Colunistas MEMÓRIAS
O Eco do Mundo na Voz dos Expedicionários
Uma visita que se transforma em compreensão e compromisso
21/11/2025 14h33
Por: DAVI MARTINS Fonte: Por Flávio Mello - Colunista da Folha
Flávio Mello e familiares dos expedicionários paranaenses. Foto: Flávio Mello

por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura

@flaviomelloescritor

 

A manhã desta quarta-feira, 19 de novembro de 2025, ficará gravada entre aquelas experiências raras em que passado e presente se tocam com tamanha intensidade que o tempo parece suspenso. Fui ao Museu do Expedicionário, em Curitiba, espaço que há décadas preserva a memória dos brasileiros que lutaram na Segunda Guerra Mundial, e saí de lá com a certeza de que há lugares que seguem vivos porque são mantidos por pessoas igualmente vivas, presentes, inteiras.

Museu do Expedicionário, em Curitiba. Foto: Flávio Mello

 

Honrar nossos heróis, nossas histórias e os pilares invisíveis que sustentam o Brasil que somos.

O museu, situado na Rua Comendador Macedo, tem uma trajetória tão rica quanto o acervo que abriga. Sua história começa ainda em 1946, quando, após o fim da guerra, foi fundada a Legião Paranaense do Expedicionário (LPE) para prestar assistência aos ex-combatentes e às famílias daqueles que morreram na Itália. Alguns anos depois, em 1951, a LPE inaugurou a Casa do Expedicionário, que não era apenas uma sede: era um ponto de acolhimento, um espaço de memória e, de certo modo, um lar comum dos que sobreviveram às dores do front. Ali também existia a semente do que viria a ser o museu, a sala Museu Tenente Max Wolf Filho, onde eram guardados objetos trazidos pelos pracinhas.

Foi apenas em 1980, mais de três décadas após o fim da guerra, que o Museu do Expedicionário (MEXP) foi oficialmente inaugurado, graças a um convênio com o Governo do Paraná e o apoio das Forças Armadas. Desde então, transformou-se em referência nacional na preservação da história da Força Expedicionária Brasileira (FEB), reunindo o mais rico acervo do país sobre o tema. São uniformes, armas, artefatos, documentos, mapas, fotografias e filmes que recontam a participação brasileira na Segunda Guerra, com destaque para os paranaenses que foram ao solo italiano levando coragem, disciplina e um certo brilho brasileiro que nunca se apagou.

Tive o prazer de ser apresentado às famílias de nossos expedicionários, que toda quarta-feira, a partir das 14h, se encontram para um café e para manter pulsante a memória daqueles que tão bravamente nos representaram. Agradeço profundamente o carinho com que fui recebido, em especial à presidente da LPE, senhora Rachel Madureira Regner, foi uma tarde que me encheu de honra e respeito por essa história que continua viva em cada encontro.

Mas nenhum dado histórico, por mais impressionante, supera o que testemunhei pessoalmente quando cheguei ao museu.

O Coronel e o jardim da memória

Antes da visita, entrei em contato com o diretor do espaço, o Cel (R1 EB) Said Zendim. Eu esperava alguém com autoridade, e encontrei alguém com alma. Não apenas me guiou por um tour detalhado, respeitoso e vibrante pelo acervo, como também demonstrou algo que ultrapassa qualquer descrição técnica: a paixão por manter viva a história dos nossos pracinhas.

No Museu, Flávio foi recebido pelo diretor e Coronel (R1 EB) Said Zendim, e pelo General Divisa (R1 EB) Edson Skora Rosty. Foto: Flávio Mello

 

Entre uma explicação e outra, o vi receber grupos de estudantes, orientar professores, lidar com demandas administrativas e, de repente, estava ele próprio mexendo no jardim, ajustando a praça, caminhando entre blindados, canhões e luzes de Natal que começavam a ser instaladas. Um diretor que cuida, literalmente, do chão em que pisa.

Ali, entendi imediatamente por que me identifiquei com ele. Nosso trabalho com a memória tem pontos de encontro: ambos carregamos essa missão como um compromisso afetivo, cultural e humano.

A história pulsa

Enquanto percorríamos as salas e corredores, revisitei mentalmente muitos dos pracinhas que pesquiso, admiro e cito em minhas ações culturais em Siqueira Campos. E percebi que meu encantamento não vinha apenas da grandiosidade do museu, que ocupa uma área de cerca de 1.250 m² e recebe cerca de 35 mil visitantes por ano. Vinha da convivência com pessoas que fazem da memória uma prática diária.

Entre elas, tive a honra de conhecer o Gen Div (R1 EB) Edson Skora Rosty, pesquisador da Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEx). Passamos longas horas conversando, entre cafés, histórias, lembranças e interpretações, e cada palavra dele parecia abrir caminhos para outras reflexões. Um historiador que conhece profundamente não só os fatos, mas o pulsar humano dentro deles.

Saí dali orgulhoso de ser paranaense, de estar à frente da Cultura de Siqueira Campos, e de ter convivido, ainda em vida, com um pracinha siqueirense: o Sr. Jovino Coruja, cuja história ecoa cada vez que penso no sentido da palavra “servir”.

Entre ecos do passado e o futuro que construímos

O museu que existe hoje, administrado pelo Exército Brasileiro, com apoio da LPE e do Governo do Estado do Paraná, é fruto de décadas de dedicação. Em 2017, após decisão da própria Legião Paranaense do Expedicionário, o imóvel e o acervo foram oficialmente doados ao Exército, garantindo continuidade, cuidado e preservação.

Republic P-47 Thunderbolt, caça que foi utilizado na Segunda Guerra Mundial. Foto: Flávio Mello

 

É um lugar que transmite valores com os quais me identifico profundamente: patriotismo, coragem, determinação. Mas também transmite sensibilidade, memória afetiva e responsabilidade histórica, talvez as maiores forças de um país que deseja não apenas recordar, mas honrar.

E mesmo que o espaço que estamos construindo em Siqueira Campos, dedicado aos expedicionários, não tenha a grandiosidade física do museu de Curitiba, terá certamente sua essência: o cuidado, o compromisso e a verdade. Tenho certeza de que os herdeiros dos expedicionários que conheci ali, os pesquisadores, historiadores e guardiões desse patrimônio nos acompanharão nessa construção.

O eco que levo comigo

Durante a visita, compartilhei meu encantamento com meu amigo Amando Lemes, filho do expedicionário Julio Barbosa Lemes, que sempre me inspira. Mandei fotos, áudios, relatos. Como sempre, Amando — esse intelectual generoso — respondeu com a profundidade de quem carrega no sangue a herança de um pracinha. Foi mais um capítulo dessa caminhada conjunta pela preservação de nossa memória.

Termino este artigo com a sensação de que há experiências que não apenas informam: transformam.

O Museu do Expedicionário é desses lugares.

E nesta manhã de novembro, a história, aquela que muitos julgam silenciosa, respirou diante de mim com força, luz e humanidade.

Temos muito ainda a aprender.

Muito a preservar.

E, sobretudo, muito a honrar.

Honrar nossos heróis, nossas histórias e os pilares invisíveis que sustentam o Brasil que somos.

Contatos

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.