por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
Eu não saberia dizer como cheguei lá. Talvez fosse apenas a saudade guiando meu avião para longe das areias do Saara, onde um dia conheci aquele pequeno ser que mudou minha vida.
Pousei em seu minúsculo planeta. Ele estava lá, ajoelhado, arrancando as pequenas mudas de baobá com a paciência de quem sabe que o descuido pode destruir tudo. E me olhou como quem reencontra um velho amigo que voltou para casa.
— Você caiu de novo com o avião? — perguntou, com aquele sorriso que mistura ingenuidade e sabedoria.
— Não dessa vez… — respondi. — Mas você sabe que já caí muitas vezes. No deserto, no mar, dentro de mim mesmo. E sempre lembro de você.
Ele sorriu, mas seu olhar foi ficando mais lento, mais distante. Falamos da rosa. Ele a amava apesar do egoísmo dela — e talvez por isso mesmo a amasse tanto. Disse-me que aprendera que cuidar é mais do que proteger: é compreender que até a beleza tem espinhos.
Sobre seus vulcões, contou que ainda os limpa com disciplina, pois é preciso cuidar daquilo que mantém o mundo aquecido. Afinal, até o menor vulcão, se esquecido, pode se tornar desastre.
— E os baobás? — perguntei.
— Ah, esses… — suspirou. — Continuam tentando invadir tudo. É preciso arrancá-los cedo, antes que tomem o coração inteiro.
Por que será que nunca valorizamos nosso pequeno mundo — nosso quarto, nossa sala, nossa casa, nosso bairro, nossa cidade? Por que tantas vezes nos vemos inferiores e frágeis? Não compreendemos que precisamos cuidar da vida como se cuida de um jardim: ser fiel às rosas, vigiar os baobás, manter acesos os vulcões. Viajar na cauda de um cometa, sim, mas sempre regressar feliz ao nosso ponto de partida — o seio quente e cheio de vida que é o lar.
Conversamos sobre o ter e o perder. Ele me disse que, no fundo, nada é realmente nosso: somos apenas guardiões temporários daquilo que amamos. E, mesmo assim, passamos a vida colecionando coisas, pessoas e vitórias como quem quer aprisionar o vento. Talvez seja essa a velha máxima que nos condena: a ganância de possuir e o medo de perder. Um fardo que sufoca a alegria simples de existir.
Falei-lhe da angústia de viver. De como, às vezes, nos recolhemos ao nosso pequeno mundo para não sermos feridos novamente pela maldade dos homens. Que não é covardia, mas um instinto de sobrevivência — fechar as janelas para proteger o fogo que ainda arde dentro de nós. Ele ouviu em silêncio, como quem sabe que há feridas que só a solidão consegue costurar.
A saudade de ser ou ter o que não somos e não temos é o alimento que incha o ego com o calor da arrogância. Que sejamos mais pétala e menos espinho.
Ele me contou que, às vezes, olha para o céu e sente que há risos nas estrelas. Outras vezes, porém, o silêncio é tão grande que parece que todas dormem.
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.