DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
SIQUEIRA CAMPOS - Hoje em dia é cada vez mais raro encontrar um jovem que saiba o que foi uma lan house, e mais raro ainda algum que tenha vivido essa experiência. Isso porque a partir de 2010, esses espaços começaram a desaparecer, substituídos pela popularização da internet móvel, dos celulares, notebooks e outros aparelhos que passaram a fazer parte do cotidiano. Em meio ao esquecimento quase generalizado destes espaços, um grupo de jovens de Siqueira Campos decidiu ir na contramão da modernidade e resgatar a ideia.
Na cidade, a iniciativa partiu de Nathan Lopes da Silva, de 25 anos, proprietário de um comércio voltado à tecnologia, especializado na venda de computadores, manutenção e acessórios para o público conectado. No ano passado, ele colocou o município no cenário dos e-sports ao promover o primeiro campeonato gamer presencial do Norte Pioneiro. A experiência serviu de impulso para um projeto ainda mais ambicioso: resgatar o conceito das antigas lan houses, agora adaptado à nova geração de gamers.
“Sempre tive vontade de abrir uma lan house. É algo que sempre esteve na minha cabeça. Hoje em dia é mais difícil, porque todo mundo tem internet em casa, computador próprio, mas era um sonho que eu queria realizar”, relatou Nathan.
Ao lado Bruno e Larissa, amigos que também atuam na loja, ele decidiu dar um passo ousado para tirar a ideia do papel e trazer à tona os estabelecimentos que, para milhões de pessoas, foram a primeira experiência online, especialmente quando se fala em jogos e redes sociais. Após algumas adaptações no espaço, o grupo conseguiu montar a estrutura necessária para instalar os computadores e oferecer um novo ponto de encontro para os apaixonados por jogos na cidade.
“Durante a organização do campeonato, muitas pessoas nos procuraram em busca de um espaço para treinar, o que acabou fortalecendo ainda mais a ideia de abrir a lan house”, completou.
A recepção do público, segundo Nathan, superou as expectativas. “Foi muito legal. Muita gente gostou, principalmente as crianças. O que mais marcou foi ver pessoas de várias idades aqui. Adultos que cresceram frequentando lan houses e crianças que nunca tinham visto uma, todas se divertindo juntas”, destacou.
Mesmo em um cenário em que boa parte da população já possui computadores, videogames e celulares em casa, Nathan observa que muitos ainda preferem sair de casa para jogar em grupo. A busca pela convivência, pela experiência coletiva e pela nostalgia tem levado amigos a se reunirem novamente em frente aos computadores, revivendo um hábito que marcou uma geração.
Entre comunidades do Orkut e jogos que hoje são considerados clássicos, as lan houses viveram um longo período de popularidade no Brasil e no mundo. Segundo o portal nic.br, o conceito surgiu em 1988, na Coreia do Sul, com a criação de um “Electronic Café” em Seul. O espaço oferecia computadores conectados à internet por linha telefônica e também funcionava como ambiente para encontros e conferências.
Com o passar dos anos, a ideia foi sendo adaptada e ganhou força principalmente nos anos 2000, impulsionada pela popularização dos jogos multiplayer e das plataformas de mensagens. No Brasil, o Orkut se consolidou como símbolo dessa fase, reunindo milhões de usuários antes de perder espaço para o Facebook.
Jogos como Counter-Strike, Call of Duty, Battlefield, as primeiras versões de GTA e Need for Speed ajudaram a transformar as lan houses em pontos de encontro. Além do entretenimento, esses locais garantiam acesso a computadores mais potentes e a uma conexão de melhor qualidade, em um período em que a internet doméstica ainda era cara, lenta e pouco acessível para grande parte da população.
A perda de popularidade começou à medida que esse cenário mudou. O avanço da banda larga, a redução no preço dos computadores e a expansão dos dispositivos móveis diminuíram a necessidade desses espaços. Em 2005, o Brasil chegou a registrar mais de 90 mil lan houses. Em 2007, pesquisa do Cetic.br indicava que elas eram o principal meio de acesso à internet para pessoas de baixa renda.
Em 2010, segundo o CGI, cerca de 45% dos brasileiros ainda utilizavam lan houses, mas a queda já era evidente. Em 2011, estudo do Ibope/NET apontou 4,4 milhões de usuários, número bem inferior ao de anos anteriores. Aos poucos, esses estabelecimentos se tornaram raros, seguindo o mesmo caminho das antigas locadoras de filmes e games.