Sexualização. De forma simples, é quando algo, uma pessoa, uma atitude ou até uma conversa, passa a ser encarado com um olhar sexual, mesmo que esse não fosse o propósito inicial. E isso, hoje em dia, está por toda parte. Está nas músicas que descrevem, sem pudor, momentos íntimos. Nos filmes que colocam cenas de sexo que muitas vezes não têm qualquer ligação com a história, e se fossem retiradas não fariam a menor diferença. Nas piadas, que antes eram leves e agora giram quase sempre em torno do corpo e da intimidade. Até em salas de aula, esse tipo de conteúdo aparece disfarçado, ou explícito, em conversas entre jovens. É como se tudo precisasse ter um toque de erotismo para chamar atenção, e isso tem mudado a forma como as pessoas se relacionam com o mundo ao seu redor. Por isso, a reportagem da Folha conversou com alguns profissionais de saúde e educação, que demonstram como isso se tornou um problema para a sociedade.
Com o passar dos anos, acredita-se que o mundo tenha evoluído em muitos aspectos, como ciência, tecnologia comunicação e educação, e de fato, esta evolução existe. Mas quando se observa o que tem sido consumido como entretenimento, essa ideia de evolução se torna questionável. Hoje, para chamar atenção ou simplesmente se sentir parte da sociedade, parece quase obrigatório inserir conteúdo sexual em tudo, e quem não adota estas práticas, corre o risco até mesmo de ser chamado de “careta”. Pode-se acreditar que a sexualização deixou de ser uma prática imoral e exceção, e se tornou quase um requisito para quem deseja audiência, fama ou até mesmo uma simples risada.
Psicóloga Hellen Martins, de Arapoti. Foto: Arquivo Pessoal
Neste cenário, uma das principais preocupações é a exposição de crianças e adolescentes a estes tipos de conteúdo. A psicóloga Hellen Martins, da cidade de Arapoti, destaca que o contato precoce com temas sexuais pode gerar efeitos profundos no desenvolvimento emocional, comportamental e até biológico dos jovens.
“Crianças estão deixando de viver etapas fundamentais da infância para lidar com informações que não têm maturidade para entender. Isso causa ansiedade, comportamentos desajustados e, muitas vezes, sofrimento. Precisamos estar presentes, orientar com clareza e garantir que cresçam com segurança e no tempo certo”, explica.
Um exemplo claro disso está nos stand-ups. Quando começaram a ganhar popularidade, eram uma forma leve e espontânea de humor, onde o cotidiano, coisas que acontecem no dia a dia, era transformado em piada. Mas com o tempo, afim de ganhar mais popularidade e acesso, muitos comediantes passaram a adotar o conteúdo sexual para garantir o sucesso e mais público. Nas redes sociais, há humoristas que utilizam um repertório que gira apenas em torno da vida íntima e das relações sexuais. Perguntas como “Como foi a sua primeira vez?”, “Qual o lugar mais inusitado que fizeram?” ou “Você curte experimentar coisas diferentes?”, são comuns em alguns vídeos, e o mais preocupante, circulam livremente, sendo acessíveis até a menores de idade. Contudo, a questão não é o conteúdo criado, mas como a sociedade ovaciona este tipo de conteúdo, sobre como necessita do erotismo como entretenimento e como isso a afeta.
Com estes conteúdos circulando livremente, e sendo acessados diariamente por menores de idade, isto se torna um problema para as instituições educacionais, tendo em vista que o impacto desta sexualização virtual acaba afetando o ambiente escolar, trazendo conversas consideradas indecentes entre os adolescentes e fazendo com que o ambiente de estudo se torne mais um local onde o teor sexual domina.
Psicopedagoga Simone Luiza de Souza Silva, de Wenceslau Braz. Foto: Davi Martins/Folha Extra
De acordo com a psicopedagoga Simone Luiza de Souza Silva, de Wenceslau Braz, o debate sobre sexualização se tornou uma necessidade dentro das escolas, justamente por conta da influência de conteúdos que muitas vezes estimulam a prática, mas não orientam sobre os riscos.
“Hoje é essencial tratar esse tema nas escolas. O problema é que ele tem sido banalizado por alguns adolescentes, e em muitos casos os perigos, como a responsabilidade emocional, são deixados de lado. As conversas acabam se tornando vulgares, perdendo a seriedade com que deveriam ser conduzidas”, afirmou à reportagem da Folha.
Portanto, diante deste cenário, surge o questionamento sobre o real avanço da sociedade como portadores de uma decência humana na qual o mundo foi baseado e construído durante anos, trazendo uma reflexão que não se volta apenas para o critério de caráter e da imoralidade que banalizou estes conteúdos ao longo dos anos, mas também traz consigo o questionamento sobre a segurança do futuro social, que, espelhando o hoje e mirando no amanhã, trará um mundo totalmente ficcionado e viciado no erotismo e no sexualismo.