Por Flávio Mello
Colunista e Secretário de Cultura
O desespero toma conta da minha alma.
É inacreditável o caminho que nós, seres humanos, escolhemos trilhar. E mais angustiante ainda é perceber que comprometemos não apenas nosso presente, mas o futuro de duas — talvez mais — gerações. Um futuro adoecido pela falta de empatia, pelo desamor ao próximo, pela negligência com a saúde mental, pela ausência de defesa contra os próprios vícios e pelo desinteresse em desenvolver o intelecto.
Lê-se pouco. Muito pouco. Basta notar que um dos livros mais vendidos nos últimos tempos é um de colorir para adultos. A televisão oferece conteúdo deteriorado, medíocre no sentido mais profundo do termo. A música — salvo raras exceções — tornou-se um palco de vulgaridades, apologia ao crime, violência, drogas e sexo. A dor do outro virou entretenimento.
Vivemos tempos em que redes sociais, sites e salas virtuais abrigam tortura física e mental como forma de diversão. A chantagem, a extorsão e a crueldade extrema são apenas mais uma “live”, mais um “vídeo viral”. E o que mais me assusta: assistimos a tudo isso como se fosse a novela das nove.
Guerras se iniciam ao redor do mundo — como se nada tivéssemos aprendido com as anteriores. Disputas por território, petróleo, poder, ou mesmo em nome de uma fé distorcida, seguem ceifando vidas. Crianças, idosos, doentes — todos vítimas de um sistema que perdeu o senso de humanidade.
E nós? Seguimos em silêncio. Seguimos na lógica do “tanto faz”.
Crianças famintas nas calçadas. Idosos abandonados em corredores de hospitais. Famílias inteiras esperando por um órgão, por uma doação de sangue, por um milagre. E aqueles que deveriam nos proteger e representar banqueteiam-se em salões luxuosos, ocupados com suas guerras ideológicas, enquanto o povo luta para sobreviver.
O tempo se encurta. Ainda ontem era Natal. E a natureza, exaurida pelo nosso descaso de séculos, começa a cobrar sua fatura.
O que mais precisamos perder?
Ninguém leu o Estatuto do Homem, de Thiago de Mello, onde está escrito com coragem e ternura:
“Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.”
É disso que precisamos: da vida verdadeira.
Precisamos nos tornar mais humanos. Precisamos reaprender a sentir a dor do outro, a lutar por ele, a cuidar uns dos outros. Precisamos nos unir — em nome da paz, do bem, do amor — independentemente de credo, cor, identidade, origem ou classe social.
Porque enquanto não formos capazes de enxergar no outro um espelho da nossa própria existência, não haverá salvação.
Assinado: Um ser humano cansado da indiferença, mas ainda esperançoso.
Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.