Especiais PARA CHAMAR DE LAR
Uma família para sete recomeços: casal de Bandeirantes transforma a vida de crianças que cresceram sem um lar
Ao longo de dez anos, Sueli e Rafael abriram as portas de casa para sete filhos adotivos. Entre eles estão irmãos gêmeos que passaram mais de uma década em abrigos, e encontraram na família uma nova esperança
02/06/2026 15h41
Por: DAVI MARTINS Fonte: DA REDAÇÃO
O que nasceu do desejo de ajudar uma criança acabou se transformando em uma família formada por sete filhos adotivos, construída por Sueli Sertório e Rafael Gatti. Foto: Cedida pela família à Folha

DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA

BANDEIRANTES - Enquanto o mundo enfrentava as incertezas e o isolamento provocados pela pandemia de Covid-19, uma história de amor e acolhimento começava a ser escrita em Bandeirantes, no Norte Pioneiro. O que nasceu do desejo de ajudar uma criança acabou se transformando em uma família formada por sete filhos adotivos, construída por Sueli Sertório e Rafael Gatti, que encontraram na adoção uma forma de transformar vidas, inclusive as próprias.

A trajetória da família começou em 2020, em meio ao período mais crítico da pandemia no Brasil. Professora da rede municipal de ensino, Sueli conheceu a história de Bruno, então com apenas 10 anos, que vivia em situação de vulnerabilidade social. Sensibilizados com a realidade enfrentada pelo menino, ela e o marido decidiram se aproximar para oferecer apoio. O vínculo se fortaleceu e despertou um novo propósito: dar uma família ao pequeno Bruno.

“No começo, nossa intenção era apenas cuidar dele até que ele pudesse voltar a morar com a mãe. Mas a relação entre nós e ele foi ficando tão forte que demos início ao processo de adoção”, relembra Sueli.

A experiência mudou a vida da família e abriu caminho para uma jornada que estava apenas começando. Durante o processo, o casal conheceu a plataforma A.dot, aplicativo idealizado pela jornalista paranaense Adriana Milczevsky em parceria com o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), criado para dar visibilidade a crianças e adolescentes que aguardam por uma família.

Entre centenas de perfis, dois chamaram a atenção de Sueli e Rafael: os irmãos gêmeos Maria Vitória e Marcos Augusto. “A gente estava mexendo no aplicativo quando apareceu um vídeo deles contando a própria história. Eles já tinham passado 11 anos em abrigos e aquilo mexeu muito com a gente”, conta Rafael.

O encontro aconteceu cerca de nove meses após a chegada de Bruno à família. Na época, Maria Vitória e Marcos viviam em uma instituição de acolhimento em Cerro Azul e já se aproximavam da maioridade. Como acontece com muitos adolescentes acolhidos, as chances de adoção eram consideradas reduzidas. Mas foi justamente um vídeo publicado na plataforma que mudou o rumo da história.

“Nele, eles falavam dos sonhos, dos gostos pessoais e do desejo de ter uma família. Foi algo diferente. Quando vimos a história deles, sentimos que precisávamos conhecê-los”, lembra Sueli.

O interesse deu início ao processo de aproximação. Em razão da pandemia, os primeiros contatos aconteceram por videochamadas. Em poucas semanas, o vínculo já estava formado e a adoção foi concluída em apenas 40 dias.

Pouco tempo depois, os irmãos chegaram a Bandeirantes para iniciar uma nova fase de suas vidas. “Foi algo que não esperávamos. Fizemos o vídeo porque as pessoas do abrigo sugeriram colocar no aplicativo, mas nunca imaginamos que uma família realmente iria nos adotar”, recorda Maria Vitória.

O primeiro encontro também permanece vivo na memória de Marcos. “Para mim foi um momento maravilhoso. Um sonho realizado”, afirma.

Hoje, ambos estão casados, trabalham e construíram seus próprios caminhos. Marcos, inclusive, já é pai, transformando Sueli e Rafael em avós. Mas a história da família ainda ganharia novos capítulos.

Depois que Maria Vitória e Marcos deixaram a casa para seguir suas vidas, o casal acreditava que não adotaria novamente. A rotina estava tranquila e os planos eram outros.

Foi então que Sueli conheceu quatro irmãos acolhidos em uma instituição. Ela os encontrou na escola onde trabalha e sentiu algo familiar. “Foi a mesma sensação que tivemos quando conhecemos a história da Maria Vitória e do Marcos”, conta.

“Hoje, a casa voltou a ficar cheia", disse Rafael. Foto: eduardonerifotografia/Cedida pela família à Folha

Com o passar dos meses, o sentimento apenas cresceu. As crianças chegaram a passar por uma tentativa de adoção, mas o processo não deu certo e elas retornaram ao acolhimento. Para Sueli e Rafael, aquilo pareceu um sinal. “Depois que eles voltaram, decidimos ampliar nosso perfil no sistema de adoção. Antes estávamos habilitados para uma criança. Mudamos para quatro e conseguimos”, lembra Sueli.

No fim do ano passado, Ana Beatriz, de 11 anos, Márcio, de 10, Maria, de 8, e o pequeno Javi, de apenas 2 anos, passaram a integrar oficialmente a família. Há desafios, descobertas e diferenças de personalidade. Mas também existe espaço para afeto, convivência e pertencimento.

“Hoje, a casa voltou a ficar cheia. São sete filhos, uma neta recém-nascida, histórias diferentes e um mesmo sentimento de família”, resume Rafael.