Radar ESTELIONATO
Falsos advogados roubam milhões no Brasil e criminosos também fazem vítimas no Norte Pioneiro
Advogado da região contou à Folha que um de seus clientes chegou a perder quase R$ 8 mil; ligações com organizações criminosas e hackers são investigadas
31/10/2025 15h09 Atualizada há 7 meses
Por: DAVI MARTINS Fonte: DA REDAÇÃO
Imagem Ilustrativa. Foto: Reprodução/Internet

DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA

Uma nova onda de golpes está se espalhando pelo Brasil e já fez milhares de vítimas, especialmente pessoas que têm processos na Justiça. É o chamado golpe do falso advogado, onde criminosos se passam por profissionais do direito, prometem liberar benefícios ou indenizações e, para isso, pedem pagamentos antecipados. Só nos últimos três anos, o prejuízo já soma R$ 2,8 bilhões, e diversos casos também foram registrados no Norte Pioneiro.

A reportagem da Folha conversou com um advogado da região, que preferiu não se identificar. Segundo o que ele contou, o que antes era um golpe simples de estelionato ficou muito mais sofisticado. As quadrilhas usam credenciais de advogados reais para invadir os sistemas online da Justiça e aplicar as fraudes.

De acordo com o advogado, os processos são públicos e podem ser consultados em sites oficiais como o PROJUDI e o EPROC, sistemas da Justiça Federal que registram e permitem acompanhar ações judiciais.

Essa transparência facilita o acesso para qualquer cidadão, mas tem um ponto fraco: pessoas comuns não conseguem ver dados sensíveis, como CPF, telefone, e-mail ou endereço. É aí que entram as credenciais de advogados, que são usadas pelos golpistas para acessar essas informações e, depois, entrar em contato com as vítimas se passando por profissionais reais.

Nestes contatos, os criminosos manipulam as vítimas, fingindo que ela teve alguma decisão favorável e tem algum valor para receber da Justiça, mas condicionam o recebimento desse valor ao pagamento de uma taxa ou fornecimento de dados bancários – e assim aplicam os golpes.

Por terem acesso aos dados completos dos processos, os criminosos utilizam as informações para passar mais confiança às vítimas. O uso da tecnologia também facilita o golpe: os criminosos ainda utilizam fotos dos advogados reais no perfil do WhatsApp.

De acordo com uma reportagem do Fantástico, há uma investigação em andamento sobre um esquema em que hackers vendem identidades de advogados para golpistas, algumas sendo comercializadas por apenas R$ 200. A polícia também investiga uma possível ligação do golpe com facções criminosas. Em julho, um homem foi preso no Espírito Santo, apontado como o principal responsável por fornecer logins e senhas usados pelas quadrilhas.

O advogado ouvido pela Folha contou que, há cerca de um ano e meio, diversos profissionais da região têm relatado problemas parecidos com seus clientes. Ele mesmo teve um caso recente: “um cliente caiu no golpe e perdeu cerca de R$ 8 mil”, relatou durante a entrevista. Outros casos também aconteceram na região, com valores diversos.

Nestes casos, os advogados também se tornam vítimas do crime, já que suas identidades são vendidas ilegalmente e os criminosos ás utilizam para prejudicar seus clientes.

No país, o prejuízo soma mais de R$ 2,8 milhões, apenas nos últimos três anos. No Rio Grande do Sul, o repórter Giovani Grizotti, do Fantástico, encontrou uma vítima que perdeu R$ 255 mil. A aposentada, que vive com um salário mínimo, esperava receber cerca de R$ 7 mil da pensão por morte do marido.

Ela recebeu uma mensagem que dizia ser do escritório de sua advogada e conversou com uma suposta advogada, "Doutora Leandra", e um comparsa. Eles exigiram depósitos para liberar o dinheiro. “Acho que eu fiz mais ou menos uns nove depósitos”. O valor perdido era toda a sua reserva.

Os advogados também são vítimas. A verdadeira Leandra Wichmann, advogada da aposentada, contou que os golpistas tiraram "prints" da procuração de dentro do processo na Justiça Federal e criaram um comprovante falso em seu nome.

Para combater estas fraudes, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) anunciou uma nova medida de segurança. A partir deste mês de novembro, o acesso às plataformas digitais da Justiça exigirá uma nova camada de proteção, semelhante à autenticação utilizada em bancos. Além da senha e login dos advogados, o acesso exigirá a autenticação no aparelho telefônico dos advogados, uma medida que deve diminuir os casos.

Dicas essenciais para se proteger do golpe