DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
WENCESLAU BRAZ - Há 46 anos, Maria Aparecida da Silva guarda as únicas lembranças do filho que lhe foi tirado ainda bebê: o som do primeiro choro, uma foto já desbotada e uma pequena roupinha de recém-nascido. Hoje, aos 80 anos, morando em Wenceslau Braz, no Norte Pioneiro do Paraná, ela ainda vive com a mesma esperança de sempre - a de reencontrar o filho arrancado de seus braços quando tinha apenas três meses de vida.
A história começou em 1979. Na época, Maria era casada com Pedro Benedito da Silva. O casal enfrentava dificuldades financeiras e já cuidava de dois filhos pequenos quando descobriu que esperava gêmeos. O nascimento de Cristóvão e Cristiano trouxe alegria, mas também medo. E esse medo levou Pedro a uma decisão que mudaria a vida de todos.
Sem o consentimento - e sequer o conhecimento - de Maria, ele entregou um dos bebês, Cristiano, a uma mulher conhecida na cidade como Dita Barba, que intermediava adoções ilegais.
“Ela viu, de longe, na porteira, quando ele entregou o Cristiano para a Dita Barba. Foi a última vez que teve contato com o filho”, conta Ana Cláudia Craviski, sobrinha-neta de Maria.
Naquela época, Maria era dona de casa, cuidava dos filhos e convivia com um marido alcoólatra. Sem recursos e sem apoio, ficou devastada ao descobrir que o filho havia sido levado.
“Eu só pensava: ‘quero meu filho de volta’. Fiquei doente, sem forças nem para comer”, relembra Maria, com a voz embargada.
Os anos se passaram. Maria se separou de Pedro - que faleceu há cerca de seis anos -, mas a saudade e a culpa nunca foram embora.
“Eu diria para ele: ‘Cristiano, não fui eu quem te entregou. Foi teu pai. Sempre senti tua falta e guardo tua foto do batizado com carinho. Todos os dias peço a São José para te ver de novo’”, desabafa.
Hoje, aos 80 anos, o tempo pode ter levado muitas coisas, mas não o amor de mãe.
“Toda vez que a gente visita ela, o assunto é o mesmo. Ela fala do Cristiano, chora e diz que não quer morrer antes de dizer pra ele que não teve culpa. Que nunca quis deixá-lo”, conta Ana.
Há cerca de três anos, a família decidiu reabrir as feridas e iniciar uma nova busca. Desde então, várias pessoas surgiram acreditando ser o filho perdido - mas nenhuma delas era Cristiano.
A pista mais próxima veio da filha de Dita Barba, que confirmou que a mãe realmente intermediava adoções ilegais na época. “Mas ela era muito nova e não tem informações sobre o Cristiano”, explica Ana.
Agora, a família tenta mais uma vez. Cristiano teria 46 anos, nascido em 23 de março de 1979, e pode ter crescido acreditando em uma história completamente diferente da real. A busca tem sido feita por meio das redes sociais, com a esperança de que alguém reconheça a história - e que ela finalmente chegue até ele.
“A gente acredita que Deus vai tocar o coração dele, onde quer que esteja”, diz Ana, emocionada.
Para Maria, o reencontro seria mais do que um alívio - seria a chance de curar uma dor que atravessa quase meio século.
“Eu só quero olhar para ele e dizer: ‘meu filho, nunca deixei de te amar’.”