e são abertas ao público.